Relatório “O Estado da Inovação em Energia” detalha como novos avanços tecnológicos podem redefinir o mercado global de baterias e reduzir riscos na cadeia de suprimentos
A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que o futuro dos mercados globais de baterias e da segurança dos minerais críticos dependerá diretamente da inovação tecnológica, da eficiência produtiva e da diversificação geográfica das cadeias de suprimentos. A análise faz parte do Capítulo 7 do relatório “O Estado da Inovação em Energia”, publicado pela agência no início de 2025, e antecipa os debates que ocorrerão no Fórum de Inovação em Energia da AIE, em Toronto (Canadá), em 29 de outubro, na véspera da Reunião de Ministros de Energia e Meio Ambiente do G7.
Segundo a AIE, a indústria de baterias passou por uma transformação histórica entre 2010 e 2024: a demanda global cresceu mais de 40 vezes, enquanto o preço médio caiu 90%. O mercado, hoje avaliado em US$ 130 bilhões, já supera as importações líquidas de petróleo de grandes economias europeias como Alemanha, França e Itália.
Esse avanço foi sustentado por inovação contínua em design, química e manufatura, que impulsionou a expansão dos veículos elétricos (VEs), responsáveis por 75% da demanda global de baterias. Os sistemas de armazenamento estacionário (BESS) respondem por 15%, e os eletrônicos portáteis, que já dominaram o setor, representam apenas 5% do mercado atual.
Domínio tecnológico do LFP e do NMC e o risco da concentração geográfica
O mercado de baterias para veículos elétricos está dividido entre duas químicas dominantes: lítio-ferro-fosfato (LFP) e níquel-manganês-cobalto (NMC), cada uma com cerca de metade da participação global. O LFP, em especial, vem crescendo mais rápido, liderando aplicações em armazenamento de energia devido ao menor custo e maior vida útil.
No entanto, a concentração geográfica das cadeias de suprimentos continua sendo um ponto crítico. A China detém grande parte da capacidade de produção, controle de insumos e domínio tecnológico, o que eleva o risco de dependência geopolítica e vulnerabilidade logística.
Para a AIE, a resposta está na inovação. “Há oportunidades para combater essa concentração e, assim, melhorar a resiliência da cadeia de suprimentos. A inovação é fundamental, com pesquisas em andamento sobre tecnologias novas e já estabelecidas”, destaca o relatório.
Novas químicas e a busca por independência tecnológica
Entre as alternativas emergentes, as baterias de íons de sódio ganharam destaque após a alta dos preços do lítio em 2022. Essas baterias substituem o lítio pelo sódio, elemento muito mais abundante na crosta terrestre, reduzindo o custo e a pressão sobre a mineração.
Na China, os primeiros veículos elétricos equipados com baterias de íons de sódio começaram a ser comercializados no fim de 2023, e sistemas estacionários com essa tecnologia já foram conectados à rede em 2024. A projeção, porém, é que o país concentre 95% da capacidade global de produção desse tipo de bateria até 2030, o que limita sua promessa de diversificação internacional.
Outra aposta são as baterias de estado sólido, vistas como uma das inovações mais promissoras para o segmento automotivo premium. Elas oferecem maior densidade energética e segurança, mas ainda enfrentam barreiras técnicas e de escala. A BYD planeja lançar o primeiro veículo com essa tecnologia em 2027, e Toyota e Samsung estabeleceram metas semelhantes, com produção em massa prevista para 2030.
O relatório observa, contudo, que “os custos iniciais serão altos, refletindo processos de fabricação e cadeias de suprimentos imaturos”, e que essas baterias devem permanecer restritas aos segmentos premium até meados da década de 2030.
Também ganham atenção as baterias de lítio-enxofre, que armazenam mais energia por quilograma e podem reduzir o peso total das baterias, uma vantagem para aplicações militares e aeroespaciais. No entanto, desafios de segurança e eficiência volumétrica ainda limitam sua adoção em larga escala.
Baterias consolidadas continuam evoluindo e dominando a escala
Mesmo com o surgimento de novas químicas, as baterias de íons de lítio seguem ampliando seu domínio. Desde 2020, os custos caíram 30% e a densidade energética aumentou 50% nas NMC e 65% nas LFP, sem comprometer segurança ou durabilidade.
A IEA cita que padrões de segurança melhoraram substancialmente e que a vida útil das baterias de veículos elétricos superou expectativas, com novos recordes em carregamento ultrarrápido: modelos lançados em 2025 pela BYD e CATL já permitem adicionar 400 a 500 quilômetros de autonomia em apenas cinco minutos, um tempo comparável ao abastecimento de combustíveis fósseis.
Esses avanços mostram que a inovação incremental nas tecnologias existentes pode ser tão determinante quanto as chamadas inovações disruptivas. O grande diferencial, segundo o relatório, está na capacidade industrial e na escala de produção.
Capacidade industrial e capital: o elo crítico da transição
A IEA alerta que transformar inovação em impacto depende de fábricas, financiamento e mão de obra qualificada. Hoje, 95% da capacidade global de produção de baterias ainda é voltada a tecnologias de íons de lítio. As de estado sólido representam apenas 1%, e as de íons de sódio, 4%, quase todas localizadas na China.
O desafio de atrair investimento é crescente: o financiamento global de startups de baterias caiu de US$ 7 bilhões em 2021 para US$ 2 bilhões em 2024, dificultando a entrada de novos players. Enquanto isso, gigantes como a CATL, que investiu mais de US$ 2,5 bilhões em P&D e emprega 20 mil pesquisadores, seguem ampliando sua vantagem tecnológica.
“O futuro das baterias de próxima geração será definido por quem conseguir combinar avanços técnicos com eficiência de fabricação, cadeias de suprimentos robustas e uma força de trabalho qualificada”, conclui o estudo.
Conclusão: inovação contínua e política industrial integrada
A análise da IEA reforça que a inovação é o eixo central da segurança energética global. A diversificação tecnológica e geográfica das cadeias de baterias é essencial não apenas para reduzir riscos de suprimento, mas também para garantir competitividade industrial, sustentabilidade ambiental e acesso equitativo a tecnologias limpas.
Com a demanda projetada para triplicar até 2030 e quintuplicar até 2035, a combinação entre política industrial estratégica, investimento privado e pesquisa aplicada será decisiva para definir quem liderará o mercado global de baterias, e quem ficará dependente das cadeias dominantes.



