Renováveis, eletrificação industrial e digitalização pressionam redes elétricas globais e colocam infraestrutura, eficiência e resiliência no centro da agenda
A combinação entre metas agressivas de descarbonização e expansão acelerada da demanda por eletricidade está redesenhando o setor elétrico global. Projeções indicam que as emissões globais deverão cair 50% até 2030, enquanto a geração de eletricidade nas redes precisará crescer 61% entre 2023 e 2040, um descompasso que impõe forte pressão sobre sistemas elétricos e amplia o debate sobre eficiência energética, modernização de redes e segurança do suprimento.
Os dados fazem parte do estudo “Back to 2050”, do Schneider Electric Sustainability Research Institute (SRI), e dialogam com o relatório World Energy Outlook 2024, da International Energy Agency (IEA). A leitura combinada dos dois levantamentos revela um cenário de transformação estrutural da matriz energética, com impactos diretos sobre planejamento da expansão, investimentos em infraestrutura e digitalização das redes de distribuição.
Para a Schneider Electric, líder global em tecnologia de energia, o momento atual marca a transição de uma agenda climática baseada em compromissos para uma fase operacional, na qual metas ambientais precisam ser conciliadas com crescimento econômico e industrial.
Renováveis triplicam e desafiam integração ao sistema
Um dos principais vetores dessa transformação é a expansão acelerada das fontes renováveis intermitentes, como solar e eólica. De acordo com a IEA, a capacidade instalada dessas fontes deve crescer três vezes entre 2023 e 2030.
A incorporação massiva de geração intermitente eleva a complexidade operacional do sistema elétrico, exigindo redes mais flexíveis, inteligentes e resilientes. O desafio não se restringe à expansão da capacidade, mas envolve integração eficiente, armazenamento de energia, gestão ativa da demanda e digitalização da operação.
A necessidade de modernização das redes elétricas torna-se ainda mais evidente diante da descentralização do consumo e da ampliação da geração distribuída, que alteram o fluxo tradicional de energia e exigem novas soluções de monitoramento e controle.
Eletrificação industrial impulsiona demanda
Paralelamente ao avanço das renováveis, a eletrificação de processos industriais acelera o crescimento da demanda por energia elétrica limpa. O Regulatory Assistance Project (RAP) projeta que, até 2035, 90% do calor utilizado em processos industriais poderá ser eletrificado com tecnologias já em desenvolvimento.
Essa mudança estrutural representa um deslocamento relevante da matriz energética, tradicionalmente dependente de combustíveis fósseis para geração de calor industrial, para sistemas baseados em eletricidade de baixo carbono. O impacto é duplo: aumento do consumo elétrico e necessidade de garantir fornecimento confiável, competitivo e sustentável.
No contexto global, essa tendência reforça o papel estratégico do setor elétrico como eixo central da descarbonização da economia.
Digitalização e corrente contínua redesenham o consumo
A disrupção tecnológica também redefine o perfil do consumo final. Dados da European Distribution System Operators (E.DSO) indicam que, até 2030, 80% da energia consumida em residências deverá ser em corrente contínua, refletindo a crescente adoção de equipamentos eletrônicos, sistemas digitais e soluções descentralizadas.
A digitalização amplia a eficiência energética, mas também impõe novos requisitos de infraestrutura. Sistemas de medição inteligente, automação, inteligência artificial e análise de dados passam a ser componentes essenciais para lidar com maior complexidade operacional e variabilidade na oferta.
A convergência entre eletrificação, renováveis e digitalização consolida a eletricidade como principal vetor energético da economia global nas próximas décadas.
Brasil pode triplicar geração até 2050
Na avaliação de Rafael Segrera, presidente da Schneider Electric para a América do Sul, a transição energética já deixou o campo conceitual para se tornar agenda concreta de desenvolvimento econômico e industrial.
“Os dados mostram que a transição energética deixou de ser uma discussão de futuro e passou a ser uma agenda concreta de desenvolvimento econômico e industrial”, afirma Rafael Segrera, presidente da Schneider Electric para a América do Sul. “Um estudo realizado em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) sinaliza que o Brasil pode triplicar sua capacidade de geração elétrica até 2050, com 95% dessa expansão baseada em fontes renováveis.”
O executivo ressalta que o país reúne condições estratégicas para responder ao crescimento da demanda por energia elétrica e acelerar a descarbonização, desde que haja planejamento consistente e investimentos em infraestrutura e capacitação.
“A transição energética só será bem-sucedida se combinar inovação tecnológica, sustentabilidade e impacto social positivo”, acrescenta.
Infraestrutura, resiliência e eficiência no centro da agenda
O cenário projetado, redução de 50% das emissões globais até 2030 e aumento de 61% na geração elétrica até 2040, impõe ao setor elétrico um desafio inédito: crescer de forma acelerada enquanto reduz sua pegada de carbono.
Para operadores, reguladores e investidores, isso significa priorizar modernização de redes elétricas, armazenamento de energia, eficiência energética, digitalização e modelos regulatórios que incentivem inovação e resiliência.
A nova paisagem energética global exige integração entre políticas industriais, planejamento energético e estratégias de descarbonização. O sucesso da transição dependerá menos de metas declaradas e mais da capacidade de execução, técnica, financeira e institucional.



