Iniciativa do Instituto Clima e Sociedade mira pesquisas aplicadas em finanças públicas, macroeconomia e infraestrutura, com foco em impacto prático para governos, empresas e investidores
A integração entre mudanças climáticas e decisões econômicas ganha novo impulso no Brasil com o lançamento do edital “Clima na Economia: integrando a questão climática à agenda econômica”. A iniciativa é liderada pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), por meio do HUB de Economia e Clima, e destinará até R$ 2,5 milhões a projetos de pesquisa aplicada com foco em aplicação prática em políticas públicas, finanças e desenvolvimento.
O objetivo é fomentar estudos capazes de gerar evidências, diagnósticos, ferramentas e recomendações diretamente utilizáveis por formuladores de políticas públicas, gestores e investidores. Em um cenário de transição energética, pressão por sustentabilidade fiscal e aumento de eventos climáticos extremos, o edital se posiciona como instrumento estratégico para conectar economia e clima de forma estruturada.
Cada projeto poderá receber até R$ 500 mil. As propostas deverão ser submetidas exclusivamente por pessoas jurídicas, via plataforma do iCS.
Pesquisa aplicada para decisões econômicas e climáticas
O edital busca preencher uma lacuna recorrente no debate brasileiro: a distância entre produção acadêmica e aplicação prática nas decisões econômicas. A proposta é estimular pesquisas que dialoguem diretamente com o desenho de políticas públicas, com o planejamento orçamentário e com a gestão de riscos climáticos no setor privado.
“A agenda climática já impacta decisões econômicas diariamente, mas ainda precisamos fortalecer a produção de evidências aplicadas que dialoguem diretamente com formuladores de políticas públicas, gestores e investidores. Este edital nasce para aproximar a pesquisa econômica da prática e oferecer subsídios qualificados para decisões que influenciam o desenvolvimento do Brasil no longo prazo”, destaca Sarah Irffi, coordenadora técnica do HUB de Economia e Clima do iCS.
A fala evidencia a preocupação em alinhar sustentabilidade ambiental e desenvolvimento econômico, especialmente diante de desafios fiscais e da necessidade de investimentos em infraestrutura resiliente.
Quatro eixos estratégicos: da adaptação à política fiscal verde
O edital está estruturado em quatro linhas temáticas que dialogam diretamente com a agenda do setor elétrico, da infraestrutura e das finanças públicas.
- Adaptação às mudanças climáticas
O primeiro eixo contempla temas como gestão hídrica, impactos na saúde pública, efeitos fiscais decorrentes da redução de receitas e aumento de despesas emergenciais, além da priorização de investimentos em infraestrutura resiliente.
No setor elétrico, ganham relevância estudos sobre avaliação econômica de riscos e instrumentos de adaptação aplicados à geração, transmissão e distribuição de eletricidade, áreas cada vez mais expostas a eventos extremos. - Macroeconomia e mudanças climáticas
A segunda linha propõe aprofundar a compreensão sobre como choques climáticos afetam produtividade, inflação, custos de produção e atividade econômica. O foco inclui riscos climáticos e estabilidade financeira, rastreamento de subsídios no orçamento público e modelagem macroeconômica.
A expectativa é que os projetos contribuam para aprimorar modelos de previsão, desenvolver instrumentos de política fiscal verde e fortalecer a gestão de riscos no sistema financeiro. - Microeconomia e clima
O eixo microeconômico examina como decisões empresariais e produtivas influenciam emissões, adaptação, inovação e eficiência. Setores expostos a riscos físicos e de transição, como energia, agropecuária e indústria, estão no centro da discussão.
As pesquisas deverão gerar evidências aplicadas que orientem políticas públicas e estratégias corporativas, acelerando a transição para uma economia de baixo carbono. - Finanças públicas e instrumentos fiscais
O quarto eixo aborda o papel de instrumentos fiscais, tributários e orçamentários na ação climática. O edital destaca temas como financiamento climático subnacional, revisão de subsídios, tributação verde e incorporação de riscos climáticos ao ciclo orçamentário.
O objetivo é produzir ferramentas práticas que auxiliem gestores públicos a alinhar sustentabilidade fiscal e transição energética, fortalecendo o planejamento de longo prazo.
Cronograma e elegibilidade
O lançamento oficial ocorrerá em 9 de março de 2026. A primeira etapa de inscrições será realizada entre 9 de março e 8 de abril de 2026, até as 16h (horário de Brasília). As propostas pré-selecionadas avançarão para a segunda fase a partir de 29 de maio, quando será exigida documentação complementar e detalhamento técnico.
Podem submeter propostas instituições brasileiras de pesquisa, universidades públicas, universidades privadas sem fins lucrativos com missão voltada à pesquisa científica ou tecnológica e organizações da sociedade civil com comprovada experiência em pesquisa aplicada.
Clima e economia no centro da agenda estratégica
A iniciativa surge em um momento em que decisões econômicas, de política fiscal a investimentos em infraestrutura, estão cada vez mais condicionadas por riscos climáticos e compromissos de descarbonização.
Para o setor elétrico, a conexão entre clima e economia é particularmente sensível: eventos extremos afetam geração e transmissão; subsídios e incentivos moldam a expansão de renováveis; e a estabilidade macroeconômica influencia o custo de capital de projetos de energia.
Ao estimular pesquisas com aplicação prática, o edital do iCS reforça a tendência de internalização dos riscos climáticos na agenda econômica brasileira, contribuindo para decisões mais informadas e alinhadas à transição para uma economia resiliente e de baixo carbono.



