Tecnologia desenvolvida na Unicamp revoluciona a manutenção de redes elétricas com foco em ergonomia e segurança

Cabeçote decapador de cabos criado com apoio da CPFL e licenciado pela Restart Brasil promete transformar o trabalho de técnicos eletricistas, reduzindo riscos e ampliando a produtividade

Um novo dispositivo criado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) promete transformar a rotina de manutenção de redes elétricas no Brasil. Desenvolvido pela Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da universidade, o cabeçote decapador de cabos é uma tecnologia voltada para facilitar a decapagem de cabos de energia — uma das tarefas mais exigentes física e ergonomicamente no setor.

O equipamento, que pode ser acoplado a ferramentas aplicadoras de torque, como furadeiras ou parafusadeiras, foi pensado para reduzir o esforço físico, aumentar a precisão e proporcionar mais segurança aos técnicos eletricistas que atuam em campo. O desenvolvimento da tecnologia contou com apoio da CPFL Energia por meio de um acordo de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), e sua patente foi licenciada pela empresa Restart Brasil, especializada em soluções para o setor elétrico.

Ergonomia no centro da inovação

A professora Sandra Gemma, especialista em ergonomia e coordenadora do Laboratório de Ergonomia, Saúde e Trabalho (ErgoLab) da FCA, explica que a concepção do cabeçote foi fundamentada em uma abordagem centrada no trabalhador:

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“Colocamos os trabalhadores no centro dessa discussão. Analisamos como realizam suas atividades, investigamos sua rotina e mapeamos suas dificuldades para desenvolver uma ferramenta ergonomicamente aprimorada e adaptada às suas necessidades.”

O desenvolvimento da solução envolveu testes com técnicos em ambientes controlados e centros de treinamento da CPFL. Tradicionalmente, a decapagem dos cabos exige movimentos repetitivos com lâminas, em condições adversas e com pouco espaço para manobra. Com o novo dispositivo, o corte da capa do cabo pode ser feito eletricamente, o que representa uma revolução no processo.

“Nessa tarefa de decapagem dos cabos, os técnicos fazem um movimento de vai e vem com uma lâmina, cortando a capa em espiral, como se descascassem uma laranja. Isso é desgastante e perigoso. Então, desenvolvemos o cabeçote que acopla a uma furadeira, permitindo que a remoção da capa seja feita eletricamente, reduzindo consideravelmente o esforço físico e melhorando a segurança”, complementa a professora Gemma.

Biomecânica e simulação digital a serviço da eficiência

O projeto também se destacou pela aplicação de metodologias avançadas em simulação digital e biomecânica. O professor José Luiz Brittes, do Laboratório de Simulação e Automação (SIMAUT), destaca que mais do que criar uma ferramenta, o grupo desenvolveu um método de pesquisa com potencial para gerar outras soluções ergonômicas no setor elétrico:

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“A ferramenta aparece como resultado dos esforços, mas o que realmente desenvolvemos foi um método avançado de solução de problemas laborais.”

Brittes explica que simulações computacionais foram utilizadas para analisar o desempenho dos trabalhadores com base em protocolos ergonômicos reconhecidos, como o RULA (Rapid Upperlimb Assessment), que avalia a postura e esforço dos membros superiores.

Além disso, o professor Milton Shoiti Misuta, do Laboratório de Biomecânica e Instrumentação (LABIN), destaca o uso de sistemas de captura de movimento e plataformas de força para simular cenários reais de trabalho.

“Os dados coletados foram integrados aos da ergonomia e simulação digital. Esse processo nos permitiu compreender em profundidade as exigências físicas da tarefa e colaborar diretamente para o desenvolvimento de uma solução mais segura e eficiente.”

Produto deve chegar ao mercado em breve

A tecnologia foi licenciada pela Restart Brasil, que atualmente trabalha para adaptar o dispositivo ao uso comercial. Segundo André Müller, CEO da empresa, a inovação deve atender tanto o mercado nacional quanto internacional:

“Nós enxergamos que o novo decapador traz benefícios concretos para os profissionais do setor e certamente tem aplicabilidade para várias empresas, não só do Brasil como também do exterior.”

Desde o licenciamento, a Restart já desenvolveu quatro versões do equipamento, incorporando feedbacks de distribuidoras parceiras durante a fase de testes.

“Até o momento, já foram desenvolvidas quatro versões do equipamento, com base em testes junto a várias distribuidoras. Atualmente, o produto está na fase final de avaliação e coleta de feedbacks para ajustes finais, com previsão de entrada em linha de produção em breve. Um desafio que enfrentamos foi garantir que o decapador atendesse aos mais variados tipos de cabos e condições de uso em todo o país.”

A expectativa da empresa é que o dispositivo contribua para melhorar significativamente as condições de trabalho dos eletricistas.

“Ela oferece um ganho ergonômico — com redução do esforço em ombros, cotovelos e punhos —, e mais agilidade na execução dos serviços, já que o tempo de trabalho pode ser reduzido pela metade. Além disso, a ferramenta representa um bom custo-benefício, ao combinar eficiência, segurança e economia para as empresas do setor elétrico. E isso é algo que valorizamos em nossa empresa: entregar soluções que preservem a saúde do eletricista e aumentem a produtividade das equipes”, finaliza Müller.

Inovação com foco humano e impacto industrial

O cabeçote decapador da Unicamp representa um avanço expressivo na interface entre ergonomia, tecnologia e eficiência operacional. A iniciativa reforça a importância da colaboração entre universidade, setor produtivo e empresas inovadoras na geração de soluções que valorizam o trabalhador e fortalecem a produtividade do setor elétrico nacional.

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