Curtailment e geração distribuída: expansão da solar fotovoltaica amplia desafios operacionais para o SIN

Crescimento da micro e minigeração altera curva de carga, pressiona despacho centralizado e exige revisão de modelos de previsão e sinalização econômica

O avanço acelerado da geração distribuída (GD), principalmente a solar fotovoltaica de micro e minigeração, vem alterando de forma estrutural a operação do Sistema Interligado Nacional (SIN).

A injeção de energia excedente diretamente nas redes de distribuição tem reduzido a carga líquida observada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), provocando curtailment (despacho forçado de redução de geração) em usinas centralizadas e tensionando o equilíbrio econômico entre os agentes do setor.

Impacto direto na curva de carga

No atual modelo, a GD, regida pelas Resoluções Normativas 482/2012 e 1.000/2021 da Aneel, é compensada via créditos de energia e não é despachada pelo ONS. Como consequência, toda a geração distribuída se traduz em redução da demanda líquida que chega ao centro de controle.

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Embora as distribuidoras possuam registros de homologação e dados históricos de geração, a característica intermitente e não controlável da fonte solar dificulta previsões em horizonte intradiário e em tempo real. Episódios de alta irradiância em regiões com elevada penetração fotovoltaica podem provocar variações abruptas da carga vista pelo SIN, exigindo respostas rápidas do ONS.

“O operador trabalha com estimativas, mas a GD não está sujeita ao despacho centralizado. Quando a produção distribuída aumenta de maneira não prevista, o ONS é obrigado a reprogramar o despacho para manter o balanço carga-geração”, observa um especialista em planejamento energético.

Mecanismo de curtailment e perdas econômicas

Diante da queda repentina da demanda, o ONS aplica critérios técnicos e econômicos para reduzir a geração centralizada, priorizando unidades com maior flexibilidade ou custo variável mais elevado. O resultado é o desligamento ou rebaixamento de usinas hidrelétricas, eólicas, solares centralizadas e térmicas, que deixam de gerar energia previamente contratada.

Para agentes do mercado livre ou usinas com contratos de longo prazo, cada megawatt-hora não gerado representa perda direta de receita ou necessidade de recomposição no mercado de curto prazo. Mesmo autoprodutores – que investem em ativos de geração para consumo próprio – podem sofrer restrição quando injetam excedentes no SIN, reduzindo o retorno econômico do investimento.

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Assimetria regulatória e disputa competitiva

A situação alimenta críticas de geradores centralizados, que apontam assimetria regulatória. A GD, além de não ser despachável, não arca com encargos setoriais e tarifas de uso do sistema de transmissão (TUST) na mesma proporção dos geradores do SIN. Na prática, a prioridade de injeção da GD desloca a geração centralizada e redistribui custos do sistema para os demais consumidores.

Em entrevista à TV Globo, a presidente da ABEEólica, Elbia Gannoum, falou sobre o impacto da expansão da geração distribuída no setor elétrico. Ela ressaltou que a medida “tem provocado cortes recorrentes de geração centralizada, impactando a remuneração dos agentes e exigindo uma revisão nos modelos de despacho e precificação”.

Caminhos para mitigação

Especialistas defendem medidas estruturantes para acomodar a nova realidade:

  • Integração de dados em tempo real da geração distribuída nos modelos de previsão de carga do ONS.
  • Revisão das regras de compensação para sinalizar corretamente os custos de rede e serviços ancilares.
  • Incentivo a sistemas de armazenamento em larga escala e em prosumidores, permitindo maior controle sobre a injeção de excedentes.
  • Aprimoramento do sinal locacional de preço no mercado de curto prazo, refletindo a variabilidade da GD.

Perspectiva setorial

Enquanto a penetração da GD ultrapassa 28 GW instalados (dados Aneel 2025) e mantém ritmo de crescimento de dois dígitos ao ano, o desafio para o ONS é preservar a confiabilidade do sistema sem desincentivar investimentos em geração renovável.

A transição energética brasileira, marcada por alta participação de fontes intermitentes, exige evolução do arcabouço regulatório e dos instrumentos de operação para que a coexistência entre geração distribuída e centralizada ocorra de forma eficiente e economicamente equilibrada

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