Energia Renovável em xeque nos EUA

Cortes em créditos fiscais e cancelamento de fundos federais pressionam empresas de energia solar e eólica, abrindo espaço para consolidação e para investidores com maior apetite de risco.

O setor de energia solar e eólica nos Estados Unidos enfrenta um período de forte turbulência desde que o governo Donald Trump implementou a Lei One Big Beautiful Bill (OBBBA), que reformulou créditos fiscais e reduziu prazos de elegibilidade para projetos de energia renovável. Essa guinada política, que favorece petróleo, gás, carvão e energia nuclear, provocou uma onda de fusões, aquisições e vendas de ativos entre empresas de energia limpa, que buscam alternativas para sobreviver diante do novo cenário regulatório.

Segundo analistas, a reversão das políticas verdes marca um distanciamento drástico das medidas adotadas na administração de Joe Biden, que havia impulsionado os investimentos em projetos de baixo carbono.

Cortes em créditos e garantias de empréstimos criam ambiente hostil

O impacto da nova legislação já é evidente. A OBBBA eliminou créditos fiscais de investimento para novos empreendimentos solares e eólicos, reduzindo a atratividade desses projetos. Para Gregg Felton, presidente-executivo da Altus Power, sediada em Connecticut, o momento é de concentração do mercado.

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“É provável que haja consolidação devido a uma variedade de medidas federais recentes, incluindo o projeto de lei tributária aprovado recentemente (OBBBA) que elimina créditos fiscais de investimento”, explicou Felton.

Além disso, a revogação da Lei de Redução da Inflação, que permitia o uso e a venda de créditos para baratear custos de construção, e o fim das garantias de empréstimos para projetos verdes intensificaram a pressão sobre empresas de menor porte.

John Villali, diretor sênior de pesquisa da IDC Energy Insights, avalia que o aperto regulatório pode acelerar a reconfiguração do mercado.

“Os prazos comprimidos e o suporte reduzido podem forçar empresas menores a se fundir, formar joint ventures ou vender ativos para sobreviver”, destacou.

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Queda de investimentos ameaça sobrevivência de pequenas empresas

A retração do apoio federal também impactou diretamente os recursos disponíveis para novos projetos. Em 24 de setembro, o Departamento de Energia dos EUA anunciou o cancelamento de mais de US$ 13 bilhões em fundos para energia verde, ampliando as incertezas no setor. A medida seguiu outro corte, em maio, de US$ 3,7 bilhões em financiamentos que haviam sido aprovados no governo Biden, incluindo projetos em refinarias da ExxonMobil no Texas.

Empresas já sentem os efeitos. A Sunnova Energy, por exemplo, perdeu recentemente uma garantia de empréstimo de US$ 2,92 bilhões, fato que limita sua capacidade de expansão em um momento de crescente necessidade de capital para manter operações.

Para Gregg Semler, presidente-executivo da InPipe Energy, esse cenário cria terreno fértil para consolidação. “O cancelamento de empréstimos federais provavelmente impulsionará fusões e aquisições no setor de serviços públicos, especialmente para ativos de energia limpa em dificuldades”, afirmou.

Fusões e aquisições crescem em ritmo acelerado

Dados da KPMG mostram que os acordos de energia limpa aumentaram para 63 transações no primeiro semestre de 2025, somando cerca de US$ 34 bilhões, um salto significativo em relação ao segundo semestre de 2024, quando foram registrados 57 acordos, no valor de aproximadamente US$ 7 bilhões.

Rob Howard, presidente-executivo da ClearGen, uma desenvolvedora e gestora de energia limpa apoiada pela Blackstone, observa que mesmo em meio à instabilidade surgem oportunidades:

“As interrupções ocorrem em todo o setor, mas desenvolvedores ágeis e investidores atentos ao mercado ainda encontrarão oportunidades”, analisou.

No fim de agosto, a CBRE Investment Management anunciou a aquisição da própria ClearGen, que administra mais de 250 projetos em 14 estados, demonstrando o interesse de grandes players em ativos de energia limpa subvalorizados.

Investidores estratégicos aproveitam brecha no mercado

Empresas de private equity e grandes serviços públicos, com maior capacidade financeira, estão avançando sobre projetos de energia renovável que perderam suporte governamental. Barrett Bilotta, presidente-executivo da produtora independente de energia Agilitas Energy, confirma o movimento de compras estratégicas:

“Estamos do lado da compra… lidando ativamente com desenvolvedores greenfield e outras empresas de energia”, disse Bilotta.

A Agilitas já anunciou aquisições relevantes em 2025, incluindo um projeto solar em Rhode Island em agosto e dois projetos hidrelétricos em West Virginia e Maryland em junho, e planeja novos negócios ainda este ano.

Perspectivas para o setor de energia limpa nos EUA

Apesar do cenário desafiador, especialistas apontam que empresas bem capitalizadas podem se beneficiar da atual fase de consolidação, adquirindo ativos de energia limpa a preços mais baixos e garantindo posição estratégica para um eventual retorno de políticas de incentivo no futuro.

A mudança de foco do governo Trump, entretanto, reforça a mensagem de que o mercado de energias renováveis nos EUA deve buscar novas fontes de financiamento e estratégias de resiliência para atravessar um período de menor apoio público e maior dependência de investimentos privados.

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