Funcionários da Empresa de Pesquisa Energética entram em nova paralisação de 96 horas e anunciam possibilidade de greve por tempo indeterminado; movimento reivindica reposição salarial e pode impactar estudos estratégicos e leilões do setor elétrico
Os servidores da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), órgão vinculado ao Ministério de Minas e Energia (MME) responsável pelo planejamento de médio e longo prazo do setor elétrico brasileiro, decidiram ampliar o movimento grevista iniciado no começo de outubro. A partir da terça-feira, 28 de outubro, os funcionários realizarão uma paralisação de 96 horas, com término previsto para 31 de outubro.
A greve tem como principal reivindicação a reposição das perdas inflacionárias acumuladas desde 2014, estimadas em 23% pelos sindicatos da categoria. A insatisfação está ligada à ausência de avanços nas negociações do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) para o biênio 2025-2026.
De acordo com o Sindicato dos Trabalhadores das Empresas de Energia do Rio de Janeiro e Região (Sintergia-RJ), caso não haja uma proposta concreta de recomposição salarial até 17 de novembro, o movimento poderá evoluir para greve por tempo indeterminado.
Greve ameaça leilões e o planejamento energético nacional
A EPE desempenha papel estratégico no funcionamento do setor elétrico brasileiro, sendo responsável por estudos técnicos, projeções de demanda e modelagens que subsidiam decisões da ANEEL, do ONS e do próprio MME. Por isso, a paralisação preocupa agentes do setor quanto ao risco de atrasos em projetos e processos licitatórios.
Entre os impactos potenciais, os trabalhadores alertam que a greve pode atrasar a preparação dos leilões de energia, incluindo o primeiro leilão de baterias, que está em fase de planejamento na autarquia. Esse certame é considerado um marco para a modernização do sistema elétrico e para a expansão do armazenamento energético no país, tecnologia essencial para integrar fontes renováveis como solar e eólica.
Segundo fontes do movimento, a suspensão de atividades já afeta o andamento de estudos para o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) e o Plano Nacional de Energia (PNE), documentos fundamentais para orientar os investimentos e políticas públicas do setor.
Categoria reivindica recomposição e valorização institucional
Os funcionários da EPE argumentam que a defasagem salarial acumulada desde 2014 tem comprometido a atração e retenção de profissionais qualificados, fundamentais para garantir a qualidade dos estudos e modelagens técnicas que orientam o planejamento energético brasileiro.
De acordo com o Sintergia-RJ, a recomposição salarial é necessária não apenas para corrigir perdas inflacionárias, mas também para preservar a autonomia e a capacidade técnica da EPE, considerada peça-chave na formulação de políticas energéticas.
O sindicato destaca que o movimento busca diálogo com o Ministério de Minas e Energia (MME) e com o Ministério da Gestão e Inovação (MGI), mas até o momento as negociações não avançaram de forma satisfatória.
“O que estamos reivindicando é o básico: a recomposição de nossas perdas salariais e o respeito à função estratégica da EPE para o setor elétrico. Não há como planejar o futuro energético do Brasil sem garantir condições dignas de trabalho e valorização técnica”, afirmou um representante sindical durante assembleia recente.
Riscos institucionais e pressão sobre o cronograma setorial
A paralisação ocorre em um momento sensível para o setor elétrico, que enfrenta discussões sobre planejamento de longo prazo, expansão da geração renovável, modernização da transmissão e regulação do armazenamento de energia. A ausência de técnicos da EPE nesses processos pode gerar atrasos em cronogramas de leilões, estudos de expansão e modelagens de demanda.
Especialistas do setor avaliam que uma greve prolongada na EPE pode desorganizar a cadeia de planejamento, afetando inclusive os cronogramas de contratação de nova capacidade de geração e o avanço de programas estratégicos, como o de Transição Energética Justa e Inclusiva, coordenado pelo MME.
Além disso, a possibilidade de paralisação por tempo indeterminado preocupa agentes de mercado e associações do setor, que dependem dos estudos da EPE para embasar decisões de investimento.
Contexto político e próximos passos
A mobilização dos funcionários da EPE ocorre em meio ao debate sobre valorização das carreiras públicas estratégicas e à pressão por recomposição salarial em outras estatais federais. O impasse pode se tornar um tema sensível para o governo, especialmente diante do calendário de leilões e da execução de políticas voltadas à transição energética.
Caso não haja acordo nas próximas semanas, o Sintergia-RJ confirmou que realizará uma nova greve de 120 horas entre os dias 10 e 14 de novembro, antes da paralisação definitiva por tempo indeterminado.
O que está em jogo
A EPE é responsável por elaborar estudos técnicos que orientam bilhões de reais em investimentos públicos e privados no setor elétrico. Qualquer interrupção prolongada de suas atividades representa um risco direto à segurança energética e à continuidade dos processos regulatórios.
Enquanto governo e sindicatos buscam um ponto de convergência, o impasse expõe a fragilidade de uma estrutura essencial ao planejamento energético do país, e reacende o debate sobre como valorização profissional e estabilidade institucional são fundamentais para a transição energética e o futuro sustentável do Brasil.



