IA e desafios energéticos: ISO 50001 pode ser diferencial estratégico

Por Plínio Pereira, gerente da Área de Sistemas da TÜV Rheinland

A rápida ascensão da inteligência artificial generativa – exemplificada por sistemas como GPT-4 e outros modelos de grande porte – está redefinindo setores inteiros da economia digital. Entretanto, esse crescimento vertiginoso vem acompanhado de um apetite considerável por recursos, particularmente eletricidade e água, o que levanta preocupações ambientais no mundo todo.  

Estimativas recentes apontam que o treinamento e a operação de modelos de IA generativa demandam volumes alarmantes de energia e, indiretamente, de água – usada para resfriar os servidores em data centers. Para se ter uma ideia, a cada 20 a 50 interações com um modelo de IA como o ChatGPT, cerca de meio litro de água pode ser consumido apenas para manter os sistemas resfriados.  

Parece pouco? Multiplique isso por bilhões de interações diárias e o impacto se torna chocante: estudos sugerem que, se cada pessoa nos Estados Unidos der “bom dia” à IA uma vez por dia, o consumo total de água associado seria de milhões de litros por dia. Em um cenário de crise climática e escassez hídrica em diversas regiões do mundo, esse tipo de pegada ambiental invisível se torna cada vez mais difícil de ignorar.

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Além da água, modelos com bilhões de parâmetros demandam quantidades impressionantes de energia elétrica para serem treinados, aumentando as emissões de dióxido de carbono e pressionando redes elétricas que já operam no limite.

Projeções de consumo de energia no Brasil

De acordo com o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2034, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), estima-se que até 2037, o consumo de energia dos data centers no Brasil será equivalente ao de 25 milhões de pessoas. Atualmente, o país conta com 181 data centers, e a previsão é que esse número aumente para entre 400 e 500 até 2034.  

Para contextualizar, um data center de grande porte, com capacidade de 10 megawatts, consome, por hora, a mesma quantidade de energia que uma cidade de 100 mil habitantes. Com a expansão prevista, a soma do consumo de todos os data centers no território nacional poderá atingir 2.500 MW, o que corresponde ao consumo de 25 milhões de pessoas. Ou seja, os data centers poderão demandar tanta energia quanto toda a população da região metropolitana de São Paulo, que abriga cerca de 22,4 milhões de habitantes.

Para enfrentar esses desafios, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) lançou o Programa de Sustentabilidade e Energias Renováveis para IA, em fevereiro deste ano, com um investimento previsto de R$ 500 milhões. O programa visa financiar projetos que promovam a implementação de data centers verdes no Brasil, priorizando o uso de fontes de energia renováveis e tecnologias de resfriamento inovadoras.

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ISO 50001: base para um futuro sustentável

A ISO 50001 é a norma internacional de gestão de energia, concebida para ajudar organizações a estabelecerem sistemas eficazes de monitoramento e melhoria de desempenho energético. Publicada originalmente há mais de uma década, a regulação teve uma atualização em 2018 e, em 2024, houve uma nova mudança para alinhar a ISO aos compromissos globais de ação climática. Essa atualização adicionou requisitos específicos para que as organizações avaliem a relevância das mudanças climáticas em seu contexto de negócios e considerem expectativas e obrigações de partes interessadas relacionadas ao clima

Em termos práticos, aderir à ISO 50001 significa adotar melhores práticas de eficiência energética em toda a empresa, seguindo o ciclo contínuo de planejar, executar, verificar e agir para otimizar o uso de energia. A norma orienta as empresas a desenvolver uma política energética clara, identificar as áreas de uso mais intensivo, e estabelecer metas e planos de ação para redução do consumo e melhoria da eficiência. Tudo isso apoiado por medições, dados e análise de desempenho, criando uma cultura de decisão baseada em evidências no gerenciamento da energia.  

Aplicando a ISO 50001 em ambientes de IA generativa

Em empresas e setores que utilizam intensamente IA generativa, a implementação da ISO 50001 torna-se muito importante. Esses ambientes tipicamente envolvem grandes data centers, locais onde o consumo de energia é concentrado e contínuo. Por exemplo, um data center moderno abriga milhares de servidores e sistemas de climatização industrial; e o resfriamento (HVAC) sozinho pode representar até 50% do consumo energético.

Diante disso, um Sistema de Gestão de Energia baseado na ISO 50001 ajuda a direcionar foco e recursos exatamente para onde reside o maior gasto. Otimizar a climatização – seja aprimorando a eficiência de chillers, ajustando a temperatura ambiente ou aproveitando técnicas de resfriamento natural – é uma das ações possíveis sob a ótica da norma.  

Da mesma forma, a empresa pode identificar ineficiências em servidores – como equipamentos obsoletos ou ociosos consumindo energia – e planejar upgrades tecnológicos ou consolidação de cargas de trabalho para reduzir desperdícios. A ISO também fornece as ferramentas gerenciais para que essas melhorias ocorram de forma sistemática e mensurável. Organizações intensivas em IA podem estabelecer indicadores-chave de desempenho energético relevantes ao seu negócio – por exemplo, o consumo em kWh por treinamento de modelo ou a eficácia do uso de energia do data center – e acompanhar sua evolução ao longo do tempo.  

A norma incentiva também a inovação em gestão de energia: algumas empresas têm aplicado inteligência artificial para gerenciar em tempo real a distribuição de carga e resfriamento, colhendo reduções adicionais no uso de energia.  

Benefícios corporativos em eficiência, ESG e sustentabilidade

A adoção da ISO 50001 nesse cenário de alta demanda tecnológica traz diversos benefícios corporativos. Em primeiro lugar, há um ganho direto de eficiência e redução de custos: ao otimizar o uso de energia, eliminando desperdícios e melhorando processos, as organizações cortam despesas operacionais com eletricidade.

Essa redução no consumo também diminui a exposição da empresa à volatilidade de preços de energia e a possíveis crises de abastecimento – em outras palavras, gera resiliência financeira e operacional ao negócio. Do ponto de vista de sustentabilidade e ESG, os ganhos são igualmente evidentes. Menor consumo de energia implica menores emissões de gases de efeito estufa, auxiliando a empresa a cumprir metas climáticas e a melhorar sua pegada ambiental.  

Em uma época de crescente escrutínio por parte de investidores, clientes e reguladores, demonstrar compromisso com a eficiência energética reforça a imagem corporativa e o alinhamento a critérios ESG. E a ISO 50001 fornece evidências concretas desse compromisso, uma vez que exige documentação e acompanhamento das melhorias – algo valioso em auditorias e relatórios de sustentabilidade.  

Além disso, a norma facilita conformidade com legislações e incentivos governamentais: em alguns mercados, contar com um sistema certificado ISO 50001 pode isentar a empresa de auditorias energéticas obrigatórias ou qualificá-la a incentivos fiscais por redução de consumo. Pensando a longo prazo, ao integrar as melhores práticas globais, a empresa também se antecipa a futuras regulações mais restritivas sobre uso de energia e carbono.  

Em resumo, ao adotar essa abordagem, as empresas não apenas mitigam os impactos ambientais da IA – em termos de carbono, água e biodiversidade – como também colhem benefícios tangíveis em eficiência, compliance e reputação. Isso nos mostra que é possível, sim, inovar com responsabilidade e crescer de forma sustentável, conciliando progresso tecnológico com o cuidado pelo planeta e pelas futuras gerações.

TÜV Rheinland: há 150 anos tornando o mundo mais seguro

A TÜV Rheinland é uma das principais fornecedoras de serviços de testes e inspeções do mundo, com receita anual superior a 2,7 bilhões de euros e cerca de 26.000 colaboradores em mais de 50 países. Seus especialistas altamente qualificados testam sistemas e produtos técnicos, viabilizam a inovação e apoiam empresas na transição para uma atuação mais sustentável.

A empresa capacita profissionais em diversas áreas e certifica sistemas de gestão conforme padrões internacionais. Com expertise reconhecida em áreas como mobilidade, fornecimento de energia e infraestrutura, a TÜV Rheinland assegura qualidade independente em todas as etapas, inclusive em tecnologias emergentes, como hidrogênio verde, inteligência artificial e condução autônoma. Dessa forma, contribui para um futuro mais seguro e melhor para todos. Desde 2006, a TÜV Rheinland é signatária do Pacto Global da ONU, que promove a sustentabilidade e combate à corrupção. Para saber mais, acesse: https://tuv.com .  

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