Climatempo alerta que incêndios mais localizados, porém próximos à infraestrutura crítica, estão causando mais desligamentos; impactos ao sistema energético devem persistir até início da estação chuvosa
Em plena estação seca no Brasil, um paradoxo chama a atenção de especialistas: embora o número de queimadas tenha diminuído significativamente no comparativo com 2024 — queda de 46% até maio deste ano —, os impactos dessas ocorrências sobre o sistema elétrico nacional seguem em alta. A Climatempo, empresa referência em monitoramento meteorológico na América Latina, alerta que a vulnerabilidade do sistema energético brasileiro está passando por uma reconfiguração, exigindo novas estratégias de prevenção e adaptação.
Segundo dados da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), houve um aumento de 38% nas interrupções de energia causadas por queimadas entre 2023 e 2024, atingindo o maior índice da série histórica recente. Apesar da redução na quantidade absoluta de focos de incêndio, a situação permanece crítica em 2025, com registros ainda não consolidados apontando para a persistência de riscos elevados.
“Em uma análise quantitativa do número de queimadas, o cenário atual apresenta uma melhora. Ainda assim, é fundamental manter o monitoramento ativo e as análises atualizadas, especialmente porque parte dos incêndios recentes tem se concentrado em áreas críticas para a infraestrutura elétrica, como linhas de transmissão e subestações”, adverte Ana Clara Marques, meteorologista da Climatempo.
Nova configuração dos incêndios amplia o risco para o setor elétrico
A principal mudança observada é no perfil das queimadas. Embora em menor quantidade, os incêndios estão ocorrendo de forma mais localizada, muitas vezes próximas a infraestruturas estratégicas do setor elétrico, como subestações e linhas de transmissão — estruturas sensíveis a temperaturas elevadas e partículas em suspensão geradas pela queima da vegetação.
“O fogo avança, principalmente nas regiões Norte e Centro-Oeste, reforçados pela baixa umidade durante o período seco (março a setembro). Queimadas pontuais, quando próximas a áreas críticas, têm impacto imediato e generalizado. E a estiagem prolongada torna o combate mais difícil e os efeitos mais duradouros”, explica Ana Clara.
Além da seca prolongada, os ventos típicos da estação contribuem para a disseminação rápida do fogo. O contraste térmico entre o ar frio do Sul e o calor do Norte intensifica os ventos, dificultando o controle das chamas e acelerando a propagação dos focos.
Cerrado, Amazônia e Caatinga: zonas de alerta máximo
As regiões de transição entre o Cerrado, a Caatinga e a Amazônia permanecem como os principais pontos de atenção para os meses de agosto e setembro — historicamente o pico da temporada de incêndios no Brasil. A Climatempo realiza o monitoramento contínuo das condições climáticas e tem registrado tendência de manutenção do risco elevado nessas áreas, principalmente onde há maior concentração de infraestrutura energética e atividades agroindustriais.
“O monitoramento das condições climáticas que favorecem a ocorrência de incêndios, principalmente nas regiões nas quais a prática de queimadas é mais frequente, é uma ferramenta fundamental para evitar que o fogo se propague por grandes extensões, causando perdas financeiras e até colocando em risco a vida das pessoas”, ressalta Ana Clara Marques.
Inteligência climática como aliada estratégica
Para mitigar os impactos das queimadas sobre o sistema elétrico e demais setores, a Climatempo aposta em soluções baseadas em inteligência climática. Um dos principais instrumentos é o SMAC (Sistema de Monitoramento e Alerta Climatempo), que oferece dados atualizados sobre precipitação, temperatura, velocidade dos ventos e índices de risco de incêndio.
“Ferramentas de Inteligência Climática, como o SMAC (Sistema de Monitoramento e Alerta Climatempo) fornecem dados atualizados sobre a previsão de chuvas, a variação da temperatura e a situação dos ventos e são utilizadas por setores como o de energia, mas também o agronegócio, além do governo. Por meio de órgãos como a Defesa Civil, são enviados alertas e insights que auxiliam na tomada de ações preventivas e mitigatórias para evitar que os incêndios se propagem e tomem grandes proporções com as registradas nos últimos dois anos”, completa Ana Clara.
Expectativa de melhora só com chegada da chuva
A reversão desse cenário adverso, segundo os especialistas, depende da chegada do período chuvoso, previsto para se iniciar gradualmente a partir de setembro. Até lá, distribuidoras de energia, operadoras do sistema e autoridades públicas precisarão redobrar os esforços de prevenção, monitoramento e resposta rápida a eventos extremos.
A combinação entre focos de incêndio cada vez mais próximos de infraestruturas críticas e um sistema elétrico exposto à variabilidade climática impõe desafios crescentes à segurança energética nacional. Mesmo com a redução no número de queimadas, o impacto da estação seca de 2025 sobre o setor elétrico já é considerado expressivo — e ainda pode se agravar nos próximos meses.



