Rafael Grossi anuncia candidatura à Secretaria-Geral da ONU e encerra ciclo à frente da Agência Internacional de Energia Atômica

Diplomata argentino, reconhecido por sua atuação na crise nuclear da Ucrânia e na governança global da energia, pretende suceder António Guterres em 2027 e abrir espaço inédito para a América Latina no comando da ONU

O atual diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Mariano Grossi, confirmou oficialmente nesta quarta-feira (5) sua intenção de concorrer ao cargo de Secretário-Geral das Nações Unidas (ONU), em sucessão a António Guterres, cujo mandato termina em janeiro de 2027. A decisão, que vinha sendo especulada há meses nos bastidores diplomáticos, foi formalizada em Washington (EUA), durante compromissos oficiais do argentino na capital americana.

“Serei candidato ao cargo de Secretário-Geral da ONU”, declarou Grossi, encerrando qualquer dúvida sobre sua movimentação política e colocando oficialmente em marcha o processo que, nas palavras do próprio, “já começou a girar”.

Da energia nuclear à diplomacia global

Diplomata de carreira e especialista em energia nuclear e não proliferação de armas atômicas, Rafael Grossi ocupa desde 2019 o cargo de diretor-geral da AIEA, agência vinculada à ONU e responsável por supervisionar o uso pacífico da energia nuclear no mundo. Antes disso, foi embaixador da Argentina na Áustria, entre 2013 e 2019, e exerceu funções de alto nível como chefe de gabinete da própria AIEA e da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ).

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Durante sua gestão, Grossi ganhou projeção internacional ao liderar missões em zonas de conflito, especialmente na usina nuclear de Zaporizhzhia, na Ucrânia, ocupada por tropas russas desde 2022. Em meio a bombardeios e riscos de acidente nuclear, o argentino tornou-se um dos principais defensores da criação de uma zona de segurança nuclear em torno da instalação — uma iniciativa inédita na diplomacia energética contemporânea.

Sua postura ativa diante de crises elevou o papel da AIEA no cenário internacional, transformando a agência em voz técnica e política no debate sobre segurança energética e estabilidade geopolítica.

Candidatura com apoio estratégico e expectativa regional

Segundo o próprio Grossi, o processo formal de candidatura à ONU deve ser iniciado “nas próximas semanas”, mas já conta com apoio diplomático em articulação, incluindo conversas com o secretário de Estado americano, Marco Rubio.

A candidatura do argentino segue a tradição não escrita de rotação geográfica para o cargo de Secretário-Geral. Depois de dois mandatos consecutivos europeus, o português António Guterres foi eleito em 2016 e reeleito em 2021, cresce a expectativa de que a América Latina assuma o comando da ONU pela primeira vez na história.

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Analistas destacam que o perfil de Grossi combina experiência técnica, capacidade de negociação e liderança em crises internacionais, o que o coloca em vantagem em relação a outros possíveis candidatos da região. Sua trajetória à frente da AIEA também o consolidou como um nome respeitado por potências nucleares, incluindo Estados Unidos, Rússia e China — um ativo importante para disputar o mais alto cargo da diplomacia global.

Desafios energéticos e legado na AIEA

Ao longo de sua gestão, Grossi defendeu uma visão moderna da energia nuclear, enfatizando seu papel no combate às mudanças climáticas e na transição energética global. Sob sua liderança, a AIEA expandiu programas de cooperação técnica com países em desenvolvimento, apoiando o uso de reatores de pesquisa, radioterapia médica e tecnologias nucleares voltadas à agricultura sustentável.

Durante a COP28, em 2023, Grossi articulou o Compromisso de Energia Nuclear, que reuniu mais de 20 países signatários dispostos a triplicar a capacidade global de geração nuclear até 2050, como forma de reduzir emissões de carbono. Essa iniciativa consolidou a posição da AIEA como um dos pilares da governança climática global.

Sua saída da agência, entretanto, deixará um vácuo estratégico. A sucessão na AIEA poderá reabrir debates sobre equilíbrio de poder entre países desenvolvidos e emergentes no controle de tecnologias nucleares e sobre o papel da energia atômica na matriz energética mundial.

Um marco histórico para a América Latina

A eventual eleição de Rafael Grossi representaria não apenas um feito pessoal, mas também um marco para a diplomacia latino-americana, que nunca ocupou o cargo de Secretário-Geral das Nações Unidas. O continente já forneceu líderes para a Organização dos Estados Americanos (OEA) e para o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), mas a ONU permanece um espaço inédito para a região.

Grossi, conhecido por sua oratória firme e postura pragmática, tem reiterado que sua candidatura busca “construir pontes entre tecnologia, diplomacia e sustentabilidade”, refletindo um novo modelo de liderança global mais técnico e menos ideológico — uma mensagem que dialoga diretamente com os desafios do século XXI, como segurança energética, mudanças climáticas e governança digital.

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