80 anos da ONU e a Assembleia Geral: entre o negacionismo e a retórica, como o Brasil pode liderar o financiamento de verdade

Por Eric Fernando Boeck Daza

A ONU completa 80 anos e a Assembleia Geral abriu a semana expondo o contraste de sempre: microfones barulhentos e uma agenda que exige pés no chão. Na tribuna, o presidente americano Donald Trump voltou a desdenhar políticas climáticas e a vender combustíveis fósseis como sinônimo de prosperidade — um negacionismo que ignora custos reais e oportunidades de investimento. No mesmo palco, o Secretário-Geral insistiu no essencial: sem financiamento em escala, previsível e bem direcionado, não há transição que se sustente. Entre essas duas retóricas existe um espaço onde o Brasil pode — e deve — liderar: mobilizar investimentos de verdade e dar sinais reais até a COP30, em Belém.

Não basta prometer. O mundo pós-pandemia reorganizou as regras do jogo: cadeias produtivas exigem rastreabilidade; mercados combinam comércio e clima; capitais buscam sinal claro e estabilidade. Quando o Secretário-Geral fala em “escolhas”, ele está dizendo que países que alinham ambição, regras e execução atraem recursos — os que oscilam, pagam mais caro. O Brasil tem ativos reais (matriz relativamente limpa, escala industrial, biodiversidade) e uma ambição anunciada pelo governo brasileiro de fazer da COP30 a “COP da verdade”. A coerência pedida pelo cenário global é simples: prioridade, previsibilidade e parceria.

Quatro movimentos de liderança que o Brasil deveria buscar

1) Falar claro sobre custos e benefícios.
Sem marketing: a transição reorganiza preços e cadeias, mas aumenta produtividade e reduz volatilidade. Comunicar com números e pessoas — não com slogans — dá adesão social e confiança a quem investe.

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2) Tratar clima como política industrial e de desenvolvimento.
Energia, indústria, agro e infraestrutura sob a mesma régua: competitividade com menor pegada de carbono. O Brasil precisa ser fornecedor de produtos com atributo climático verificável, do campo ao porto. É o idioma que compradores globais já falam.

3) Transformar a Amazônia em plataforma de prosperidade.
Natureza não é só pauta moral: é economia e desenvolvimento local. Fundos e pagamentos por resultado com governança local, renda para comunidades e projetos escaláveis mostram ao capital que crédito climático aqui é confiável — e que desenvolvimento regional não é promessa e sim pré-condição.

4) Construir coalizões que entregam.
Coalizão não é foto; é pacto de metas. Governo brasileiro, bancos de desenvolvimento e grandes compradores (nacionais e estrangeiros) devem ter compromissos mensuráveis e com prazos reais e claros.

O contraste que importa

Trump recolocou ou reforçou o negacionismo no centro do noticiário. A resposta eficaz não é indignação performática — é mobilização com resultados reais. Quando o Secretário-Geral pede finanças em escala, ele aponta o caminho: alinhar ambição e regras para que o dinheiro certo chegue aonde gera crescimento, empregos e redução de emissões. O Brasil tem condições de ocupar esse centro e o mais importante: reputação só vira liderança quando se transforma em confiança — e confiança nasce de coerência.

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Belém não precisa de unanimidade; precisa de direção. Se o Brasil falar claro, escolher prioridades e convocar parceiros para metas públicas e mensuráveis, a “COP da verdade” deixará de ser promessa e virará ponto de virada. Essa é a liderança que o Brasil deveria consolidar.

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