Nuclear Legacy 2025 expõe desafios de governança e inovação para o avanço do setor nuclear brasileiro

Evento em Brasília reuniu autoridades, especialistas e lideranças empresariais para discutir os rumos da energia nuclear na matriz energética, destacando a necessidade de previsibilidade regulatória, inovação tecnológica e fortalecimento institucional

O Nuclear Legacy 2025, realizado nos dias 20 e 21 de outubro, em Brasília, consolidou-se como o principal fórum de debates estratégicos sobre o papel da energia nuclear no futuro da matriz energética brasileira. Organizado pela Associação Brasileira para o Desenvolvimento das Atividades Nucleares (ABDAN), o evento reuniu mais de 150 representantes de governo, lideranças empresariais, militares, pesquisadores e estudantes, com uma pauta centrada em governança, inovação e segurança jurídica.

Durante a abertura, o presidente da ABDAN, Celso Cunha, destacou o contexto de urgência energética e climática que pressiona o Brasil a buscar soluções sustentáveis e estáveis.

“Precisamos atender a essas novas variáveis com uma base econômica justa, sustentável, resiliente, segura, limpa e estável. Esses são os atributos que a energia nuclear oferece ao Brasil”, afirmou Cunha.

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O dirigente também enfatizou que o país precisa avançar na previsibilidade regulatória e na criação de um marco legal moderno que viabilize a participação da iniciativa privada e a atração de investimentos.

“O setor nuclear brasileiro é um dos mais qualificados do mundo, mas precisamos de segurança jurídica e de um ambiente que permita inovação”, completou.

Governança e segurança institucional entram no centro do debate

Entre as autoridades presentes, o General Marcos Amaro, Ministro-Chefe do Gabinete de Segurança Institucional, e Flavio Ramon, Secretário-Geral de Consultoria da Advocacia-Geral da União (AGU), reforçaram a necessidade de fortalecer as bases de governança e a credibilidade institucional do setor nuclear brasileiro.

“A presença de todos aqui confirma a relevância do setor nuclear no Brasil e a credibilidade da ABDAN. Parabenizo também os jovens vencedores do Hackapower, que simbolizam o futuro da ciência e da inovação”, afirmou Amaro.

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“O Estado brasileiro reafirma a importância da energia nuclear como parte essencial de uma matriz energética moderna e soberana”, destacou Ramon.

As falas convergiram na avaliação de que o nuclear deve ser tratado como vetor estratégico de soberania energética, com um modelo regulatório capaz de sustentar a expansão de novas tecnologias, como os microrreatores modulares (SMRs), e garantir a segurança jurídica para parcerias público-privadas.

Inovação e transição: jovens talentos projetam o futuro do nuclear

Um dos pontos altos do evento foi a final do Hackapower 2025, olimpíada universitária de inovação promovida pela ABDAN. Após seis meses de mentorias, três equipes foram premiadas por projetos aplicáveis em energia, sustentabilidade e preservação de alimentos, evidenciando o potencial de transferência de conhecimento e inovação aberta no setor nuclear.

Entre as propostas, destacaram-se o uso de microrreatores modulares em plataformas offshore (Equipe Nautilus) e a irradiação embarcada para conservação de alimentos (Equipe InovaRad). Para Celso Cunha, iniciativas como essa ajudam a reduzir a distância entre academia e indústria.

“O Hackapower mostra a força da nova geração em propor soluções criativas e tecnicamente sólidas. O setor nuclear brasileiro precisa desse olhar inovador para se consolidar como protagonista da transição energética e da economia limpa”, ressaltou.

Marco regulatório e novas aplicações dominam os painéis estratégicos

Os dois painéis de encerramento sintetizaram os principais desafios de governança e integração tecnológica do setor. No primeiro, moderado por Cunha, especialistas da ANA, Petrobras e EPE discutiram o papel da energia nuclear na transformação sustentável da matriz energética, especialmente diante da necessidade de redução de emissões e complementaridade com fontes renováveis.

Já o segundo painel, conduzido por Marlos Costa (ENBPar), trouxe à tona temas como políticas públicas, financiamento e aplicações não energéticas do nuclear, com foco em irradiação de alimentos, medicina nuclear e segurança sanitária. Representantes da Westinghouse, FINEP, Amazul e ANVISA destacaram a importância de um ecossistema regulatório ágil e de investimentos consistentes em P&D nuclear.

Parlamento reforça apoio político e institucional ao setor

O evento também contou com uma Sessão Solene na Câmara dos Deputados, presidida por Julio Lopes (PP-RJ), coordenador da Frente Parlamentar Mista de Tecnologia e Atividades Nucleares. A cerimônia destacou a importância histórica e estratégica do setor nuclear para a soberania nacional e para a transição energética.

“Celebrar, enaltecer e engrandecer a tecnologia nuclear. Pela primeira vez o Parlamento brasileiro presta essa homenagem ao setor, que é símbolo de transformação e esperança. A energia nuclear nasceu do medo, mas evoluiu para a inovação e hoje representa a força de um futuro limpo e sustentável”, afirmou Lopes.

O deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) reforçou que o Brasil já tem acúmulo técnico na área, mas precisa elevar o nuclear “a um novo patamar estratégico e decisivo para uma matriz energética limpa”.

Na ocasião, Celso Cunha destacou novamente a urgência de um marco legal previsível e a necessidade de restabelecer o equilíbrio entre as fontes energéticas.

“A fonte nuclear reúne os atributos necessários para garantir uma matriz energética estável, segura e limpa”, afirmou.

Desafios à frente: governança, inovação e integração energética

O Nuclear Legacy 2025 reforçou a percepção de que o Brasil vive um ponto de inflexão no setor nuclear. Entre homenagens, debates e premiações, ficou clara a convergência entre governo, empresas e academia em torno de um mesmo eixo: a energia nuclear como peça essencial da transição energética e da segurança nacional.

Mas o avanço do setor depende, sobretudo, de governança moderna, regulação previsível e estímulo à inovação, fatores que, segundo os participantes, devem orientar a agenda do país nos próximos anos, tanto na conclusão de Angra 3 quanto na viabilização dos SMRs e novas aplicações tecnológicas.

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