Tributação trava o avanço do armazenamento de energia no Brasil: estudo da PSR alerta para urgência de ajustes fiscais e regulatórios

Impostos podem elevar em até 76% os custos de projetos com baterias e usinas reversíveis. Consultoria defende atualização do REIDI e criação de mecanismos de receita para destravar investimentos e impulsionar a transição energética

Apesar de ser considerado o “elo que falta” para garantir flexibilidade e segurança à matriz elétrica brasileira, o mercado de armazenamento de energia ainda não encontrou terreno fértil para crescer no país. Um novo estudo da consultoria PSR, referência em modelagem e planejamento do setor elétrico, revela que a alta carga tributária e a falta de clareza regulatória estão entre os principais obstáculos que travam a expansão dessas tecnologias.

De acordo com o levantamento intitulado “Aceleração da Transição Energética Brasileira – MetaAnálise Abrangente de Armazenamento de Energia no Brasil”, os custos médios dos sistemas de armazenamento aumentam até 76% após a aplicação de impostos, tornando os projetos pouco competitivos em comparação com outras alternativas de geração e suporte à rede.

“Embora os ativos solares e eólicos tenham recebido incentivos fiscais no passado, as alíquotas atuais podem atuar como um desincentivo aos investimentos em baterias no Brasil”, aponta o estudo da PSR.

- Advertisement -

Falta de incentivos e entraves no REIDI

O relatório ressalta que, embora o país disponha do REIDI (Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura), instrumento criado pela Lei nº 11.488/2007 para reduzir tributos em projetos de infraestrutura, o armazenamento de energia ainda não é contemplado de forma explícita dentro desse regime.

Para a PSR, seria necessária uma atualização legal e regulatória para incluir os sistemas de armazenamento entre os projetos elegíveis ao REIDI. Mesmo quando há tentativas de enquadramento, o processo de aprovação junto à ANEEL representa um obstáculo adicional devido à sua complexidade e prazos prolongados.

“O ambiente tributário e regulatório brasileiro ainda não reconhece o papel estratégico do armazenamento para a segurança energética e para a integração das renováveis”, avalia a consultoria. “Sem essa visão de longo prazo, o país continuará limitado a projetos pilotos e iniciativas isoladas.”

Arbitragem de preços: o modelo que ainda não fecha a conta

Um dos usos mais conhecidos do armazenamento de energia é a arbitragem de preços, ou seja, comprar energia quando está barata e vendê-la quando o preço sobe. Essa lógica, bastante comum em mercados elétricos maduros, ainda não encontra viabilidade econômica no Brasil.

- Advertisement -

Segundo os cálculos da PSR, um sistema de baterias só seria viável se houvesse uma diferença média diária de preços entre US$ 72 e US$ 152 por MWh, sustentada por pelo menos quatro horas diárias ao longo de 15 anos. Já para as usinas reversíveis, o intervalo necessário vai de US$ 65 a US$ 161 por MWh, considerando oito horas de operação diária e uma vida útil de 40 anos.

No entanto, o mercado brasileiro ainda apresenta baixa granularidade na formação horária de preços, o que reduz as oportunidades de arbitragem. Em 2025, o preço spot mínimo e máximo estão fixados em US$ 10,24/MWh e US$ 269,50/MWh, respectivamente, valores que não refletem plenamente as variações operacionais ao longo do dia.

Revenue stacking: o caminho para a viabilidade

Diante das limitações da arbitragem, a PSR destaca que o futuro do armazenamento no país depende da criação de múltiplas fontes de receita, conceito conhecido como revenue stacking. Isso permitiria que as baterias e usinas reversíveis participassem de diferentes mercados simultaneamente, oferecendo serviços como controle de tensão, frequência, partida de emergência (black start) e até mesmo suporte de capacidade.

A consultoria cita como avanço inicial a implementação dos “sandboxes regulatórios”, ambientes experimentais criados pela ANEEL para testar novos modelos de negócio. Um dos exemplos é o projeto-piloto de serviços de potência reativa, com remuneração de US$ 1,72/Mvar-h prevista para 2025. Outros serviços, como controle de frequência secundária e black start, possuem remunerações anuais fixas de US$ 11.735 e US$ 8.801, valores pagos majoritariamente a hidrelétricas.

“A ausência de mecanismos claros de remuneração para capacidade e flexibilidade limita a viabilidade econômica dos projetos de armazenamento”, afirma o estudo. “É essencial desenvolver uma estrutura abrangente de receitas que estimule o investimento privado e viabilize a implantação em larga escala.”

O papel estratégico do armazenamento na transição energética

Com o avanço das fontes solar e eólica, o sistema elétrico brasileiro passa a depender cada vez mais de soluções que compensem a intermitência da geração renovável. Nesse contexto, o armazenamento de energia surge como peça-chave para garantir a estabilidade, a confiabilidade e o uso eficiente da rede.

A PSR conclui que o Brasil tem potencial significativo para desenvolver esse mercado, mas o ritmo de avanço dependerá da modernização do marco regulatório, redução das barreiras tributárias e criação de novos modelos de remuneração.

“A transição energética exige um ecossistema regulatório alinhado com a inovação tecnológica. Se o país quiser aproveitar seu potencial renovável de forma plena, o armazenamento precisa ser tratado como infraestrutura essencial”, finaliza a consultoria.

Conclusão

O estudo da PSR lança um alerta importante: sem ajustes tributários e regulatórios, o Brasil corre o risco de ficar atrás na corrida global pela flexibilidade energética. Incorporar o armazenamento à política de incentivos e criar condições de mercado para sua remuneração são passos fundamentais para transformar o potencial técnico em realidade econômica.

Destaques da Semana

Artigos

Últimas Notícias