Ferramenta CPE-Offshore permite planejar custos, logística e soluções elétricas de parques eólicos no mar, considerando as particularidades do sistema brasileiro e colocando o país na rota da transição energética global
A energia eólica offshore avança no mundo como uma das fontes mais promissoras para diversificar a matriz energética e acelerar a descarbonização. No Brasil, esse movimento ganhou um reforço estratégico com o desenvolvimento do software CPE-Offshore, criado pela Petrobras em parceria com o Lactec, um dos maiores centros de pesquisa, tecnologia e inovação do país.
O projeto nasceu a partir do programa de Pesquisa & Desenvolvimento regulado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), dentro do escopo “Métodos construtivos em parques eólicos offshore” (PD-00553-0068/2020). A ferramenta foi concebida para oferecer suporte técnico e econômico a engenheiros e investidores interessados em explorar o imenso potencial dos ventos marítimos brasileiros.
O desafio de planejar parques eólicos no mar
O Brasil conta com 7.367 km de costa e 3,5 milhões de km² de área marítima, onde os ventos tendem a ser mais fortes e constantes do que em terra firme. Apesar do potencial, as condições brasileiras apresentam particularidades que tornam inviável a simples replicação de softwares e metodologias internacionais.
Nesse cenário, o CPE-Offshore surge como resposta às necessidades locais. A ferramenta permite simular cenários, otimizar soluções e planejar todas as fases da implantação de parques eólicos, da escolha das turbinas à conexão com o Sistema Interligado Nacional (SIN).
O pesquisador Felipe José Lachovicz, integrante da equipe do projeto, contextualiza a importância da inovação. “Planejar uma usina eólica offshore envolve equilibrar uma infinidade de detalhes que impactam diretamente a viabilidade técnica e financeira do projeto. O CPE-Offshore surgiu para modelar essas variáveis no contexto brasileiro, oferecendo uma análise integrada e robusta”.
O coração elétrico do software: o módulo EBOP
Entre os diferentes módulos que compõem a plataforma, um se destaca como peça central: o Cabos e Subestações – Electrical Balance of Plant (EBOP). Ele é responsável por dimensionar toda a parte elétrica do parque, desde a coleta da energia até a transmissão ao continente.
Segundo Lachovicz, o impacto desse módulo é decisivo. “O EBOP representa aproximadamente metade dos custos totais de instalação de um parque eólico offshore. Uma modelagem adequada aqui é fundamental para otimizar soluções e reduzir despesas associadas”.
A robustez do modelo rendeu reconhecimento internacional. Os detalhes técnicos foram publicados na revista IEEE Access, no artigo “Electrical Balance of Plant Approach for Offshore Wind Power Plants: A Brazilian Case Study”.
Descobertas-chave para o setor brasileiro
A pesquisa gerou insights estratégicos que podem redefinir os rumos da energia eólica offshore no Brasil:
Distância de break-even: no padrão brasileiro de HVAC 230 kV/60 Hz, a distância limite para que a transmissão em corrente alternada continue sendo mais vantajosa que a HVDC pode chegar a 180 km — um valor superior ao registrado na literatura internacional.
Desempenho computacional: o software indica automaticamente as combinações mais adequadas de reatores para compensação de potência reativa, evitando testes exaustivos e economizando tempo de processamento.
Dimensionamento físico: a ferramenta estima dimensões e peso de subestações offshore, informações cruciais para logística, fundações e construção das plataformas marítimas.
Um salto estratégico na transição energética
Mais do que um software, o CPE-Offshore representa um marco para a engenharia nacional. Ele oferece segurança técnica e financeira a investidores, ao mesmo tempo em que consolida a Petrobras e o Lactec como protagonistas na inovação energética.
O desenvolvimento coloca o Brasil em posição de destaque no cenário global, alinhando-se ao movimento de grandes economias que já investem fortemente em parques eólicos no mar. A ferramenta pode acelerar a exploração de um mercado ainda incipiente no país, mas com enorme capacidade de transformar a matriz elétrica.
Rumo à vanguarda da energia limpa
Com o CPE-Offshore, o Brasil dá um passo concreto rumo à exploração sustentável de sua costa. A ferramenta amplia a viabilidade de investimentos, reduz incertezas e demonstra a importância da inovação nacional no caminho da transição energética.
Ao unir expertise da Petrobras e capacidade de pesquisa do Lactec, o projeto se consolida como um divisor de águas para a eólica offshore e reforça a ambição do Brasil de se posicionar como referência mundial em energias renováveis



