Excesso de energia renovável provoca cortes históricos na geração elétrica

Curtailment recorde gera dívidas bilionárias, expõe falhas estruturais no planejamento do setor e coloca em risco novos investimentos em solar e eólica no Brasil

O Brasil vive um paradoxo energético: enquanto bate recordes de instalação de usinas solares e eólicas, enfrenta cortes sem precedentes na geração dessas fontes. Em 2024, cerca de 20% da produção de energia renovável foi interrompida por ordem do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). O fenômeno, conhecido como curtailment, acumula efeitos dramáticos: mais de R$ 5 bilhões em dívidas entre geradores e riscos crescentes de inviabilização financeira de novos projetos.

Segundo dados do ONS, a sobreoferta de energia foi responsável por metade dos cortes no ano passado e deve representar até 96% das interrupções até 2029. O problema decorre da falta de sincronização entre geração e consumo: a energia solar, por exemplo, tem pico de produção durante o dia, justamente nos horários de menor demanda.

“Os cortes, conhecidos como ‘curtailment’, são determinados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) para garantir a segurança da rede.”

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Essa contradição expõe não apenas gargalos operacionais, mas uma crise de planejamento que pode comprometer o futuro da matriz elétrica brasileira.

Impactos financeiros e de credibilidade

O aumento do curtailment tem gerado forte insatisfação entre geradores. Empresas denunciam falta de transparência na comunicação do ONS sobre os cortes, que não ocorrem de forma homogênea entre as regiões do país. A desigualdade de tratamento dificulta previsões de receita e aumenta a insegurança jurídica para investidores.

Outro agravante é a ascensão da geração distribuída (GD), que já soma mais de 42 GW instalados. Por injetar energia sem gestão direta do ONS, a GD amplia a complexidade do equilíbrio do sistema.

Analistas alertam que o efeito colateral mais perigoso pode recair sobre o financiamento de novos projetos. O BNDES, principal financiador de empreendimentos renováveis, pode reduzir linhas de crédito diante da dificuldade de garantir receitas estáveis. Isso ameaça a continuidade do ciclo de expansão que posicionou o Brasil como quinto maior mercado solar e eólico do mundo.

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Setor pressiona governo e reguladores

A crise já mobilizou entidades de peso. A Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) e a Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica) pressionam o governo a adotar medidas emergenciais. A Aneel discute diretrizes para criar mecanismos de compensação financeira aos geradores, enquanto o Ministério de Minas e Energia (MME) avalia soluções estruturais para mitigar os impactos.

Especialistas ouvidos pelo setor alertam que a demora em dar respostas pode custar caro: risco de judicialização, perda de credibilidade regulatória e fuga de investidores internacionais.

Caminhos para solução: baterias, hidrelétricas e incentivos

Entre as alternativas em debate, a ampliação da capacidade de armazenamento se destaca como prioridade. A adoção de baterias em escala residencial e industrial poderia permitir o deslocamento da energia solar para horários de maior consumo.

Outra solução é a flexibilização das hidrelétricas, que continuam sendo a base de sustentação do SIN, mas precisam de regras que ampliem sua função como “baterias naturais” para acomodar as renováveis variáveis.

Além disso, há propostas para criação de incentivos tarifários ao consumo em períodos de sobreoferta, medida que ajudaria a reduzir desperdícios e estimular novos usos da eletricidade, como mobilidade elétrica, aquecimento de água e produção de hidrogênio verde.

Urgência de uma reforma estrutural

O consenso entre especialistas é que o Brasil precisa de uma reforma estrutural no setor elétrico, capaz de alinhar o crescimento das renováveis à modernização regulatória e tecnológica do sistema. Sem isso, o país corre o risco de desperdiçar a vantagem competitiva de ser uma das maiores potências em energia limpa do planeta.

O dilema é claro: ou o Brasil adota rapidamente medidas que conciliem oferta abundante e demanda crescente, ou perderá espaço no mapa global da transição energética.

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