Com energia eólica já representando 14,8% da matriz elétrica, setor aposta em repotencialização, lubrificação inteligente e gestão digital de ativos para reduzir custos e elevar a confiabilidade dos parques
A busca por maior eficiência operacional e redução do custo por MWh está redefinindo a estratégia de operação e manutenção dos parques eólicos no Brasil. Em um cenário de expansão acelerada da geração renovável, a indústria tem direcionado investimentos para manutenção preditiva, inteligência artificial e repotencialização de componentes críticos, com o objetivo de estender a vida útil das turbinas eólicas para até 30 anos.
Manter uma turbina operando continuamente por duas ou três décadas, enfrentando ventos intensos, variações térmicas, umidade elevada e maresia, especialmente em projetos offshore ou próximos ao litoral, exige muito mais do que engenharia robusta na fase de construção. O desafio está na gestão de ativos ao longo do ciclo de vida, com foco em confiabilidade, disponibilidade e redução de paradas não programadas.
No Brasil, a energia eólica já responde por cerca de 14,8% da matriz elétrica, consolidando-se como uma das principais fontes renováveis do país, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica. A concentração de mais de 90% da capacidade instalada na região Nordeste adiciona complexidade operacional, devido às características climáticas e à logística de manutenção em áreas remotas.
Manutenção preditiva como vetor de competitividade
A manutenção preditiva desponta como um dos principais vetores de competitividade no setor eólico. Diferentemente do modelo tradicional baseado em calendários fixos de inspeção, a abordagem preditiva utiliza sensores inteligentes, monitoramento contínuo e análise de dados para identificar falhas incipientes e programar intervenções no momento ideal.
A estratégia reduz o risco de falhas catastróficas e minimiza custos indiretos associados à paralisação de turbinas, como mobilização de guindastes de grande porte, perda de geração e impactos no fluxo de caixa dos empreendimentos.
“Quando uma turbina para pôr falha em um componente, os custos vão muito além da peça em si. Há perda de produção, mobilização de guindastes e até semanas de inatividade. Por isso, ampliar a vida útil dos ativos é estratégico para todo o setor”, explica Rodrigo Silva, Gerente de Serviços da SKF.
O executivo reforça que a digitalização dos ativos é parte central da evolução tecnológica no segmento. “O futuro da energia eólica não está apenas em turbinas maiores, mas em turbinas mais inteligentes, com tecnologia capaz de diagnosticar a saúde das máquinas e de operar de forma eficiente até o último dia de sua vida útil”, diz Silva.
Repotencialização e remanufatura ganham espaço
Além da digitalização e do monitoramento em tempo real, o setor tem avançado em repotencialização de rolamentos e remanufatura de componentes críticos, como gearboxes e eixo principal (main shaft). A repotencialização de rolamentos já representa cerca de 5% da demanda observada pela SKF, enquanto sistemas de lubrificação e fornecimento de lubrificantes concentram aproximadamente 14%.
O portfólio de serviços inclui ainda reparo do eixo principal, diagnóstico avançado, gestão de peças de reposição e soluções de lubrificação inteligente. Essas tecnologias contribuem para aumentar a confiabilidade das turbinas eólicas, reduzir o custo operacional por kWh e otimizar o ciclo de vida dos ativos.
A lógica é clara: em um ambiente de margens pressionadas e competição crescente nos leilões e no mercado livre de energia, cada ponto percentual de disponibilidade operacional impacta diretamente a rentabilidade dos projetos.
Gestão estratégica de peças e redução de CAPEX imobilizado
Outro ponto crítico para a eficiência dos parques eólicos é o equilíbrio na gestão de peças sobressalentes. A falta de componentes pode paralisar turbinas por longos períodos, enquanto estoques excessivos representam capital imobilizado e aumento de custos financeiros.
Modelos digitais de gestão de estoque e parcerias com fornecedores globais vêm sendo adotados para otimizar a cadeia de suprimentos. A previsibilidade gerada pela manutenção preditiva permite planejar aquisições com maior assertividade, reduzindo tanto riscos operacionais quanto desperdício de capital.
Esse movimento ocorre em paralelo à expansão da capacidade instalada no Brasil, sobretudo no Nordeste, onde novos parques continuam sendo conectados ao Sistema Interligado Nacional. A demanda por confiabilidade cresce na mesma velocidade em que a geração eólica amplia sua participação na matriz elétrica.
Vida útil estendida e novo patamar de maturidade
A ampliação da vida útil das turbinas para patamares de 20 a 30 anos representa uma mudança estrutural na indústria. O foco deixa de estar apenas na expansão de capacidade instalada e passa a incorporar a gestão inteligente de ativos existentes.
Em um setor cada vez mais orientado por dados, a combinação de manutenção preditiva, inteligência artificial, repotencialização e lubrificação inteligente redefine o conceito de eficiência operacional. Mais do que manter as turbinas girando, trata-se de extrair o máximo valor técnico e econômico de cada ativo ao longo de todo o seu ciclo de vida.
Para o setor elétrico brasileiro, essa evolução tecnológica é estratégica: quanto maior a confiabilidade dos parques eólicos, menor o risco sistêmico e maior a previsibilidade de entrega de energia renovável ao mercado.



