Paper apresentado em Belém aponta lentidão preocupante na transição do setor industrial e destaca que, sem investimentos robustos em eletrificação e modernização das redes, países não alcançarão a economia net-zero
Em meio às discussões climáticas da COP30, realizada em Belém, a Hitachi Energy lançou um sinal de alerta ao apresentar o paper “Descarbonização da Indústria: O Papel da Eletrificação”. O documento, apresentado por Anthony Allard, membro do conselho executivo da companhia, reúne análises técnicas e projeções que mostram como a baixa velocidade da eletrificação industrial pode comprometer os compromissos climáticos firmados globalmente, especialmente em um cenário em que 2024 foi confirmado como o ano mais quente já registrado.
O estudo reforça um diagnóstico já conhecido por especialistas em energia, mas raramente exposto com tamanha clareza durante um evento global: a indústria é responsável por cerca de 24% das emissões globais de CO₂ e consome 37% de toda a energia do planeta, segundo dados reunidos pela empresa. Apesar da expansão crescente das energias renováveis e das metas de descarbonização dos países, o setor avança de forma lenta em direção à eletrificação profunda.
Aquecimento recorde e pressão sobre a indústria
Logo na abertura do documento, a Hitachi Energy resgata o contexto climático crítico que motivou a elaboração do estudo. Em 2024, o planeta ultrapassou pela primeira vez, ao longo de um ano inteiro, a barreira de 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais. A confluência entre emissões humanas, variabilidade climática e eventos como o El Niño reforçou a urgência de medidas mais contundentes.
Nesse cenário, Anthony Allard destacou que a indústria precisa acelerar profundamente seu processo de transformação energética, sob risco de comprometer metas globais. Ele contextualizou os objetivos do paper ao apresentá-lo na COP30.
“Descarbonização da Indústria: O Papel da Eletrificação” sublinha que a eletrificação industrial não é apenas uma necessidade climática, mas uma oportunidade para modernizar a produção, aumentar a competitividade e liderar a transição para uma economia net-zero”, destacou Allard.
O levantamento evidencia ainda o potencial econômico desse movimento. Segundo a consultoria Precedence Research, o mercado global de eletrificação industrial, avaliado em US$ 43,95 bilhões em 2024, deve mais que dobrar até 2034, chegando a US$ 95,79 bilhões, impulsionado por tecnologias de aquecimento elétrico, digitalização e soluções de armazenamento.
Principais barreiras estruturais à eletrificação industrial
O documento aponta que a adoção de tecnologias elétricas nas indústrias avança de forma insuficiente diante da urgência climática. Entre os entraves, destacam-se:
- Ciclos longos de substituição de equipamentos, que podem durar décadas.
- Estruturas tarifárias de eletricidade desfavoráveis, que tornam a migração para eletrificação menos competitiva.
- Infraestrutura de rede defasada ou inflexível, incapaz de absorver novas cargas e integrar renováveis em larga escala.
- Escassez de profissionais qualificados, dificultando o planejamento e a operação de sistemas eletrificados.
Essa combinação de fatores, segundo o estudo, explica por que a indústria avança mais lentamente do que o setor de energia em direção às metas de descarbonização. Ao mesmo tempo, a Hitachi Energy defende que a eletrificação proporciona ganhos significativos de competitividade, eficiência e segurança energética para as empresas.
A necessidade de redes mais robustas e inteligentes
A Hitachi Energy dedica parte relevante do paper à infraestrutura elétrica, considerada o elemento mais crítico para viabilizar a eletrificação industrial em escala. A empresa afirma que as redes atuais não foram projetadas para a nova dinâmica de consumo e geração, marcada pela alta penetração de renováveis e por cargas industriais mais intensas e sensíveis.
O documento reforça que a modernização da rede deve incluir um planejamento integrado de longo prazo, alinhando metas industriais e energéticas, digitalização avançada, com uso de inteligência artificial e eletrônica de potência, expansão e reforço de linhas, considerando aumento relevante da demanda elétrica até 2026 e uso intensivo de soluções como FACTS, armazenamento e gerenciamento ativo de demanda.
A empresa destaca que cada US$ 1 investido em expansão de transmissão pode gerar até US$ 5,80 em benefícios econômicos, segundo estudos setoriais, ao reduzir congestionamentos, ampliar o uso de renováveis e elevar a confiabilidade do sistema.
Tecnologias já disponíveis, mas ainda pouco adotadas
O estudo indica que grande parte das tecnologias necessárias para descarbonizar processos industriais, especialmente de baixa e média temperatura, já está madura. Entre elas:
- Bombas de calor industriais
- Caldeiras elétricas
- Sistemas de armazenamento de energia
- Soluções avançadas de controle e automação
- Inteligência artificial aplicada a otimização operacional
Mesmo assim, a adoção segue lenta. Para a Hitachi Energy, o gargalo não está na falta de tecnologia, mas na falta de escala, planejamento e incentivos.
Formação profissional e cooperação são indispensáveis
O paper reforça que o sucesso da eletrificação industrial depende também de capacitação técnica. Entre as recomendações estão a criação de programas de treinamento especializados, formação de hubs regionais de conhecimento, expansão da cadeia de suprimentos e maior colaboração entre fabricantes, utilities e indústrias.
Essas medidas, segundo o estudo, são essenciais para acelerar projetos em setores como papel e celulose, aço, químico e alimentos.
Conclusão: eletrificação é condição para cumprir metas climáticas
O alerta da Hitachi Energy durante a COP30 é direto: sem eletrificação, não há descarbonização industrial possível.
A empresa argumenta que apenas com redes robustas, políticas adequadas e adoção acelerada de tecnologias será viável atingir metas climáticas e garantir competitividade econômica em um cenário de aquecimento global crescente.



