Relatório “Statistical Review of World Energy 2025” destaca matriz elétrica limpa e posição geopolítica do país como diferenciais, mas alerta para desafios em infraestrutura, digitalização e política industrial
O Brasil tem todas as condições para se tornar protagonista da transição energética mundial, mas ainda enfrenta obstáculos históricos que exigem planejamento e ação coordenada. Essa é a principal conclusão do levantamento “Revisão das Estatísticas de Energia Mundial” (Statistical Review of World Energy 2025), divulgado pela KPMG, em parceria com o Instituto de Energia e a Kearney.
O estudo destaca que a crescente corrida global por cadeias produtivas de baixo carbono abre uma janela de oportunidade para o país, cuja matriz elétrica é majoritariamente renovável e reconhecida como uma das mais limpas do planeta. No entanto, a falta de investimentos em infraestrutura energética moderna, armazenamento e redes inteligentes ainda limita o pleno aproveitamento desse potencial.
Vantagens competitivas e obstáculos a vencer
Segundo o relatório, o Brasil conta com abundância de recursos naturais, eletricidade limpa e uma posição geopolítica neutra, fatores que podem atrair investimentos e parcerias estratégicas. No entanto, gargalos estruturais — como a dependência de importações de equipamentos, redes de transmissão defasadas e a ausência de uma política industrial robusta para o setor energético — continuam sendo barreiras para a liderança global.
Manuel Fernandes, sócio-líder do setor de Energia e Recursos Naturais da KPMG no Brasil e na América do Sul, reforça que a oportunidade depende de avanços internos. “Mesmo diante da fragmentação global, o Brasil pode consolidar-se como um provedor de energia limpa e confiável, essencial para cadeias produtivas verdes e metas climáticas globais. Para isso, será necessário superar desafios históricos, como a limitação da infraestrutura de rede, a dependência de importações estratégicas e a ausência de uma política industrial articulada”, explica.
A análise também aponta que a liderança brasileira na transição energética dependerá da articulação entre inovação tecnológica, segurança energética e competitividade econômica, em um contexto de transformação acelerada das cadeias globais.
Papel das empresas e necessidade de política industrial
O levantamento observa que, em meio ao fortalecimento das empresas energéticas apoiadas por governos em diversos países, o Brasil apresenta uma atuação crescente de estatais e grandes corporações no setor. No entanto, a ausência de uma política industrial consistente dificulta a integração de inovação, sustentabilidade e competitividade global, fatores decisivos para atrair capital e desenvolver novas tecnologias.
Para a KPMG, uma estratégia coordenada entre o setor público e privado é fundamental para garantir a expansão da infraestrutura, incentivar investimentos em redes inteligentes, armazenamento de energia e digitalização do sistema elétrico, áreas essenciais para sustentar o crescimento da demanda e reduzir a vulnerabilidade às oscilações do mercado internacional.
Indicadores de 2023/2024 reforçam potencial brasileiro
Os dados mais recentes do relatório reforçam a relevância do Brasil na transição energética:
- Aumento do consumo energético e da produção de eletricidade em 2024, com destaque para o avanço das fontes renováveis, que ampliam a participação de energia limpa na matriz nacional.
- Redução de 1,7% nas emissões de CO₂, resultado da queda no uso de carvão e da expansão das fontes renováveis.
- Queda na produção de petróleo e gás natural, compensada por um aumento das importações, evidenciando a necessidade de diversificação e maior autonomia energética.
Esses números mostram que, apesar dos desafios, o Brasil já apresenta sinais de avanço em áreas-chave da descarbonização, reforçando a importância de políticas de longo prazo para consolidar essa tendência.
Janela de oportunidade para a liderança global
Com uma matriz elétrica baseada em hidrelétricas, energia eólica, solar e biomassa, o Brasil reúne condições para atrair investimentos e liderar cadeias produtivas verdes, oferecendo ao mundo energia limpa, estável e competitiva. Porém, o relatório da KPMG alerta que essa janela de oportunidade é limitada e exige ação imediata para garantir que o país não perca espaço na corrida global pela descarbonização.
Investimentos em infraestrutura digitalizada, desenvolvimento de armazenamento em larga escala e políticas que estimulem a inovação são apontados como pilares essenciais para transformar o potencial em realidade. Sem esses avanços, o Brasil corre o risco de ficar à margem de uma das maiores revoluções econômicas do século.



