Proposta de Emenda Constitucional 42/2024, aprovada na CCJ, pretende concentrar na Câmara dos Deputados a competência exclusiva de fiscalizar as atividades das agências reguladoras
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou, por 33 votos a 13, a admissibilidade da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 42/2024, que pretende conferir à Câmara dos Deputados competência privativa para fiscalizar as atividades das agências reguladoras federais.
Com a decisão, o texto avança para a instalação de uma comissão especial, responsável por analisar o mérito da proposta antes de sua eventual votação em plenário.
A aprovação reacende um debate central para o setor elétrico e demais segmentos regulados: como equilibrar a autonomia técnica das agências com a necessidade de transparência e controle institucional?
O que propõe a PEC 42/2024
A PEC 42/2024 altera o artigo 49 da Constituição Federal, transferindo à Câmara dos Deputados o poder exclusivo de fiscalizar as agências reguladoras, hoje supervisionadas por ambos os ramos do Congresso Nacional, por meio de comissões mistas.
Na prática, a medida busca centralizar na Câmara a prerrogativa de acompanhamento, avaliação e fiscalização das políticas, contratos e decisões das agências, que atualmente exercem papel técnico e estratégico em setores essenciais, como energia elétrica, petróleo e gás, transportes, telecomunicações e saneamento.
Os defensores da proposta argumentam que o objetivo é aperfeiçoar o controle político e social sobre as decisões dessas autarquias, que, embora independentes, têm grande impacto sobre a economia e o cotidiano dos consumidores.
Por outro lado, críticos alertam que a mudança pode fragilizar a autonomia regulatória, ampliando riscos de interferência política e reduzindo a previsibilidade de marcos regulatórios, elemento crucial para a atração de investimentos e a segurança jurídica do setor elétrico.
Repercussão no setor elétrico e implicações institucionais
O setor elétrico acompanha com atenção o avanço da proposta. As agências reguladoras, especialmente a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), desempenham papel central na definição tarifária, na gestão de concessões, no fomento à transição energética e na proteção dos consumidores.
Alterações no modelo de fiscalização podem repercutir diretamente na estabilidade institucional dessas decisões, em um momento de intenso debate sobre políticas de descarbonização, modernização do setor e expansão da geração distribuída.
Para especialistas em regulação, a independência técnica das agências é um pilar que garante decisões baseadas em critérios técnicos e não políticos, assegurando equilíbrio entre os diversos agentes do setor. A eventual centralização de poder fiscalizatório em apenas uma Casa Legislativa poderia, segundo eles, comprometer a isenção e previsibilidade necessárias à regulação.
Próximos passos no Congresso
Com a aprovação da admissibilidade, o próximo passo é a formação da comissão especial, que terá o prazo de 40 sessões plenárias para analisar o mérito da PEC e propor eventuais ajustes ao texto.
Se aprovada na comissão, a proposta seguirá para votação no plenário da Câmara, onde precisará de três quintos dos votos dos deputados (308 votos) em dois turnos para avançar ao Senado.
A expectativa é que o tema ganhe destaque nas próximas semanas, considerando seu impacto transversal sobre diversos setores regulados e o debate político em torno da autonomia das agências.
Debate sobre governança e segurança regulatória
O avanço da PEC ocorre em um contexto mais amplo de discussão sobre governança pública e o papel das agências na formulação e execução de políticas de Estado. Desde sua criação, a partir da década de 1990, as agências foram estruturadas com autonomia técnica e administrativa, justamente para evitar a influência direta de governos sobre decisões de caráter regulatório.
Entidades representativas de setores regulados e associações empresariais têm defendido o fortalecimento das agências como instrumentos de estabilidade institucional, especialmente em áreas estratégicas como energia e infraestrutura.
Para o setor elétrico, a previsibilidade regulatória é considerada um dos principais ativos para atração de investimentos de longo prazo, sobretudo diante dos desafios de expansão da oferta, integração de fontes renováveis e modernização das redes.
A proposta, portanto, abre uma discussão delicada entre controle democrático e independência técnica, uma tensão que exigirá amplo debate entre parlamentares, agentes do setor e especialistas em regulação.



