O ESG que começa e termina na água

Por Fernando Carvalho, diretor-presidente da Opersan

Vivemos uma época marcada por relatórios de sustentabilidade cada vez mais robustos e cobranças públicas sobre compromissos ambientais, na qual o termo ESG (Environmental, Social, and Governance, na sigla em inglês) deixou de ser apenas um diferencial competitivo e tornou-se uma exigência mínima. Podemos notar que as empresas buscam cada vez mais se adequar a essa realidade, seguindo metas de redução da pegada de carbono, uso de energias renováveis e promoção da diversidade e inclusão. Porém, em meio a todas essas diretrizes, é necessária atenção para outra frente importante: a gestão de efluentes.

Tratar corretamente os resíduos líquidos gerados por processos produtivos não é só um pilar essencial da responsabilidade ambiental, mas também uma obrigação legal. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei n.º 12.305/2010), promulgada em 2010, definiu como obrigatório o tratamento e a destinação adequada de resíduos líquidos industriais que não podem ser lançados sem risco ambiental. Inclusive, há entidades estaduais encarregadas de fiscalizar o grau de poluição gerado pelas empresas e de que maneira elas lidam com seus efluentes.

Embora a legislação seja bem detalhada, muitas empresas têm dificuldades em estabelecer processos adequados para gerenciar a emissão de poluentes e assegurar que ela seja cumprida. No setor industrial ainda há muitas oportunidades desperdiçadas de aliar tratamento de efluentes, reuso e inovação tecnológica.

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Dados do Instituto Trata Brasil mostram que volumes equivalentes a mais de 5 mil piscinas olímpicas de esgoto sem tratamento são despejados diariamente na natureza no País. Apenas 51% do total gerado no Brasil é efetivamente tratado. Esses números escancaram o tamanho do desafio nacional com relação ao saneamento e mostram que o setor privado também precisa assumir protagonismo na gestão responsável da água.

Há uma crescente expectativa internacional por compromissos ambientais ambiciosos por parte do Brasil. Enquanto temas como carbono e energias renováveis dominam o holofote, corremos o risco de invisibilizar uma questão essencial: a água. A gestão de efluentes e a eficiência hídrica precisam fazer parte das metas climáticas das empresas e das políticas públicas, pois são diretamente ligadas à adaptação climática, à segurança no abastecimento do mais precioso líquido do planeta e à justiça ambiental.

Além de evitar a poluição de corpos hídricos e danos à biodiversidade, o tratamento dos efluentes permite que as empresas reduzam custos. Essa alternativa também contribui para a diminuição da dependência de recursos naturais e a pressão sobre mananciais, o que é proveitoso, especialmente num cenário delicado como o que vivemos.

Companhias que negligenciam os riscos ambientais também podem estar mais vulneráveis à desvalorização no mercado e danos à reputação. A água, cada vez mais escassa, tornou-se um ativo estratégico. Sua gestão é uma questão de governança.

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