China amplia uso de carvão apesar de recorde em renováveis e ameaça meta climática

Relatório mostra que a potência asiática colocou em operação 21 GW de carvão no primeiro semestre de 2025, maior nível desde 2016, enquanto pressões políticas e econômicas desafiam o compromisso de reduzir emissões até 2030

A China, maior emissora mundial de gases de efeito estufa, voltou a intensificar o uso do carvão para gerar energia elétrica em 2025, mesmo em meio a uma expansão sem precedentes das fontes renováveis em sua matriz energética. Um relatório conjunto do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo (CREA) e do Global Energy Monitor (GEM), divulgado nesta segunda-feira (25), mostra que o país adicionou 21 gigawatts (GW) de capacidade a carvão no primeiro semestre, o maior nível para o período desde 2016.

O documento alerta que essa trajetória ameaça os compromissos assumidos pelo governo chinês, incluindo o pico de emissões até 2030 e a transição para uma matriz mais limpa até 2060.

O paradoxo da transição chinesa

Apesar do avanço das energias renováveis — em especial solar e eólica — o carvão ainda responde por quase metade da eletricidade gerada na China, contra aproximadamente 75% em 2016. A diferença, no entanto, não foi suficiente para conter o crescimento da demanda energética, que levou o país a acelerar tanto a instalação de fontes limpas quanto o licenciamento de novas termelétricas a carvão.

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Segundo o relatório, além dos 21 GW já conectados à rede, a China iniciou ou retomou obras que somam 46 GW e apresentou novos projetos que totalizam 75 GW. O volume é equivalente à capacidade total de geração a carvão de países inteiros, como a Coreia do Sul.

“O desenvolvimento de energia a carvão na China não mostra sinais de diminuição, o que deixa as emissões em um nível elevado e mantém o carvão no sistema por muitos anos”, afirmou Christine Shearer, analista do GEM e coautora do estudo.

Recorde em renováveis não basta

O contraste fica ainda mais evidente quando se observa a escalada da energia solar no país. Apenas nos seis primeiros meses de 2025, a China instalou 212 GW de capacidade fotovoltaica, um recorde global que supera sozinho todo o parque solar acumulado dos Estados Unidos até o fim de 2024.

De acordo com o CREA, a tendência é que até 2025 a China consiga instalar capacidade renovável suficiente — somando solar, eólica, nuclear e hídrica — para cobrir toda a demanda elétrica combinada da Alemanha e do Reino Unido.

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Apesar do avanço, a convivência entre renováveis e carvão tem imposto desafios técnicos à rede elétrica chinesa. “Há uma grande quantidade de projetos (a carvão) já autorizados na espera, após um aumento considerável de licenciamentos em 2022 e 2023, em um período no qual a matriz energética chinesa enfrentava desafios para adaptar-se ao aumento das fontes renováveis”, explicou Lauri Myllyvirta, principal analista do CREA.

Pressões políticas e interesses econômicos

O presidente Xi Jinping anunciou em 2021 que controlaria de forma rigorosa os projetos de carvão, prevendo uma redução progressiva do consumo entre 2026 e 2030. Porém, os números recentes mostram que o país está distante da meta de encerrar 30 GW de capacidade a carvão até o fim de 2025. No primeiro semestre deste ano, apenas 1 GW foi retirado do sistema.

“Os interesses poderosos do carvão continuam pressionando a favor dos projetos”, disse Qi Qin, principal autora do relatório e analista de China no CREA. Para ela, a expansão das termelétricas pode inclusive impedir o desenvolvimento pleno das energias renováveis.

Expectativa para o 15º Plano Quinquenal

O relatório chega em um momento estratégico: o governo chinês prepara a divulgação do 15º Plano Quinquenal (2026-2030), que deve detalhar metas para emissões e a participação de energias limpas na matriz. Xi Jinping já sinalizou que anunciará compromissos climáticos mais claros até 2035, com o objetivo de apresentar avanços concretos antes da COP30, programada para novembro de 2025, em Belém (PA).

Enquanto isso, a dualidade chinesa permanece: o país lidera o mundo tanto na instalação de energias renováveis quanto na expansão do carvão, o combustível fóssil mais poluente. Essa contradição, segundo os analistas, pode definir não apenas o futuro da matriz chinesa, mas também o ritmo da transição energética global.

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