Maioria dos ministros reforça transição energética, enquanto Colômbia entra como 33º membro e amplia pressão global pelo fim dos combustíveis fósseis
A tentativa dos Estados Unidos de esvaziar a agenda climática da Agência Internacional de Energia (AIE) encontrou forte resistência durante a reunião ministerial realizada em Paris nesta semana. Ao final do encontro, concluído na quinta-feira (19), a sinalização política foi clara: a transição energética segue no centro da estratégia global de segurança energética, competitividade econômica e enfrentamento das mudanças climáticas.
Apesar das reiteradas manifestações do secretário de Energia norte-americano, Chris Wright, para que o tema climático fosse retirado das prioridades da Agência, a posição dos EUA se mostrou cada vez mais isolada. O balanço oficial do encontro, divulgado pela presidência da reunião, evidenciou que a ampla maioria dos países-membros mantém o compromisso com uma transição alinhada à meta de emissões líquidas zero.
Compromisso com a transição e alinhamento à COP28
A síntese política do encontro foi apresentada por Sophie Hermans, vice-primeira-ministra e ministra do Clima dos Países Baixos, que conduziu os trabalhos ministeriais. O documento reforça que o consenso internacional segue ancorado nos compromissos multilaterais assumidos no âmbito da COP28.
“Uma grande maioria dos ministros destacou a importância da transição energética para combater as mudanças climáticas e ressaltou a transição global para emissões líquidas zero, em linha com os resultados da COP28”, afirma o texto da presidência.
A mensagem reflete a leitura predominante entre governos de que a transição energética deixou de ser apenas uma agenda ambiental e passou a ocupar papel central na segurança energética, na previsibilidade de preços e na resiliência dos sistemas elétricos.
Colômbia amplia representatividade da AIE e pauta debate sobre fósseis
Outro marco relevante da reunião foi a entrada da Colômbia como o 33º país-membro da AIE. A adesão ocorre em um momento de intensificação do debate global sobre a redução do uso de combustíveis fósseis, tema que estará no centro de uma cúpula internacional a ser organizada pelo país em abril.
A ampliação do quadro de membros fortalece o papel da Agência como fórum central de formulação de políticas energéticas, especialmente em um cenário de crescimento acelerado da demanda por eletricidade em economias emergentes.
ONU aponta combustíveis fósseis como risco sistêmico global
A reunião ministerial também contou com a participação do secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, que fez um alerta contundente sobre os impactos econômicos e geopolíticos da dependência global de combustíveis fósseis.
“Alguns interesses ligados aos combustíveis fósseis continuam obstinados em desacelerar o progresso; espalhando desinformação; fingindo que a transição é irrealista ou inacessível.
Vamos dizer como é: o vício do mundo em combustíveis fósseis é uma das maiores ameaças à estabilidade e à prosperidade globais. Três quartos da humanidade vivem em países importadores líquidos de combustíveis fósseis; dependentes de energia que não controlam — a preços que não podem prever; vendo orçamentos de desenvolvimento serem drenados por contas de combustível; à mercê constante de turbulências geopolíticas e interrupções no fornecimento.
[…] Temos uma escolha: projetar a transição juntos — ou tropeçar nela em meio a crises e caos. Por isso, hoje peço a criação de uma plataforma global dedicada a um diálogo honesto sobre a transição para longe dos combustíveis fósseis.”
Europa trata energia limpa como estratégia industrial e de segurança
Do lado europeu, o discurso reforçou a leitura de que a transição energética é indissociável de competitividade industrial e proteção dos consumidores. O comissário europeu de Energia, Dan Jørgensen, destacou que a agenda climática também responde a objetivos econômicos e geopolíticos.
“Para a Europa, a transição para a energia limpa não é apenas uma questão de descarbonização. É uma estratégia industrial. E é uma estratégia de segurança. Energias renováveis, eletrificação e redes modernas não são custos a serem administrados, mas ativos estratégicos que nos ajudam a reduzir preços e proteger nossos consumidores contra choques no fornecimento de energia”, destacou.
Reino Unido reforça viabilidade econômica da energia limpa
A avaliação de que a transição energética é sustentada por fundamentos econômicos foi compartilhada pelo secretário de Energia do Reino Unido, Ed Miliband, que ressaltou a competitividade das fontes limpas no atendimento à demanda crescente por energia.
“Para muitos — na verdade, para a maioria dos países — a energia limpa é a forma mais segura e acessível de atender a essa demanda crescente no longo prazo, a maneira de garantir sua segurança energética, reduzir a dependência de combustíveis importados e cumprir metas climáticas essenciais. E os países enfatizaram que isso se baseia em uma avaliação fria e objetiva dos fatos econômicos”, ressaltou.
Segurança energética passa por redes, eletrificação e resiliência sistêmica
A leitura técnica do encontro foi aprofundada por Maria Pastukhova, líder do Programa de Transição Energética da E3G, que destacou a centralidade do setor elétrico na agenda de segurança energética dos próximos anos.
“A reunião ministerial reafirmou corretamente que a segurança energética em 2026 diz respeito à resiliência do sistema: redes elétricas, demanda por eletricidade, transições geridas e cadeias de suprimento. O próximo passo é aprofundar essa abordagem sistêmica: ampliar o engajamento com economias emergentes que agora impulsionam a demanda global, fortalecer a análise de riscos em um ambiente comercial volátil e garantir que a modelagem da AIE permaneça rigorosa e independente. Em um mundo fragmentado, a credibilidade da Agência depende de orientar uma transição gerida e equitativa para longe da exposição aos combustíveis fósseis — com base em dados, não em política”, concluiu.



