Nível do subsistema SE/CO caiu 16 pontos percentuais em 12 meses; Climatempo aponta que irregularidade climática e solo seco impedem conversão de vazões para os reservatórios.
O setor elétrico brasileiro inicia 2026 sob monitoramento rigoroso e com um sinal de alerta ligado para o principal subsistema do país. Apesar das precipitações registradas em janeiro, a recuperação dos reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste (SE/CO) segue em ritmo lento, frustrando as expectativas de recomposição dos mananciais antes da chegada do período seco.
De acordo com análises da Climatempo, a ocorrência de dois episódios de Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) não foi suficiente para alterar a trajetória de queda dos níveis de armazenamento. O fenômeno é explicado pela baixa eficiência hidrológica: a chuva caiu, mas não se traduziu em vazão incremental para as barragens na proporção necessária.
O desafio da conversão de vazão no SIN
A deterioração do cenário hidrológico é visível no comparativo anual. No subsistema Sudeste/Centro-Oeste, que funciona como a “caixa d’água” do Sistema Interligado Nacional (SIN), o nível de armazenamento despencou de 62,02% para 46,1% em apenas um ano. A consultora da Climatempo para o setor elétrico, Marcely Sondermann, traça um paralelo com os dados do Operador Nacional do Sistema (ONS) para evidenciar a gravidade do momento.
“A chuva em janeiro teve baixa eficiência hidrológica, com pouco impacto na recuperação dos reservatórios, especialmente nas bacias do Sudeste e do Centro-Oeste, conforme dados do Operador Nacional do Sistema, que mostram piora no armazenamento em quase todos os subsistemas em comparação a janeiro de 2025”, afirma a meteorologista.
Este quadro é agravado pelos efeitos residuais do La Niña. Mesmo com fraca intensidade, o fenômeno provocou um atraso no início do período úmido, deixando o solo mais seco e exigindo um volume muito maior de água apenas para saturar a terra antes que o escoamento para os rios comece a ocorrer de fato.
Comparativo entre subsistemas: a exceção do Sul
Enquanto o Norte e o Nordeste acompanham a tendência de queda do Sudeste, registrando 58,05% e 52% de capacidade, respectivamente, o subsistema Sul aparece como a única exceção positiva. A região apresentou uma leve recuperação, subindo de 51,24% para 62,05% em 12 meses.
Entretanto, o alívio regional é insuficiente para reequilibrar o balanço energético nacional. Marcely Sondermann pontua que a menor representatividade do Sul no total de armazenamento hidrológico do país impede que essa melhora altere o cenário macro, que permanece fortemente dependente da saúde hídrica das bacias do Sudeste e Centro-Oeste.
Projeções para fevereiro: recuperação limitada e irregular
A expectativa para o restante do primeiro trimestre é de uma recuperação parcial, mas que deve ser interrompida prematuramente. Até o dia 28 de janeiro, o ganho acumulado no SE/CO foi de apenas 4%. A título de comparação, em anos hidrologicamente favoráveis, o incremento diário costuma ser superior a 1%, marca que não foi atingida neste ciclo.
Ao projetar o comportamento das bacias dos rios Paranaíba, Grande, Tietê e Alto São Francisco para fevereiro, a meteorologista da Climatempo reforça que a distribuição das chuvas será o maior obstáculo.
“A previsão climática para fevereiro indica precipitações mal distribuídas no tempo e no espaço. Isso reduz a eficiência hidrológica e limita ganhos mais expressivos no armazenamento. Apesar de algum ganho pontual no curto prazo, o cenário hidrológico segue desafiador”, avalia Sondermann.
Impactos no Mercado e Segurança Energética
Para os agentes do mercado livre e grandes consumidores, a lentidão na recomposição dos reservatórios acende o sinal amarelo para a formação de preços (PLD) e para a necessidade de maior despacho termelétrico ao longo do ano. Com a previsão de que as chuvas mais volumosas se desloquem para o norte de Minas Gerais e Bahia na segunda quinzena de fevereiro, as principais bacias do SE/CO podem não atingir o nível de segurança desejado antes do inverno.
O cenário exige monitoramento constante. Se a “recomposição consistente” mencionada pelos especialistas não se concretizar até março, o sistema chegará ao período seco de 2026 com uma margem de manobra reduzida, pressionando custos operacionais e encargos setoriais.



