Análise inédita de 20 países, incluindo o Brasil, revela que a maioria ainda planeja aumentar a produção de carvão, petróleo e gás, apesar das metas climáticas do Acordo de Paris
Um novo relatório do Stockholm Environment Institute (SEI), divulgado nesta semana, acende um sinal vermelho para a política climática mundial. O Relatório da Lacuna de Produção 2025 mostra que 17 dos 20 maiores produtores de combustíveis fósseis, entre eles Brasil, China, Estados Unidos e Rússia, ainda planejam expandir a extração de carvão, petróleo ou gás até 2030, mesmo após compromissos públicos de transição energética.
Segundo o documento, esses países, responsáveis por cerca de 80% da produção global, correm o risco de inviabilizar a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C. Em 2023, os governos reconheceram formalmente a necessidade de abandonar os combustíveis fósseis para mitigar as mudanças climáticas, mas o cenário atual mostra que muitos ainda apostam em um modelo energético ultrapassado.
“Em 2023, os governos reconheceram formalmente a necessidade de abandonar os combustíveis fósseis para mitigar as mudanças climáticas — uma obrigação que o Tribunal Internacional de Justiça agora enfatizou com clareza”, afirma Derik Broekhoff, autor principal do relatório e Diretor do Programa de Políticas Climáticas no SEI dos EUA. “Mas, como nosso relatório deixa claro, enquanto muitos países se comprometeram com uma transição energética limpa, muitos outros parecem presos a uma cartilha dependente de combustíveis fósseis, planejando ainda mais produção do que há dois anos.”
Avanços tímidos e riscos crescentes
Embora seis nações tenham avançado em planos compatíveis com a meta de emissões líquidas zero, um aumento em relação às quatro do ano passado, a maioria segue apostando na expansão da produção fóssil. Onze países projetam extrair mais combustíveis em 2030 do que planejavam em 2023, demonstrando uma tendência de retrocesso.
Para Emily Ghosh, autora principal e Diretora do Programa de Transições Justas do SEI US, é urgente redirecionar investimentos. “Para manter a meta de 1,5°C ao nosso alcance, o mundo precisa de reduções rápidas nos investimentos em carvão, petróleo e gás, redirecionando esses recursos para uma transição energética que priorize equidade e justiça. Até a COP30, os governos devem se comprometer a expandir as energias renováveis, eliminar gradualmente os combustíveis fósseis, gerenciar a demanda de energia e implementar transições energéticas centradas nas comunidades, alinhadas às obrigações do Acordo de Paris. Sem esses compromissos, adiar a ação só agravará as emissões e os impactos climáticos sobre as populações mais vulneráveis.”
Chamado global à coragem política
Mais de 50 pesquisadores de universidades e think tanks de todo o mundo participaram da análise, reforçando o consenso científico de que a expansão dos fósseis é incompatível com a estabilidade climática.
A ex-secretária executiva da UNFCCC, Christiana Figueres, define o relatório como um guia para ação urgente. “Que este relatório seja tanto um alerta quanto um guia. As renováveis inevitavelmente substituirão os combustíveis fósseis, mas precisamos de ação deliberada agora para fechar essa lacuna a tempo. O que precisamos agora é de coragem e solidariedade para avançar rapidamente com a transição justa.”
A urgência destacada por Figueres é corroborada por outros especialistas. O coautor Olivier Bois von Kursk, conselheiro de políticas do IISD, alerta para o risco econômico e social da inação. “O aumento dos planos de expansão dos combustíveis fósseis nos últimos dois anos é alarmante. Enquanto muitos governos veem as renováveis como chave para sua segurança energética, outros estão apostando contra a transição para energia limpa. Para evitar os piores impactos climáticos com o mínimo de disrupção econômica, os governos precisam se comprometer com nenhum novo combustível fóssil e apoiar as indústrias limpas do futuro.”
Já Neil Grant, especialista sênior da Climate Analytics, complementa a crítica ao alertar sobre o uso de recursos públicos em ativos que podem se tornar obsoletos. “Dez anos após Paris, as renováveis estão bem à frente na corrida. Em vez de entrar na disputa, os governos estão tropeçando de volta ao nosso passado fóssil. Embora seja frustrante ver dinheiro público sendo desperdiçado em ativos que inevitavelmente se tornarão encalhados, é intoleravelmente injusto pensar nos custos humanos e ambientais desses planos de expansão, especialmente para os mais vulneráveis.”
Brasil o os aminhos para fechar a lacuna
O Brasil figura entre os 20 países analisados, ao lado de grandes produtores como Austrália, Canadá, Índia e Arábia Saudita. Embora o país tenha avançado em fontes renováveis, a continuidade de subsídios e leilões para exploração de petróleo em áreas sensíveis, como a Margem Equatorial, coloca em xeque sua liderança climática.
O Relatório da Lacuna de Produção 2025 reforça que a chave para limitar o aquecimento global está em políticas que combinem expansão das energias renováveis, gestão da demanda e eliminação progressiva de carvão, petróleo e gás. A mensagem é clara: a transição energética não é apenas uma necessidade ambiental, mas também um imperativo econômico e social para garantir um futuro viável.



