Cúpula do BRICS avança em agenda própria para financiamento climático e mira protagonismo na transição energética global

Sob presidência brasileira, bloco lança fundo de garantias para infraestrutura e clima, reforça defesa por reforma do sistema financeiro internacional e articula propostas de impacto para a COP30

Apesar das tensões diplomáticas e da ausência de líderes estratégicos, como o presidente da China, Xi Jinping, a mais recente cúpula do BRICS, realizada no Rio de Janeiro, sinalizou avanços estruturantes para o financiamento da transição verde. Um dos principais marcos do encontro foi o anúncio de um novo fundo de garantias para infraestrutura e clima, que será operado pelo Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), e tem como objetivo ampliar o acesso a investimentos para projetos sustentáveis nos países do Sul Global.

A iniciativa, já antecipada pela agência Reuters, foi incluída na declaração final do encontro, negociada até as últimas horas antes da chegada dos chefes de Estado. Ela representa um movimento estratégico do bloco no sentido de reduzir a dependência dos bancos multilaterais tradicionais e ganhar protagonismo na coordenação de instrumentos próprios de financiamento climático, com foco em projetos de transição energética e adaptação climática.

Além da criação do fundo, o documento oficial da cúpula formaliza a Leaders’ Framework Declaration on Climate Finance, uma proposta política de alto nível que busca consolidar uma posição conjunta do BRICS nas discussões globais sobre financiamento climático — especialmente nos preparativos para a COP30, que será realizada em novembro, em Belém do Pará.

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Reforma do sistema financeiro internacional

A declaração reforça a necessidade de reformar a governança do sistema financeiro global. Nesse sentido, o BRICS defende mais espaço para políticas industriais verdes, criação de instrumentos financeiros adaptados aos países em desenvolvimento e uma distribuição mais justa de riscos. O texto também propõe uma revisão das cotas e do poder de voto no Fundo Monetário Internacional (FMI), reafirmando a busca por maior representatividade dos países do Sul Global.

Ainda que o documento evite estabelecer prazos ou metas quantitativas, ele sinaliza a aposta do BRICS em instrumentos próprios e sustentáveis, como laboratórios de comércio e clima, parcerias para mercados de carbono e o fundo de garantias, como caminhos para uma transição energética financeiramente viável e autônoma.

Impasses geopolíticos e críticas às barreiras ambientais

A cúpula ocorreu sob um clima de tensão, marcado pelos conflitos recentes no Oriente Médio — com destaque para os ataques de Israel e dos Estados Unidos ao Irã, novo integrante do bloco. Esse cenário contribuiu para o esvaziamento político do encontro, com ausência de lideranças-chave e impasses nas negociações sobre o posicionamento do bloco frente aos conflitos globais.

Ainda assim, a presidência brasileira conseguiu articular avanços relevantes. O texto final reitera a oposição do BRICS a medidas comerciais unilaterais justificadas por razões ambientais, como o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM), adotado pela União Europeia e Reino Unido. A declaração expressa o entendimento de que tais medidas representam barreiras ao comércio e aprofundam as desigualdades entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.

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Essa posição está alinhada com as manifestações feitas por países do Sul Global durante a pré-COP de Bonn, realizada em junho, e reforça a construção de um discurso coletivo de resistência às abordagens excludentes nas negociações internacionais sobre clima e comércio.

Brasil ganha destaque como potência energética verde

A presidência brasileira também foi marcada pelo lançamento de três estudos que reforçam o papel estratégico dos países do BRICS — e especialmente do Brasil — na transição energética global. Um boletim da Zero Carbon Analytics aponta que o bloco já responde por mais da metade dos investimentos globais em energia limpa, com destaque para as fontes solar e eólica.

O relatório da Plataforma CIPÓ defende uma cooperação mais estratégica entre os países do BRICS para fomentar cadeias de valor em tecnologias verdes, enquanto o estudo do Net Zero Industrial Policy Lab (NZIPL) da Universidade Johns Hopkins analisa como políticas industriais coordenadas podem acelerar a transição com inovação e desenvolvimento sustentável.

Em uma das falas mais impactantes do evento, Tim Sahay, codiretor do NZIPL, ressaltou a mudança no paradigma da produção global. “Durante boa parte dos últimos 30 anos, a principal pergunta era onde fabricar com qualidade e baixo custo — e, para a maioria das empresas, a resposta era a China. No entanto, com a nova prioridade sendo produzir com qualidade, baixo custo e baixas emissões de carbono, o Brasil passa a se destacar. Isso se deve à sua matriz elétrica 90% limpa e ao imenso potencial de liderar uma industrialização verde dentro da nova ordem energética mundial”, afirmou.

Sahay acrescentou ainda que o país tem despertado crescente interesse no cenário internacional. “Investidores nacionais e estrangeiros estão apostando no potencial do Brasil para liderar o movimento de powershoring”, concluiu.

Próxima presidência e perspectiva para a COP30

Em 2026, a presidência do BRICS será assumida pela Índia, que pretende dar continuidade às discussões sobre reformas financeiras voltadas ao clima, além de ampliar o foco sobre temas como Inteligência Artificial e tecnologias de transição.

Com os avanços registrados na cúpula do Rio de Janeiro, o Brasil encerra seu mandato à frente do BRICS deixando uma agenda concreta para ser aprofundada na COP30. O bloco caminha para se consolidar como força geopolítica relevante na construção de um novo pacto climático e financeiro global.

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