Brasil pode gerar 760 mil novos empregos em bioenergia até 2030 e consolidar liderança global na economia de baixo carbono

Estudo da Schneider Electric e da Systemiq revela expansão acelerada da cadeia produtiva, mas aponta qualificação profissional como gargalo crítico para sustentar o crescimento

A bioenergia avança no centro das estratégias globais de descarbonização, e o Brasil emerge como protagonista absoluto dessa transformação. Um novo estudo publicado pela Schneider Electric em parceria com a consultoria Systemiq projeta que o país pode gerar até 760 mil novos empregos em bioenergia até 2030, impulsionado pela demanda crescente por combustíveis renováveis e pelo reposicionamento da indústria brasileira de baixo carbono. O relatório, intitulado Shaping Brazil’s Workforce for a De-fossilized Economy, reforça o papel do Brasil como líder mundial da bioenergia, com 26% da força de trabalho global do setor.

Segundo o documento, a expansão acelerada da cadeia produtiva, que engloba desde a produção agrícola até a indústria, logística, digitalização e manutenção, coloca o país em uma posição estratégica tanto do ponto de vista climático quanto econômico. Mas o estudo também acende um alerta: a falta de mão de obra qualificada já compromete o ritmo de crescimento, exigindo uma mobilização coordenada entre governo, empresas e instituições de ensino.

A bioenergia ganha peso na transição energética global

Com base em cenários da Agência Internacional de Energia (IEA), o relatório demonstra que a demanda por biocombustíveis continuará a crescer mesmo em mercados altamente eletrificados. Setores de difícil descarbonização, como aviação, navegação e indústrias de base, manterão a necessidade de moléculas de carbono de baixo impacto, fazendo com que a participação da bioenergia na matriz global aumente de 7% para 18% até 2050.

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Esse movimento abre uma janela estratégica para o Brasil. O país combina escala agrícola, disponibilidade de terras degradadas e um ecossistema industrial robusto capaz de ampliar rapidamente a produção de etanol, biodiesel, biometano e SAF. O estudo destaca que esses combustíveis não apenas reduzem emissões, mas também geram desenvolvimento regional, modernização da indústria e estímulo à inovação.

Ao analisar os dados do estudo, Rafael Segrera, presidente da Schneider Electric para a América do Sul, enfatizou que a descarbonização é uma estratégia de longo prazo para a competitividade brasileira.

“Este estudo mostra que a descarbonização é mais do que uma agenda ambiental, trata-se de um caminho para fortalecer a competitividade do Brasil no longo prazo. Os dados indicam que, cada novo emprego direto na cadeia da bioenergia pode gerar até três postos indiretos em setores como transporte e manutenção. Estamos falando de um efeito multiplicador que impulsiona inovação, renda e desenvolvimento regional. A transição energética será vencedora se for também uma transição justa e isso começa com a capacitação das pessoas.”

Qualificação profissional é o principal gargalo da expansão

Apesar do enorme potencial, o estudo é categórico: o Brasil precisa qualificar 450 mil profissionais até 2030 para sustentar o crescimento projetado. Desse total, 75 mil técnicos e engenheiros necessitarão de formação especializada em automação, eletrificação, eficiência energética e tecnologias digitais. Outros 380 mil trabalhadores deverão passar por processos de requalificação técnica para atuar nas fases agrícola, logística e industrial da cadeia.

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A urgência dessa agenda é reforçada por Patricia Ellen, sócia da Systemiq LATAM, que analisou a importância econômica e social do momento como uma oportunidade estratégica. “Estamos diante de uma oportunidade de redesenhar o vínculo entre desenvolvimento econômico e sustentabilidade. O desafio não é apenas gerar empregos, mas garantir que eles sejam qualificados, verdes e inclusivos. O Brasil pode se tornar um modelo global de como preparar sua força de trabalho para a nova economia de baixo carbono.”

Segundo o estudo, a falta de capacitação já se reflete em entraves operacionais, baixa produtividade em determinadas regiões e dificuldades para preencher vagas em segmentos estratégicos da indústria.

Impacto econômico e evolução da cadeia de valor

O relatório detalha os efeitos diretos e indiretos sobre o PIB brasileiro:

  • Produção de biomassa: até 530 mil novos empregos e impacto econômico entre US$ 21 bilhões e US$ 40 bilhões.
  • Indústria e processamento: até 170 mil empregos diretos e 480 mil indiretos, somando mais de US$ 13 bilhões em valor econômico.
  • Logística: cerca de 34 mil novas vagas, movimentando US$ 700 milhões.

Além dos números, o estudo aponta um fator decisivo para elevar a eficiência do setor: a digitalização e automação industrial. Tecnologias como monitoramento inteligente, conectividade avançada e plataformas de gestão energética são vistas como pilares para reduzir perdas, padronizar processos e elevar a competitividade global da bioenergia brasileira.

Plano de ação: três fases para preparar a força de trabalho

Para garantir que o país capture integralmente o potencial da bioenergia, o estudo propõe um plano de ação baseado em três horizontes:

  • Curto prazo
    • Academias corporativas
    • Programas de capacitação in company
    • Certificações modulares para suprir demandas urgentes
  • Médio prazo
    • Integração de dados entre governo, empresas e instituições de ensino
    • Criação de observatórios de competências
    • Certificações verdes alinhadas a padrões internacionais
  • Longo prazo
    • Reformas estruturais na educação técnica e superior
    • Inserção de competências digitais, industriais e ambientais nos currículos
    • Estruturas de governança intersetorial para coordenação contínua

Entre as boas práticas já existentes, o relatório cita iniciativas como o Industrial Training for Productivity (SENAI), o programa Empreenda Rápido do Governo de São Paulo e a plataforma Open Talent Market da Schneider Electric, que utiliza inteligência artificial para mapear e desenvolver talentos.

Metodologia robusta e análise aprofundada

O estudo reúne entrevistas com especialistas, modelagens econômicas e bases oficiais como RAIS, CNAE e BNDES, além de referências internacionais da OCDE, CNI e SENAI. A combinação dessas fontes permitiu construir um panorama completo sobre as tendências da força de trabalho e as competências necessárias para sustentar uma economia “desfossilizada”.

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