Holtec prepara o maior IPO da energia nuclear em anos e mira construção de até 20 pequenos reatores modulares

Com faturamento anual superior a US$ 500 milhões e projeto inédito de reativação de usina, empresa dos EUA promete atrair investidores em meio à retomada do interesse global por energia nuclear

A Holtec International, uma das empresas mais consolidadas do setor nuclear dos Estados Unidos, está se preparando para realizar o maior IPO (Oferta Pública Inicial) da indústria de energia nuclear em anos. A expectativa é que a empresa abra o capital no início de 2025, podendo atingir um valor de mercado superior a US$ 10 bilhões, conforme revelou o CEO Krishna Singh em entrevista à Barron’s.

Mais do que uma abertura de capital, a operação da Holtec marca um novo capítulo no setor nuclear global. A empresa — que já possui receitas anuais superiores a US$ 500 milhões — se diferencia de outras desenvolvedoras por sua atuação consolidada em descomissionamento de usinas nucleares e no manuseio de resíduos radioativos, além da fabricação de equipamentos para o armazenamento de combustível irradiado.

Singh, que fundou a Holtec em 1986, destacou que a companhia pretende vender cerca de 20% de seu capital para investidores. “Provavelmente será em janeiro, embora meus consultores tenham dito que será em abril”, afirmou. “Eles são conservadores.”

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Segundo ele, o principal objetivo da capitalização é impulsionar a construção de pequenos reatores modulares (SMRs) — tecnologia que a Holtec pretende liderar nos Estados Unidos. “O verdadeiro impulsionador para nós é que estamos em nosso próprio calendário. Acreditamos que construiremos de 10 a 20 pequenos reatores modulares simultaneamente na próxima década”, afirmou Singh. Cada reator poderá custar cerca de US$ 3 bilhões, e o investimento será direcionado à produção em escala desses sistemas.

Projeto pioneiro: reativação de Palisades

Um dos movimentos mais audaciosos da Holtec é a tentativa de reabrir a usina de Palisades, em Michigan, desativada em 2022 por razões financeiras. Se bem-sucedido, será o primeiro caso na história dos Estados Unidos de reativação de uma usina nuclear. O projeto conta com centenas de milhões de dólares em apoio financeiro do Departamento de Energia dos EUA e do governo de Michigan.

Além disso, a Holtec planeja instalar dois SMRs no mesmo local, embora ainda não tenha recebido aprovação federal ou estadual para tal. Mesmo sem as licenças, a empresa já iniciou a produção dos equipamentos em parceria com a Hyundai Engineering & Construction.

A restauração de Palisades poderá ser concluída no quarto trimestre de 2025. A previsão inicial era outubro, mas Singh confirmou que a entrada em operação ocorrerá algumas semanas depois. “O adiamento se deve ao fato de a empresa ter optado por realizar trabalhos adicionais no projeto”, afirmou um porta-voz da Holtec.

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Um diferencial entre os players do setor

Ao contrário de outras empresas emergentes no setor nuclear — como Oklo, Nano Nuclear e Nuscale — que ainda operam com receitas mínimas ou se concentram em etapas iniciais de licenciamento, a Holtec já atua com produtos e serviços consolidados. Isso inclui não apenas a expertise em descomissionamento, mas também a comercialização de sistemas de contenção para combustível irradiado em diversos países.

“Em um mercado justo, acho que valeríamos muito mais. Nós realmente fabricamos coisas”, afirmou Singh, em uma crítica velada a empresas que ainda operam apenas em nível conceitual.

A comparação com outras desenvolvedoras reforça o otimismo dos analistas. A Nuscale, única com licença da Comissão Reguladora Nuclear dos EUA, vale pouco mais de US$ 10 bilhões. Já a Oklo, que despertou interesse da Alphabet e da Amazon para fornecimento de energia nuclear a data centers de IA, está avaliada em cerca de US$ 8 bilhões.

Seth Grae, CEO da Lightbridge, também do setor nuclear, disse que “a Holtec provavelmente valerá mais de US$ 10 bilhões e deve ver um apetite considerável por parte dos investidores”. Segundo ele, “eles estão fazendo isso exatamente no momento certo. Há muito interesse dos investidores na energia nuclear.”

Energia nuclear e data centers: sinergia em construção

Em paralelo à expansão dos SMRs, Singh confirmou que a Holtec está em diálogo com operadores de data centers para o fornecimento de energia. A tendência acompanha movimentos recentes de grandes empresas de tecnologia que buscam fontes limpas e estáveis para alimentar seus centros de processamento de dados — uma demanda que tende a crescer com o avanço da inteligência artificial.

A Holtec ainda não obteve licenciamento completo para seus projetos de SMR, mas aposta que sua maturidade operacional, aliada ao crescente apoio regulatório e à urgência climática, criará um terreno favorável à escalada do nuclear como energia de base limpa.

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