IRENA e OACI lançam plataforma para atrair US$ 4,15 bilhões em projetos de SAF

Iniciativa da Agência Internacional de Energia Renovável em parceria com a Organização da Aviação Civil Internacional mira viabilidade financeira e redução de riscos para ampliar a produção de Combustível de Aviação Sustentável

A descarbonização da aviação global entrou em uma nova fase estratégica com o lançamento do Finvest@ETAF, iniciativa voltada à facilitação de projetos de Combustível de Aviação Sustentável (SAF). Desenvolvido pela Agência Internacional de Energia Renovável em cooperação com a Organização da Aviação Civil Internacional, o mecanismo busca enfrentar o principal gargalo da cadeia de SAF: o financiamento.

Responsável por cerca de 2% a 3% das emissões globais de dióxido de carbono, conforme panorama da OACI sobre aviação e mudanças climáticas, o setor aéreo permanece entre os mais desafiadores para a transição energética. O crescimento projetado do tráfego aéreo tende a pressionar ainda mais as emissões, tornando o SAF peça central nas estratégias climáticas globais.

Produzido a partir de fontes renováveis ou matérias-primas derivadas de resíduos, o Combustível de Aviação Sustentável pode ser utilizado nas aeronaves e infraestruturas existentes. Estudos indicam que o SAF pode reduzir as emissões de gases de efeito estufa em até 80% ao longo do ciclo de vida quando comparado ao querosene convencional de aviação.

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O desafio estrutural do financiamento de SAF

Apesar do reconhecimento técnico e regulatório, a implantação do SAF ainda é limitada. Os elevados custos de capital (CAPEX), as incertezas de demanda de longo prazo, exigências de certificação e riscos tecnológicos inéditos criam barreiras adicionais quando comparados a projetos tradicionais de energia renovável, como solar e eólica.

Projetos de SAF enfrentam desafios específicos: necessidade de contratos de fornecimento de matéria-prima, garantia de offtake com companhias aéreas, conformidade com padrões internacionais e adequação a mecanismos de precificação de carbono. Essa combinação eleva o risco percebido por financiadores e restringe o acesso a crédito competitivo.

É nesse contexto que surge o Finvest@ETAF, estruturado como um braço dedicado ao SAF dentro da plataforma Energy Transition Accelerator Financing (ETAF), da IRENA.

Finvest@ETAF: ponte entre projetos e capital

O Finvest@ETAF aplica a metodologia de facilitação de projetos da ETAF para transformar ambições políticas em projetos bancáveis. A ETAF já reúne 14 parceiros e mais de US$ 4,15 bilhões em capital comprometido para apoiar projetos de energia limpa.

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A iniciativa oferece um ponto de entrada estruturado para desenvolvedores de SAF, conectando-os a financiamento, assistência técnica e instrumentos de mitigação de risco. O objetivo é criar um fluxo contínuo de projetos financiáveis, reduzindo a distância entre concepção técnica e fechamento financeiro.

A atuação ocorre por meio de um portal dedicado dentro da plataforma ETAF, concebido especificamente para as características técnicas, regulatórias e mercadológicas do setor de aviação.

Integração institucional e base regulatória

A complementaridade entre IRENA e OACI é elemento-chave da estratégia. Enquanto a IRENA concentra-se na avaliação da viabilidade financeira, estruturação de projetos e engajamento com parceiros de financiamento, a OACI aporta expertise em certificação, sustentabilidade e instrumentos de política global.

Entre esses instrumentos está o CORSIA, Esquema de Compensação e Redução de Carbono para a Aviação Internacional, que estabelece parâmetros para mitigação de emissões no transporte aéreo internacional.

A iniciativa também se apoia em anos de produção analítica da IRENA sobre bioenergia, setores de difícil descarbonização e cadeias de SAF, oferecendo base científica e econômica para a expansão da indústria.

Quatro pilares para redução de riscos

O modelo de facilitação do Finvest@ETAF estrutura-se em quatro instrumentos centrais de mitigação de riscos:

  • O financiamento misto combina recursos públicos e privados para reduzir custos e melhorar a atratividade econômica dos projetos.
  • Os investimentos em ações fornecem capital inicial para cobrir os elevados custos de implantação das plantas de SAF, diminuindo a dependência de endividamento.
  • Garantias e seguros atuam na proteção contra riscos de receita, desempenho tecnológico, fornecimento de matéria-prima, riscos políticos, de crédito e de contratos EPC.
  • Os serviços de consultoria técnica apoiam o aprimoramento da modelagem financeira, governança e estrutura comercial dos empreendimentos.

Em conjunto, esses mecanismos buscam elevar o grau de maturidade dos projetos e torná-los aptos a captar recursos em escala.

Impulso regulatório e janela de oportunidade

O avanço do SAF ocorre em paralelo ao fortalecimento de marcos regulatórios internacionais, como o ReFuelEU Aviation na União Europeia e o SAF Grand Challenge nos Estados Unidos, que estabelecem metas progressivas de incorporação do combustível sustentável.

A conversão desse impulso regulatório em capacidade instalada dependerá da coordenação entre governos, indústria e instituições financeiras. Durante a 16ª Assembleia da IRENA, realizada em janeiro, um painel de alto nível discutiu caminhos para ampliar a cooperação e acelerar investimentos.

Nesse cenário, o Finvest@ETAF surge como ferramenta estratégica para transformar sinalizações políticas em projetos estruturados e financiáveis.

SAF como vetor estratégico da transição energética

A consolidação do mercado de Combustível de Aviação Sustentável será determinante para que o setor aéreo contribua de forma consistente para metas globais de descarbonização.

Ao atacar o gargalo do financiamento e oferecer instrumentos concretos de redução de riscos, o Finvest@ETAF busca criar as condições para escala industrial do SAF. Em um ambiente de crescente pressão por redução de emissões e segurança energética, a viabilidade financeira dos projetos será o fator decisivo entre ambição climática e implementação efetiva.

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