Seminário marca início da parceria com o MIT Technology Review e debate caminhos para uma matriz energética limpa, acessível, segura e multipotencial, com foco em inovação, gás natural, data centers e biocombustíveis
O Grupo Energisa celebrou, nesta terça-feira (25), seus 120 anos de atuação no setor elétrico brasileiro com o seminário Energia Multipotencial para a Transição Energética, realizado no Rio de Janeiro, como parte do Energy Summit, na Cidade das Artes. O evento reuniu especialistas, investidores, representantes da academia e autoridades do setor para discutir estratégias sustentáveis e inovadoras para o futuro energético do Brasil. A iniciativa também marcou o início da parceria com o MIT Technology Review, reforçando a vocação da Energisa como uma energy tech comprometida com a inovação e com o papel do país na agenda climática global.
Durante sua fala de abertura, o CEO da Energisa, Ricardo Botelho, destacou que a transição energética precisa ser pensada de forma inclusiva, realista e adaptada às desigualdades regionais. Segundo ele, é necessário construir um modelo que vá além da substituição imediata de fontes fósseis por renováveis, considerando a complexidade da matriz energética e as diferentes velocidades da transição nos países.
“Estamos diante de um momento que exige responsabilidade e visão de futuro. O caminho que vamos percorrer passa por uma energia multipotencial — uma nova forma de pensar a transição energética, que reconhece a convivência entre diferentes fontes e realidades”, afirmou Botelho.
Ele defendeu a ideia de adição energética, onde fontes como gás natural, petróleo e biocombustíveis ainda desempenham papel relevante, ao lado do avanço das renováveis. Para o executivo, o Brasil não precisa copiar modelos de fora, mas sim construir sua própria estratégia, respeitando suas especificidades e potencialidades.
“É um convite para que nós, mercado de energia, consumidores e academia, possamos refletir juntos e fazer boas trocas para tomadas de decisão que viabilizem na prática um futuro energético mais viável”, complementou.
Inovação como motor da transição
A participação de Georgina Campbell Flatter, professora do MIT e CEO do Greentown Labs, uma das maiores incubadoras de startups climáticas do mundo, trouxe ao seminário uma perspectiva global sobre o papel da inovação tecnológica na aceleração da descarbonização. Segundo ela, o momento é de urgência, mas também de grandes oportunidades.
“Estamos diante de um momento de urgência, mas também de grandes oportunidades. A inovação acontece quando unimos talentos, redes e propósito em torno de um desafio comum: garantir energia limpa, confiável e acessível para todos”, afirmou Georgina.
As 600 startups apoiadas pelo Greentown Labs já geraram 14 mil empregos, segundo a CEO, impulsionando soluções em mobilidade elétrica, armazenamento de energia, eficiência energética e hidrogênio verde.
Gás natural e regionalização da energia
O seminário também foi palco de um importante debate entre o CEO da Energisa, Ricardo Botelho; Joaquim Levy, diretor de Estratégia do Banco Safra e ex-ministro da Fazenda; e Vittorio Perona, sócio do BTG Pactual. O grupo discutiu o papel do gás natural como vetor de desenvolvimento econômico e energético, especialmente no Nordeste, região apontada como estratégica para o crescimento sustentável do país.
“O consumo de gás natural é muito baixo no Brasil comparado aos patamares regionais e mundiais”, explicou Perona. “Há processos industriais no Brasil que não são feitos a gás porque não há suprimento de gás nesses locais. Há regiões enormes que não são conectadas à malha de distribuição.”
Levy destacou que o gás natural, por estar mais próximo à costa no Nordeste, poderia atender rapidamente às necessidades da região, caso haja uma política pública eficiente. Para ele, a distribuição do gás pode se tornar uma poderosa ferramenta de desenvolvimento regional.
Botelho, por sua vez, ressaltou que o Nordeste já é um case de sucesso ao desconcentrar o suprimento de gás, o que levou a tarifas mais baixas. Ele revelou que, no Ceará, 15% do fornecimento já é feito por biometano, reforçando a vocação da região para soluções inovadoras e sustentáveis.
Oportunidade: Brasil como destino global de data centers
Outro ponto de destaque do evento foi o debate sobre o potencial brasileiro para atrair data centers de grande porte, estruturas essenciais para o funcionamento da inteligência artificial e da computação em nuvem. Com sua matriz energética majoritariamente renovável, vastos territórios e conexões submarinas com os Estados Unidos, o Brasil se posiciona como forte candidato a se tornar um hub digital global.
“O Brasil pode virar um dos principais destinos do mundo para data centers. Temos energia limpa, geografia favorável e o timing certo”, destacou Perona.
Ele lembrou que os EUA terão uma demanda adicional de 50 GW para data centers até 2029 — o equivalente a 25% da capacidade instalada total do Brasil — e não conseguirão atender sozinhos a essa demanda. O Brasil surge, assim, como alternativa estratégica para as big techs.
Biocombustíveis e criação de mercado
Encerrando as discussões, Levy trouxe à tona o papel dos biocombustíveis, como o etanol e o biodiesel, na descarbonização da mobilidade urbana. Para ele, o Brasil tem a tecnologia, mas ainda precisa estruturar mercados eficientes para expandir o uso desses combustíveis limpos.
“A gente é muito bom em aprender com o mercado, mas precisa aprender a criar o mercado. A gente tem a tecnologia. O dia em que a Índia entendeu o que fazer com o etanol, a vida mudou lá”, afirmou.



