China domina conversão de tório em urânio e inaugura nova era da energia nuclear limpa

Avanço em reator de sal fundido no Deserto de Gobi marca um salto tecnológico histórico e pode garantir autonomia energética à China por mais de mil anos com o uso de um combustível mais abundante e barato

Em um marco sem precedentes para o setor energético global, cientistas chineses alcançaram o feito histórico de converter tório em urânio dentro de um reator experimental de sal fundido, abrindo caminho para uma nova geração de energia nuclear limpa, segura e praticamente inesgotável.

O anúncio foi feito nesta segunda-feira (3), pelo Instituto de Física Aplicada de Xangai, localizado no Deserto de Gobi, e ganhou destaque na imprensa internacional. De acordo com o South China Morning Post (SCMP), trata-se da primeira vez no mundo em que foram obtidos dados experimentais de operações com tório em um reator desse tipo, um “passo importante para o futuro da energia nuclear sustentável”.

O resultado reforça a posição da China como líder no desenvolvimento de tecnologias nucleares de quarta geração, que buscam superar os desafios de segurança, custo e sustentabilidade enfrentados pelos reatores convencionais movidos a urânio.

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Tório: o combustível do futuro

O tório (Th-232) é um metal radioativo três a quatro vezes mais abundante que o urânio na crosta terrestre e está presente em minérios comuns, como a monazita, encontrada em grandes quantidades na Ásia, América do Sul e África.

Além de ser mais barato e gerar menos resíduos radioativos, o tório não é facilmente convertido em material bélico, o que o torna uma alternativa mais segura do ponto de vista da proliferação nuclear.

O feito chinês mostra que o país avança rapidamente em direção à autonomia energética, ao utilizar uma fonte de combustível com enorme potencial. Estimativas apontam que apenas um depósito de rejeitos na Mongólia Interior conteria tório suficiente para suprir a demanda energética chinesa por mais de mil anos.

Segundo o analista e pesquisador Yu Zeyuan, a conquista é considerada estratégica. “O avanço é a ‘carta na manga’ da China na energia nuclear de quarta geração, marcando o domínio de uma tecnologia-chave que permite ao país avançar rapidamente, reduzir a dependência do urânio importado e oferecer uma nova solução para sua segurança energética.”

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O reator de sal fundido: inovação em segurança e eficiência

Diferente dos reatores nucleares tradicionais, que utilizam água pressurizada para resfriamento, os reatores de sal fundido empregam fluoretos líquidos de tório e urânio dissolvidos em sais fundidos.

Essa tecnologia oferece maior eficiência térmica e segurança intrínseca, pois o combustível líquido pode ser drenado em caso de superaquecimento, evitando acidentes nucleares como os de Chernobyl ou Fukushima.

O projeto conduzido no Deserto de Gobi é parte do programa chinês de energia nuclear avançada, que busca posicionar o país como líder global em tecnologias nucleares limpas até 2035. O governo chinês tem investido bilhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento, com foco em reatores de tório, pequenos reatores modulares (SMRs) e fusão nuclear.

A abundância estratégica do tório na China

Em artigo publicado no portal ThinkChina, o pesquisador Yu Zeyuan destacou que os recursos conhecidos de tório no país somam entre 1,3 e 1,4 milhão de toneladas. Ele enfatiza ainda que o mineral pode ser extraído como subproduto de outros processos minerais, o que reduz ainda mais seus custos de exploração.

“Por exemplo, a monazita pode conter até 7% de tório”, observou Zeyuan, reforçando o potencial econômico e estratégico da exploração do elemento.

Além da China, países como Índia, Noruega e Estados Unidos também têm projetos de reatores de tório em desenvolvimento, mas a capacidade de produção e a escala industrial chinesa colocam o país em posição de destaque para liderar o mercado global dessa nova fronteira energética.

Perspectivas: autonomia e descarbonização

O avanço ocorre em um momento em que o mundo busca substituir combustíveis fósseis por alternativas de baixo carbono. Embora a energia solar e eólica tenham dominado a expansão renovável nas últimas décadas, a energia nuclear limpa baseada em tório desponta como uma opção de base firme capaz de garantir estabilidade e suprimento contínuo para sistemas elétricos cada vez mais intermitentes.

Especialistas avaliam que o domínio do ciclo do tório pode reduzir significativamente a dependência chinesa de importações de urânio e carvão, além de impulsionar o cumprimento das metas de neutralidade de carbono até 2060.

Com o novo reator experimental, a China dá um passo decisivo rumo à autossuficiência energética de longo prazo, ao mesmo tempo em que reforça sua liderança na corrida pela energia limpa e estratégica do futuro.

Desafios técnicos e o caminho adiante

Apesar dos avanços, os reatores de sal fundido ainda enfrentam desafios técnicos e regulatórios, como o desenvolvimento de materiais resistentes à corrosão e o aperfeiçoamento dos sistemas de controle em alta temperatura.

Entretanto, com os resultados obtidos no experimento no Deserto de Gobi, a China parece ter superado uma das barreiras mais críticas do processo, a conversão controlada do tório em urânio-233, combustível que sustenta a reação nuclear.

Esse avanço abre espaço para a escalada industrial da tecnologia e para a cooperação internacional em energia nuclear de baixo risco e alta eficiência.

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