Brasil acelera a corrida do hidrogênio verde e mira exportações já em 2030

Com regulação aprovada, incentivos bilionários e crescente interesse internacional, o país desponta como protagonista global no mercado de hidrogênio verde e derivados, consolidando um portfólio de tecnologias para a descarbonização

O Brasil está pronto para iniciar a exportação de hidrogênio verde a partir de 2030, segundo Fernanda Delgado, diretora executiva da Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde (ABIHV). O anúncio foi feito durante o painel Descarbonização e Combustível do Futuro, realizado em 5 de novembro, na 8ª edição da Energy Transition Research & Innovation Conference (ETRI), evento promovido pelo Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa da USP (RCGI-USP).

A executiva destacou que o país entra em uma nova fase de expansão, impulsionada pela aprovação da regulação e por incentivos robustos. “As empresas estão prontas para iniciar a produção em 2029 e as exportações em 2030, impulsionadas por subsídios legais de € 3 bilhões previstos entre 2030 e 2034”, afirmou Delgado.

Segundo ela, a consolidação das políticas de incentivo cria o ambiente ideal para o investimento privado e para a atração de compradores internacionais, especialmente da Europa e da Ásia. “Nossa trajetória mostra que é possível unir política industrial e ambiental, como fizemos com o etanol, o biodiesel, a energia eólica e o gás natural liquefeito. No início, tudo parecia caro ou inviável, mas o tempo e o ganho de escala mudaram isso. Agora é hora de transformar as promessas em negócios concretos”, completou.

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Mobilidade do futuro e infraestrutura de hidrogênio

O hidrogênio verde é visto como uma das peças centrais da mobilidade do futuro, especialmente em aplicações industriais, marítimas e de transporte pesado. Para Ricardo Martins, da Hyundai Motor das Américas Central e do Sul, o Brasil tem potencial para se tornar referência mundial nessa transição.

“O hidrogênio é peça central da mobilidade do futuro. O Brasil é referência tecnológica, apoiado por políticas públicas e centros de pesquisa, mas a descarbonização depende também da viabilidade econômica”, destacou. Ele ressalta a importância de investir em infraestrutura de produção e distribuição e em métricas confiáveis de emissões, fatores que garantem transparência e atraem investidores.

Martins lembrou ainda que há mais de US$ 1 trilhão disponíveis globalmente para projetos de descarbonização, e que até 2025 metade da mobilidade mundial deve ser movida a hidrogênio. “É uma oportunidade econômica e, sobretudo, uma questão de sobrevivência da sociedade”, concluiu.

Indústria e “refinarias do futuro”

A adoção do hidrogênio verde e de seus derivados também representa uma reconfiguração profunda da indústria química e energética, como observou André Faaij, cientista-chefe do TNO Energy & Materials Transition.

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Segundo ele, os próximos 25 anos serão marcados por transformações industriais aceleradas. “Já existem tecnologias e sistemas economicamente viáveis para essa transição, mas será necessário combinar múltiplas soluções, amônia, hidrogênio, biocombustíveis e combustíveis sintéticos”, explicou.

Faaij defende a criação das ‘refinarias do futuro’, unidades industriais híbridas capazes de operar com diferentes origens de carbono e vetores energéticos. “O horizonte de 25 anos é curto, e o elemento-chave é a inovação contínua. Não cumprir a meta de limitar o aquecimento a 1,5 °C pode custar de 20% a 25% do PIB mundial; em um cenário de 3 °C, o impacto pode atingir dois terços da economia global”, alertou, citando estudo publicado na revista Nature.

O papel estratégico do etanol e dos biocombustíveis

No contexto brasileiro, os biocombustíveis seguem como aliados estratégicos da descarbonização. Para Plinio Nastari, presidente da Datagro, o etanol é o melhor vetor para o hidrogênio verde, pois permite gerar o combustível no ponto de uso, a partir de uma fonte renovável e abundante.

“Desde o Proálcool, o Brasil substituiu mais de 4 bilhões de barris de gasolina e evitou 1 bilhão de toneladas de CO₂. Hoje, metade da matriz energética nacional é renovável”, destacou Nastari. Ele também ressaltou o avanço do sistema regulatório e das certificações de biocombustíveis, que medem a intensidade de carbono e fortalecem a competitividade do setor.

“Além de reduzir emissões, o desenvolvimento dos biocombustíveis impulsionou a engenharia automotiva nacional, tornando o país um dos seis polos mundiais do setor”, acrescentou.

Transição energética no setor marítimo

Mesmo em setores tradicionalmente intensivos em carbono, como o marítimo, a transição energética já está em curso. De acordo com Flávio Haruo Mathuiy, representante da Marinha do Brasil, o setor naval tem avançado na adoção de combustíveis de baixo carbono, como amônia e metanol, em consonância com as metas da Organização Marítima Internacional (IMO) para 2050.

Mathuiy destacou que, embora pressões de países produtores de petróleo tenham adiado parte das decisões, o movimento é irreversível. “O setor marítimo segue por iniciativa própria, impulsionado pela competitividade e pela sobrevivência de mercado. A Marinha participa de fóruns e cooperações internacionais voltadas à eficiência energética e ao desenvolvimento de novos combustíveis marítimos”, afirmou.

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