Minerais críticos entram no centro da geopolítica energética e podem travar expansão tecnológica global

Demanda impulsionada por veículos elétricos, renováveis e inteligência artificial avança mais rápido que a oferta, acendendo alerta para gargalos estruturais

A transição energética e a digitalização da economia global estão redesenhando o mapa estratégico de recursos naturais. No centro desse movimento, minerais críticos como neodímio, disprósio e praseodímio emergem como insumos indispensáveis, e potencialmente escassos, para sustentar a expansão de tecnologias-chave, como veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas de automação industrial.

O desafio, no entanto, é estrutural: a demanda por esses materiais cresce em ritmo acelerado, enquanto a capacidade de produção global permanece concentrada e limitada, levantando preocupações sobre possíveis gargalos nas próximas décadas.

Demanda por minerais críticos pode quadruplicar até 2040

Projeções da Agência Internacional de Energia (IEA) indicam que a demanda global por minerais críticos associados à transição energética pode crescer até quatro vezes até 2040. No caso específico das terras raras utilizadas em ímãs permanentes de alta performance, o avanço tende a ser ainda mais intenso.

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Esses materiais são fundamentais para motores elétricos de veículos híbridos e elétricos, geradores de turbinas eólicas, equipamentos médicos, robótica e uma ampla gama de aplicações industriais e digitais.

De acordo com a consultoria Adamas Intelligence, mais de 40% do consumo global de terras raras está concentrado na produção desses ímãs, consolidando o segmento como um dos principais vetores de crescimento da demanda.

Ímãs permanentes tornam-se insumo estratégico da eletrificação

O neodímio, em particular, ganhou protagonismo por sua capacidade de produzir ímãs permanentes de alta potência e eficiência. Esses componentes são essenciais para a miniaturização e o desempenho de equipamentos que sustentam a eletrificação da economia.

A dependência crescente desses materiais coloca pressão sobre cadeias produtivas que ainda não acompanharam a velocidade da transformação tecnológica. Especialista em cadeias internacionais de fornecimento e diretor da Fácil Negócio Importação, Rodolfo Midea chama atenção para um ponto crítico frequentemente negligenciado no debate energético:

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“Quando se fala em transição energética ou digitalização da indústria, a atenção costuma estar nas tecnologias finais. Pouca gente olha para os materiais que tornam essas tecnologias possíveis”, afirma.

Produção concentrada amplia riscos geopolíticos

Apesar da expansão da demanda, a oferta global de terras raras permanece altamente concentrada. Dados do U.S. Geological Survey apontam que a China responde por cerca de 60% da mineração mundial desses minerais e mais de 85% do processamento e fabricação de ímãs de alta performance.

Essa concentração acende alertas em governos e empresas, especialmente após os gargalos logísticos observados durante a pandemia e em momentos de tensão geopolítica.

A dependência de poucos players para etapas críticas da cadeia, como refino e transformação industrial, eleva o risco de disrupções no fornecimento, com impactos diretos sobre setores estratégicos da economia global.

Cadeia produtiva complexa limita expansão da oferta

A ampliação da oferta de minerais críticos enfrenta barreiras que vão além da mineração. O processo produtivo envolve etapas sofisticadas de separação química, refino e industrialização, que exigem alto investimento, tecnologia e know-how especializado.

Além disso, projetos de mineração de terras raras podem levar entre 10 e 15 anos para entrar em operação, considerando licenciamento ambiental, viabilidade econômica e desenvolvimento de infraestrutura.

“O mundo está acelerando a eletrificação, a digitalização e a automação ao mesmo tempo. Todas essas transformações dependem de minerais críticos. A questão é que abrir novas minas e construir capacidade industrial leva tempo”, explica Midea.

Brasil tem potencial, mas enfrenta desafio industrial

No Brasil, o tema ganha relevância diante da existência de reservas significativas de minerais estratégicos. No entanto, o país ainda possui participação limitada nas etapas de maior valor agregado da cadeia, como refino e fabricação de componentes.

O desafio, segundo especialistas, não está apenas na exploração mineral, mas na construção de uma base industrial capaz de transformar recursos naturais em produtos de alto valor tecnológico. Essa agenda envolve políticas industriais, investimentos em inovação e integração com cadeias globais, em um momento em que países buscam reduzir dependências externas e fortalecer sua segurança energética.

Disputa por minerais redefine a transição energética

A soberania sobre os insumos da transição energética exige uma visão que supere a simples extração mineral. Ao projetar a disputa global por esses recursos, Rodolfo Midea ressalta que o debate deve transcender a mineração para abranger indústria, tecnologia e estratégia econômica.

Para o especialista, o controle dessas cadeias produtivas será o principal diferencial competitivo das nações na economia das próximas décadas.

Entre abundância geológica e escassez industrial

O avanço da transição energética e da digitalização coloca o mundo diante de um paradoxo: embora existam reservas relevantes de minerais críticos, a capacidade de transformá-los em produtos finais permanece restrita a poucos países.

Esse descompasso entre oferta e demanda tende a ser um dos principais desafios estruturais da economia global nas próximas décadas, com implicações diretas para o setor elétrico, a mobilidade, a indústria e a segurança energética.

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