Projetos premiados usam inteligência artificial e dados geoespaciais para mapear carga e micro e minigeração distribuída, com foco em segurança e eficiência do sistema elétrico brasileiro
A crescente complexidade da operação da rede elétrica brasileira, impulsionada pela expansão acelerada da micro e minigeração distribuída (MMGD) e pela digitalização dos sistemas de distribuição, tem exigido novas abordagens baseadas em dados, inteligência artificial e modelos preditivos. Foi nesse contexto que a Radix, empresa global de tecnologia e engenharia, encerrou no último sábado (7), no Maravalley, no Rio de Janeiro, a terceira edição do Hackathon Radix, iniciativa voltada ao desenvolvimento de soluções inovadoras para desafios estruturais do setor elétrico.
O evento marcou a apresentação final e a premiação dos projetos vencedores, que tiveram como tema central a caracterização da composição de carga e o mapeamento da incidência de MMGD conectadas às subestações. O objetivo foi estimular o uso de ferramentas analíticas capazes de apoiar distribuidoras, operadores e agentes do setor na tomada de decisão, em um cenário de transição energética e aumento da complexidade operacional.
Inteligência artificial aplicada à operação da rede
Ao longo de dois meses, estudantes de diferentes regiões do país trabalharam de forma colaborativa no desenvolvimento de soluções baseadas em inteligência artificial, integração de bases de dados públicas e privadas e modelos de análise geoespacial. As propostas buscaram responder a um dos principais gargalos atuais do setor: a falta de visibilidade granular sobre perfis de carga, padrões de consumo e níveis de penetração de geração distribuída.
As ferramentas desenvolvidas permitem classificar perfis de consumidores, identificar tendências de supergeração, prever cenários de desequilíbrio entre oferta e demanda e gerar indicadores operacionais por subestação. Na prática, os projetos oferecem insumos relevantes para planejamento da expansão da rede, gestão de ativos, aumento da confiabilidade e mitigação de riscos operacionais.
As soluções foram avaliadas por uma banca de especialistas, considerando critérios como grau de inovação, aplicabilidade prática, qualidade técnica e clareza do pitch apresentado.
Participação nacional e formação de talentos
A terceira edição do Hackathon Radix registrou 223 inscrições, reunindo estudantes de universidades de todas as regiões do país. Entre as instituições participantes estiveram UFRJ (incluindo a COPPE), UFF, UFRRJ, UFS, UFU, UFPR, USP, UFLA, UEG, UFPA, além de centros universitários e faculdades como Estácio, Unilasalle, Unifran, Unicarioca, INFNET, FIAP e Centro Universitário Augusto Motta.
O perfil dos participantes reflete uma tendência relevante para o setor elétrico: a aproximação entre engenharia, ciência de dados, computação e energia, formando uma nova geração de profissionais com competências híbridas para lidar com os desafios da digitalização da infraestrutura elétrica.
GaIA vence com solução integrada para perfil de carga e MMGD
O primeiro lugar foi conquistado pela equipe GaIA, formada por quatro estudantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que recebeu o prêmio de R$ 10 mil. A solução apresentada foca na caracterização detalhada do perfil de carga por área e na representação da micro e minigeração distribuída, utilizando delimitação geográfica avançada, análise de imagens de satélite, cruzamento de bases públicas de dados e métricas específicas de demanda e geração.
O projeto gera uma visão integrada por subestação, permitindo identificar padrões de consumo, estimar níveis de geração distribuída e apoiar decisões relacionadas ao planejamento e à operação do sistema elétrico. Um protótipo funcional desenvolvido em Streamlit demonstrou o potencial da ferramenta para uso real por agentes do setor.
Inteligência geoespacial e análise preditiva no pódio
O segundo lugar ficou com a equipe Linkfy, composta por cinco estudantes da UFRJ, que recebeu o prêmio de R$ 5 mil. O grupo apresentou o RADAR – Rastreamento Automatizado de Dados e Ativos de Rede, uma plataforma de inteligência geoespacial aplicada ao setor elétrico.
A solução permite a classificação detalhada das cargas e do entorno das subestações, a visualização de indicadores de risco de supergeração, gráficos dinâmicos sobre a evolução da MMGD e modelos preditivos para análise de tendências. O foco é oferecer uma ferramenta integrada e visual para apoiar a tomada de decisão operacional e estratégica.
Já o terceiro lugar foi conquistado pela equipe Oxenvolts, formada por cinco estudantes da Universidade Federal de Sergipe, que recebeu o prêmio de R$ 2 mil com o projeto GridScope. A solução transforma grandes volumes de dados públicos em insights visuais, utilizando inteligência artificial e dados climáticos para identificar perfis de carga por subestação e prever a chamada “curva do pato” por classe consumidora, fenômeno associado à alta penetração de geração solar distribuída.
O objetivo do projeto é apoiar profissionais do setor elétrico na modelagem de cenários que garantam maior segurança e confiabilidade no equilíbrio entre oferta e demanda.
Inovação aberta como estratégia para o setor elétrico
A avaliação institucional da Radix reforça a importância de iniciativas de inovação aberta para enfrentar os desafios da transição energética e da digitalização da rede.
Para Hugo Portuita, gerente de projetos de Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação da empresa, o hackathon se consolida como um ambiente estratégico de conexão entre talentos e demandas reais do setor. “Os projetos apresentados mostram o alto nível técnico e a capacidade de inovação dos participantes. A iniciativa reforça nosso compromisso em estimular soluções práticas e inteligentes para desafios reais do setor elétrico, aproximando talentos, empresas e centros de pesquisa”, afirma.
A edição contou ainda com mentorias, capacitações e apoio técnico de especialistas, além da colaboração com a AXIA Energia e o Centro de Pesquisas em Energia Elétrica (Cepel), ampliando o diálogo entre academia, indústria e agentes do setor.
Hackathons e o futuro da operação elétrica
Mais do que uma competição acadêmica, o Hackathon da Radix evidencia uma tendência estrutural: a incorporação definitiva de inteligência artificial, ciência de dados e plataformas digitais na operação e no planejamento da rede elétrica.
Com a expansão da MMGD, a eletrificação de novos setores da economia e a crescente variabilidade da geração renovável, ferramentas capazes de interpretar grandes volumes de dados em tempo quase real tornam-se essenciais. Nesse cenário, iniciativas como o Hackathon Radix funcionam como laboratórios de soluções para um sistema elétrico cada vez mais complexo, descentralizado e digital.



