Mesmo com avanços e histórias inspiradoras, a presença feminina na engenharia ainda é marcada por desafios estruturais e culturais que limitam seu protagonismo
A representatividade feminina na indústria da construção civil vem crescendo nos últimos anos. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) mostram que, no ano passado, 20,2% das 110.921 novas vagas criadas no setor foram ocupadas por mulheres, um avanço importante, mas ainda longe da paridade ideal.
Por outro lado, no setor de energias renováveis, estudos da Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA) mostram que as mulheres ainda representam apenas 32% da força de trabalho global, índice que não teve progresso desde 2019. A entidade pede ações urgentes para garantir uma transição energética justa e inclusiva.
Os obstáculos para as mulheres começam cedo. Embora representem cerca de 52% dos participantes do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), apenas 18% delas optam por cursos nas áreas de Engenharia e correlatas. Estigmas sociais, ausência de representatividade, falta de incentivo e a ideia equivocada de que engenharia é “coisa de homem” ainda influenciam essas escolhas. No Brasil, as mulheres representam 51,5% da população, segundo o Censo 2022 do IBGE. No entanto, ainda enfrentam desafios estruturais e culturais para conquistar espaço em áreas técnicas e estratégicas, como Engenharia, Agronomia e Geociências. Apenas 20% dos profissionais registrados no Sistema CONFEA/CREA são mulheres, o que evidencia uma lacuna que precisa ser enfrentada com urgência e políticas eficazes de inclusão.
Histórias que inspiram
Na Construtora Viplan, a presença feminina não é exceção, é regra. A empresa é um exemplo de protagonismo feminino: 70% dos colaboradores são mulheres e 100% das responsáveis pelas obras também. Uma das sócias diretoras, a arquiteta e urbanista Ana Rita Vieira, é a primeira mulher presidente do SINDUSCON, em Joinville-SC. Filha de engenheira civil, ela cresceu acompanhando a mãe nos canteiros de obras e hoje lidera com o mesmo espírito pioneiro.
A engenheira civil Julia Coral Specki, responsável pelo Planejamento e Controle de Obras na Viplan, acredita que a representatividade abre portas para novas gerações. “Quando uma mulher se destaca, ela inspira outras a acreditarem que é possível. As oportunidades estão aumentando, e cabe a nós continuar ocupando esses espaços com preparo e confiança”, diz Julia. “Ver mulheres à frente de obras ainda chama atenção, mas isso precisa se tornar natural. O setor está mudando, e as mulheres têm mostrado competência, técnica e sensibilidade para
liderar transformações”.
Na TAB energia, a engenheira Priscylla Gomes é exemplo de uma nova geração que une técnica e propósito. Ela começou acompanhando obras, passou pela área de projetos e hoje é gerente de projetos, liderando equipes e entregando soluções energéticas sustentáveis.
“A qualificação foi minha aliada. Busquei formação e fui atrás de oportunidades em mercados mais estruturados. Hoje, vejo o impacto direto do meu trabalho na vida das pessoas”, relata.
Ela ressalta, porém, que o setor de energia ainda é majoritariamente masculino: “mais do que espaço, precisamos de reconhecimento e condições para crescer. Isso começa com empresas comprometidas com a diversidade”, conclui.
Os desafios futuros
A presença feminina na construção civil é, hoje, símbolo de um movimento mais amplo por igualdade e reconhecimento. Mulheres que antes eram exceção nos canteiros de obras agora constroem, literalmente, um novo futuro para o setor.
O desafio que permanece é transformar essas conquistas em regra, para que cada mulher que sonha em projetar, erguer ou liderar encontre, no caminho, oportunidades reais de crescer e inspirar outras.



