Matriz renovável coloca Brasil na rota global de data centers, mas especialistas alertam para urgência em atrair investimentos

Projeto de lei em análise na Câmara propõe política nacional para processamento e armazenamento digitais; matriz elétrica majoritariamente limpa torna o país competitivo, mas falta rapidez para aproveitar a janela de oportunidade

O Brasil desponta como candidato natural para se tornar hub de data centers na América Latina, graças à sua matriz elétrica composta em mais de 90% por fontes renováveis. Esse foi um dos principais pontos destacados durante audiência pública na Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Deputados nesta quarta-feira (3).

O debate girou em torno do Projeto de Lei 1680/25, que institui a Política Nacional para Processamento e Armazenamento Digitais. A proposta, relatada pelo deputado David Soares (União-SP), busca expandir a infraestrutura tecnológica necessária para receber novos centros de dados no país, em um momento em que a economia digital depende cada vez mais de armazenamento seguro, capacidade de processamento e conectividade de alta velocidade.

A corrida global por infraestrutura digital

Os data centers de inteligência artificial, segundo explicou a diretora do Departamento de Transformação Digital do Ministério do Desenvolvimento, Cristiana Viana Rauen, consomem em média 70% mais energia que os tradicionais. A estabilidade elétrica, a eficiência em refrigeração e a baixa latência nas conexões são fatores decisivos na escolha de localização para novos investimentos.

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Para Rauen, a matriz energética brasileira pode ser um diferencial competitivo:“Dados são o principal ativo econômico da atualidade. Nenhum país pode se furtar a participar de um processo que se beneficie de uma infraestrutura digital de prontidão, como é o foco do projeto em análise.”

Esse argumento foi reforçado pelo professor de Economia da Universidade de Brasília, Jorge Arbache, que comparou a participação de renováveis no Brasil com a de outras potências globais. “Na melhor das hipóteses, Europa, China e Estados Unidos teriam uma matriz elétrica tão renovável quanto a do Brasil em 18 a 30 anos, mantidos os investimentos atuais. Isso coloca o Brasil no mapa dos data centers.”

O desafio do tempo: janela de oportunidade é limitada

Se a matriz limpa é um trunfo, o tempo de implantação surge como principal desafio. O vice-presidente da Associação Brasileira de Data Center (ABDC), Luis Tossi, destacou que os projetos globais já estão em fase de decisão e execução.

“Esses data centers estão sendo decididos e construídos hoje, para implementação nos próximos cinco anos. O tempo médio de implantação no Brasil é de 18 a 24 meses. Precisamos de medidas de atração de investimentos em prazo muito curto, porque a janela está passando.”

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O alerta sinaliza a necessidade de criar um ambiente regulatório e econômico mais ágil, capaz de reduzir burocracias e oferecer condições claras para a atração de capital internacional.

Estado, mercado e previsibilidade regulatória

Outro ponto debatido foi a governança do setor. O representante do Google Cloud no Brasil, Michael Mohallem, defendeu que a política de incentivo seja construída em equilíbrio entre setor público e privado:

“A política de incentivo ao setor deve buscar equilíbrio entre Estado e mercado, com previsibilidade e menos centralização no governo.”

A fala reflete uma preocupação recorrente de grandes players globais: a necessidade de previsibilidade regulatória e regras estáveis, condição essencial para investimentos de longo prazo em infraestrutura digital.

Cenário atual e perspectivas

Hoje, o Brasil conta com 189 data centers, o que representa cerca de 2% do total mundial. Embora a participação ainda seja modesta, a combinação entre demanda crescente por serviços digitais, localização estratégica na América Latina e matriz energética limpa cria um ambiente favorável para expansão.

Se bem estruturada, a Política Nacional para Processamento e Armazenamento Digitais pode consolidar o país como destino preferencial para investimentos em data centers. No entanto, o ritmo das decisões políticas e a capacidade de implementar medidas de incentivo em curto prazo serão determinantes para não perder a janela competitiva diante de concorrentes internacionais.

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