Com metade do potencial de investimento global em energia limpa, países emergentes assumem protagonismo na transição industrial e desafiam hegemonia de China, EUA e União Europeia
Uma profunda reconfiguração da indústria global está em curso, e os países emergentes estão na vanguarda desse movimento. O novo relatório “Indústria Limpa: Tendências de Transformação”, publicado pela Mission Possible Partnership (MPP) nesta quarta-feira (19/06), aponta para o surgimento de um “novo cinturão industrial solar”, liderado por economias em desenvolvimento como Brasil, Índia, Egito, Indonésia e Marrocos. Estes países, juntos, representam 59% de um pipeline global de US$ 1,6 trilhão em projetos industriais limpos — superando as projeções combinadas de China, EUA e União Europeia.
A análise é baseada em dados do Global Project Tracker, ferramenta da MPP que mapeia 823 plantas industriais limpas em escala comercial, incluindo setores de alta intensidade energética como alumínio, produtos químicos, cimento, aço e combustíveis sustentáveis para aviação.
De acordo com o estudo, US$ 250 bilhões já foram comprometidos em financiamento, com a China liderando os aportes (25%), seguida pelos EUA (20%) e União Europeia (15%). Contudo, a maior parte da oportunidade futura de investimento está nos países do Sul Global: quase US$ 950 bilhões aguardam destravamento em projetos já anunciados, mas ainda não financiados.
O papel do Brasil e a força do cinturão solar
O Brasil desponta como um dos principais expoentes do cinturão industrial solar — um agrupamento geográfico de países da África, Ásia e América Latina que reúne três vantagens decisivas: abundância de energia solar, ambiente político favorável e custos operacionais competitivos. Essa combinação cria as condições ideais para o surgimento de polos industriais focados na produção de materiais, combustíveis e produtos químicos de baixo carbono.
Além de sua matriz elétrica majoritariamente renovável, o Brasil atrai atenção global por sua capacidade de produzir amônia verde — insumo estratégico para fertilizantes, mas também utilizado em explosivos e, futuramente, como combustível marítimo limpo. O país integra o seleto grupo de economias com potencial para fabricar esse composto a custos inferiores ao da amônia tradicional, baseada em combustíveis fósseis.
Segundo o relatório, o Brasil, ao lado de Índia, Egito, Omã, Mauritânia e Chile, abriga mais de 75% das instalações de produção de amônia verde planejadas globalmente. Com a contínua redução no custo da energia solar e de eletrolisadores nesses países, estima-se que a amônia verde produzida no cinturão solar poderá custar até metade do preço da produzida nos EUA e Europa Ocidental até 2035.
Reconfiguração da cadeia industrial global
O avanço dos países emergentes no setor de indústria limpa representa mais do que uma transição energética — é uma transformação estrutural da geopolítica industrial. A CEO da MPP e diretora executiva do Industrial Transition Accelerator (ITA), Faustine Delasalle, explica que a lógica da localização industrial está mudando. “Assim como as indústrias do passado se estabeleciam próximas às minas de carvão, as novas plantas irão se instalar onde houver eletricidade limpa, confiável e barata”, afirma.
A crescente participação de economias de baixa e média renda pode permitir a esses países pular a fase intensiva em carbono do desenvolvimento industrial, acessar novos mercados de exportação e obter vantagem competitiva na atração de cadeias de valor.
“O Rastreador Global de Projetos mostra que uma nova revolução industrial já está em andamento, silenciosamente. E ela tem endereço: o cinturão industrial solar”, complementa Delasalle.
Amônia verde e combustíveis de aviação: os setores de maior crescimento
Entre os setores com maior crescimento em número de projetos estão:
- Amônia verde: 344 plantas anunciadas, 28 com decisão final de investimento (FID);
- Combustíveis sustentáveis para aviação (SAF): 144 plantas anunciadas, 7 em FID e 22 já operacionais.
A amônia limpa possui demanda consolidada na agricultura e é considerada uma solução imediata para fertilizantes mais sustentáveis. Já os combustíveis sustentáveis para aviação se beneficiam de pressões regulatórias e da recuperação global das viagens aéreas.
Para Dan Ioschpe, empresário brasileiro e Campeão de Alto Nível da COP30, as empresas estão prontas para liderar esse novo ciclo. “O que vemos no Tracker é que as ambições corporativas já superaram as ambições governamentais. Agora precisamos criar as condições adequadas para transformar esses anúncios em investimentos concretos”, afirma.
Desafios para a conversão de projetos
Apesar do otimismo, o relatório destaca um gargalo persistente: dos 823 projetos mapeados, apenas 134 estão financiados ou operacionais. A taxa de conversão é lenta: ao ritmo atual, levaria 40 anos para que todos os projetos anunciados se tornassem realidade. Para reverter essa tendência, seria necessário multiplicar por cinco o investimento atual.
Governos nacionais têm papel crucial nessa equação. Medidas como precificação de carbono, padrões obrigatórios de conteúdo renovável, leilões públicos e fundos de financiamento direcionados são citadas como mecanismos eficazes para acelerar a decisão final de investimento dos projetos industriais limpos.
O ITA, por exemplo, disponibiliza ferramentas como o Green Demand Policy Playbook e o Green Purchase Toolkit, que orientam políticas públicas e estratégias empresariais para estimular a indústria limpa.
Uma nova geopolítica da indústria
O relatório da MPP sugere que estamos diante de um realinhamento global, com implicações profundas para a economia do século XXI. A descarbonização da indústria pesada e do transporte não será liderada apenas pelas economias avançadas. Ao contrário, são os países do cinturão industrial solar que oferecem as condições materiais, ambientais e econômicas para sustentar uma nova base industrial global.
Como resume Nick Studer, CEO da consultoria Oliver Wyman: “Essa mudança destaca não apenas a resiliência dos mercados emergentes, mas também as oportunidades econômicas extraordinárias que estão por vir. As nações que souberem aproveitar esse momento irão definir o futuro da competitividade industrial global”.



