Sistema desenvolvido pela Polar Night Energy promete reduzir em até 70% as emissões de carbono do aquecimento urbano e pode servir de modelo para cidades frias em todo o mundo
A Finlândia deu mais um passo estratégico na corrida global pela descarbonização. A cidade de Pornainen, localizada no sul do país, inaugurou em junho a maior bateria de areia já construída no mundo, um projeto inovador desenvolvido pela Polar Night Energy. A instalação, que substituiu uma antiga usina movida a cavacos de madeira, tem potencial de reduzir em até 70% as emissões de carbono associadas ao sistema de calefação urbana.
O empreendimento marca uma virada tecnológica no setor energético europeu, que enfrenta o desafio de manter o fornecimento de calor em regiões de clima rigoroso ao mesmo tempo em que busca cumprir metas de neutralidade de carbono.
Como funciona a bateria de areia
O reservatório, que mede 13 metros de altura por 15 de largura, possui capacidade para armazenar até 100 MWh de energia térmica — volume suficiente para manter aquecida toda a cidade de Pornainen por cerca de uma semana.
O processo é relativamente simples, mas altamente eficiente: o excesso de energia renovável, proveniente principalmente de usinas solares e eólicas, é utilizado para aquecer a areia a temperaturas que chegam a 600 °C dentro de um silo isolado. Esse calor pode permanecer armazenado por meses, sem perdas significativas, até ser liberado para gerar vapor ou aquecer a água utilizada no sistema de aquecimento urbano.
Ao contrário das baterias convencionais, que armazenam eletricidade em forma química, a bateria de areia é um sistema de armazenamento de energia térmica (TES, na sigla em inglês). Isso garante eficiência de cerca de 90% nos processos de carga e descarga, além de custo reduzido em comparação a tecnologias mais complexas, como as baterias de lítio.
Impacto na matriz energética
A substituição da usina a biomassa por um sistema de armazenamento de energia térmica reforça a tendência europeia de buscar alternativas cada vez mais limpas e sustentáveis. Embora a biomassa seja considerada uma fonte renovável, sua queima ainda libera gases de efeito estufa. Já a bateria de areia permite armazenar energia verde que, de outra forma, seria desperdiçada em momentos de sobra de geração.
“Com dimensões dez vezes maiores do que a primeira bateria de areia já construída, também pela Polar Night Energy, esta instalação representa uma virada de escala na aplicação da tecnologia”, afirmou a companhia em nota.
Além do fornecimento de calor, a empresa estuda a possibilidade de converter parte da energia térmica novamente em eletricidade por meio de turbinas a vapor, o que poderia ampliar ainda mais a versatilidade da solução.
Potencial de replicação global
Especialistas destacam que a inovação pode se tornar um modelo para diversas cidades ao redor do mundo, especialmente em regiões frias que dependem de grandes volumes de energia para aquecimento. Países como Suécia, Noruega, Alemanha, Canadá e Rússia enfrentam desafios semelhantes e podem adotar a tecnologia em busca de maior segurança energética e redução de emissões.
Segundo estudos recentes, o armazenamento de energia térmica é apontado como peça-chave para viabilizar a transição energética, uma vez que resolve o problema da intermitência das fontes renováveis. Ao acumular energia solar e eólica durante os períodos de maior produção, o sistema garante abastecimento contínuo mesmo em momentos de baixa geração.
Na visão de analistas do setor, a bateria de areia pode complementar outras formas de armazenamento, como hidrelétricas reversíveis, hidrogênio verde e baterias de lítio, formando um portfólio de soluções capazes de atender diferentes necessidades de cada mercado.
O futuro da tecnologia
A Finlândia, que já se destaca por metas ambiciosas de neutralidade de carbono até 2035, consolida com o projeto de Pornainen uma posição de liderança em inovação energética. O avanço também fortalece a indústria local de tecnologia limpa, abrindo espaço para novos investimentos e parcerias internacionais.
Se confirmada sua eficiência em larga escala, a bateria de areia poderá acelerar o processo de substituição de combustíveis fósseis no aquecimento urbano — um dos grandes vilões da emissão de gases de efeito estufa em regiões frias.



