Associação vê com preocupação medida anunciada por Washington, que pode prejudicar setor eletroeletrônico e comprometer previsibilidade nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos
A imposição de tarifas adicionais pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, anunciada no último dia 9 de julho e prevista para entrar em vigor em 1º de agosto, acendeu o alerta no setor produtivo nacional. A Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica) manifestou preocupação com a medida, que pode provocar impactos relevantes nas exportações do setor eletroeletrônico e comprometer a histórica relação bilateral entre Brasil e EUA, construída ao longo de dois séculos de cooperação diplomática, comercial e cultural.
Em comunicado oficial, a entidade classificou a decisão norte-americana como “unilateral” e “sem justificativa econômica”, destacando que o fluxo comercial entre os dois países é amplamente superavitário para os Estados Unidos. No caso específico do setor eletroeletrônico, o Brasil registrou déficit de US$ 1,3 bilhão no primeiro semestre de 2025, com exportações de US$ 1,1 bilhão e importações de US$ 2,4 bilhões.
Apesar do saldo negativo para o Brasil, os EUA seguem como principal destino das exportações brasileiras do setor. Nos seis primeiros meses de 2025, houve crescimento de 23,1% nas vendas para o mercado norte-americano, que ampliou sua participação nas exportações totais do setor de 26% para 29% em relação ao mesmo período de 2024.
Produtos de alto valor agregado estão no alvo das tarifas
De acordo com a Abinee, a medida dos EUA deve afetar especialmente as exportações brasileiras de equipamentos elétricos de grande porte, motores e geradores, componentes para equipamentos industriais, máquinas para processamento de dados e instrumentos de medição — segmentos que exigem alto nível tecnológico e vêm crescendo em demanda global, especialmente com os investimentos realizados nos Estados Unidos para expansão da infraestrutura de recarga de veículos elétricos.
“Esses equipamentos compõem uma fatia importante do nosso comércio com os Estados Unidos, especialmente em um momento em que há esforços globais para a transição energética e a digitalização da infraestrutura industrial”, destacou a associação no comunicado.
A expectativa da Abinee é de que o governo brasileiro busque o diálogo diplomático como forma de reverter a decisão ou minimizar seus impactos. “O Brasil terá que ir à mesa de negociação para reverter esse nível tarifário, que inviabilizará as vendas externas das empresas do setor”, alertou a entidade.
Diplomacia e previsibilidade nas relações comerciais
A Abinee ressaltou ainda que o caminho diplomático será essencial para preservar a confiabilidade e a previsibilidade que sempre marcaram a relação Brasil-EUA. “É importante que o diálogo entre os dois países seja preservado, mantendo uma tradição diplomática de cerca de 200 anos, alicerçada no intercâmbio comercial e cultural, com resultados benéficos para o desenvolvimento econômico e social de ambas as nações”, pontua a associação.
A entidade reforçou seu compromisso com a defesa do setor produtivo nacional e pediu engajamento das autoridades brasileiras, em especial do Itamaraty e dos ministérios da Fazenda, Desenvolvimento, Indústria e Comércio e Relações Exteriores, para uma resposta coordenada e eficaz.
Relações comerciais em xeque
A possível entrada em vigor das novas tarifas levanta dúvidas sobre o futuro das relações comerciais entre os dois países em um momento de crescente competição global por mercados, cadeias de suprimentos mais resilientes e investimentos em tecnologias limpas. Para o setor eletroeletrônico, que depende de acesso competitivo a mercados como o norte-americano, medidas como essa criam insegurança para os exportadores brasileiros e colocam em risco investimentos e empregos no país.
O episódio também reacende o debate sobre a necessidade de o Brasil diversificar seus parceiros comerciais e fortalecer sua inserção internacional por meio de acordos bilaterais e regionais que garantam maior estabilidade e acesso a mercados estratégicos.



