Brasil e Global Energy Alliance aceleram agenda de energia limpa para comunidades isoladas da Amazônia

Programa Energias da Amazônia avança com interligações ao SIN, novos projetos renováveis e foco em substituir a geração a diesel por soluções sustentáveis

O governo brasileiro e a Global Energy Alliance (GEA) avançaram na consolidação de uma agenda estratégica para ampliar o acesso à energia limpa e confiável na Amazônia Legal, com foco na substituição da geração a diesel, redução de emissões e promoção de desenvolvimento socioeconômico em comunidades isoladas. O tema esteve no centro da Segunda Conferência Energias da Amazônia, realizada nos dias 10 e 11 de fevereiro, em Manaus, que reuniu representantes do Ministério de Minas e Energia (MME), reguladores, financiadores, organizações multilaterais e entidades da sociedade civil.

O encontro teve como principal objetivo avaliar os resultados já alcançados pelo Programa Energias da Amazônia e definir prioridades para a próxima fase de investimentos, em um contexto em que a universalização do acesso à eletricidade e a transição energética passam a ser tratadas de forma integrada às políticas de desenvolvimento sustentável.

Lançado em 2023, o Programa Energias da Amazônia já concluiu 13 interligações ao Sistema Interligado Nacional (SIN), beneficiando mais de 500 mil consumidores na Amazônia Legal. A iniciativa é considerada um dos pilares da estratégia do governo para reduzir a dependência de sistemas isolados baseados em combustíveis fósseis e ampliar a segurança energética em regiões de difícil acesso.

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Energia como eixo da transição energética inclusiva

A diretriz do governo brasileiro é garantir que a transição energética também alcance populações historicamente excluídas do acesso pleno à infraestrutura elétrica. Durante o evento, a diretora de Transição Energética do Ministério de Minas e Energia, Karina Araujo Sousa, destacou que a política pública vai além da expansão da oferta de eletricidade e busca integrar energia, desenvolvimento econômico e inclusão social.

“O Programa Energias da Amazônia reflete o compromisso do Brasil de garantir que ninguém fique para trás na transição energética”, afirmou Karina Araujo Sousa, diretora de Transição Energética do Ministério de Minas e Energia. “Temos a oportunidade de trabalhar com a Global Energy Alliance para garantir que a energia limpa gere oportunidades econômicas, mesmo nas comunidades mais remotas. Este workshop foi um momento fundamental para avaliar o progresso e traçar a próxima fase de investimentos e ações de políticas públicas.”

Na avaliação do MME, a universalização do acesso à energia na região amazônica exige soluções adaptadas às condições locais, combinando interligações ao SIN, sistemas isolados renováveis, modelos híbridos e o uso produtivo da energia como indutor de geração de renda.

Desafios estruturais e dependência do diesel

O desafio amazônico se insere em um cenário regional mais amplo. Na América Latina e no Caribe, cerca de 17 milhões de pessoas ainda não têm acesso à eletricidade, enquanto outras 60 milhões convivem com serviços instáveis e de baixa qualidade. Na Amazônia, o isolamento geográfico e a dependência histórica da geração a diesel resultam em custos elevados, maior vulnerabilidade energética e impactos ambientais relevantes.

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Nesse contexto, a GEA tem atuado como articuladora de investimentos e soluções técnicas voltadas à substituição de fontes fósseis por sistemas renováveis e resilientes. A vice-presidente para América Latina e Caribe da Global Energy Alliance, Isabel Beltran, ressaltou que a agenda não se trata de uma promessa futura, mas de um processo já em curso.

“Levar energia limpa e confiável à Amazônia não é uma ambição futura. Já está em andamento, e este encontro é sobre acelerar o que funciona”, disse Isabel Beltran, Vice-Presidente para América Latina e Caribe da Global Energy Alliance. “Ao reunir governo, reguladores e parceiros, estamos alinhando soluções práticas que reduzem a dependência do diesel, diminuem os custos para as comunidades e colocam as pessoas no centro da transição energética. A Amazônia exige abordagens enraizadas na realidade local, resilientes e duradouras, e é exatamente isso que esta colaboração está promovendo.”

Investimentos, sistemas isolados e novos projetos

Durante a conferência, foram apresentados os principais resultados do Programa Energias da Amazônia, que atende atualmente mais de 1,96 milhão de pessoas não conectadas ao sistema nacional. A iniciativa busca substituir a geração a diesel por soluções renováveis e híbridas, combinando solar, armazenamento, biomassa e micro-redes.

Também foram destacados os 14 projetos aprovados no primeiro edital do Pró-Amazônia Legal, que somam R$ 829 milhões em investimentos, além do Leilão de Sistemas Isolados (SISOL) 2025, responsável por adicionar 50 MW de capacidade instalada para atender cerca de 30 mil pessoas em localidades remotas do Amazonas e do Pará.

Na avaliação dos organizadores, esses projetos demonstram que a expansão das energias renováveis na Amazônia pode gerar benefícios múltiplos, como fortalecimento da segurança energética, redução de emissões de gases de efeito estufa, melhoria da qualidade de vida e estímulo a atividades produtivas locais.

Energia, renda e desenvolvimento territorial

Um dos pontos centrais da estratégia apresentada em Manaus é a integração entre acesso à energia e geração de renda. A lógica é que a eletrificação só se traduz em desenvolvimento sustentável quando associada a políticas de uso produtivo da energia, como apoio a cadeias de valor locais, bioeconomia, turismo comunitário e serviços essenciais.

Nesse sentido, a superintendente-adjunta da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), Valcléia Lima, ressaltou que a efetividade dos projetos depende da construção conjunta com os territórios e do respeito às dinâmicas sociais e culturais da região.

“Levar energia renovável às comunidades amazônicas exige mais do que tecnologia. Exige escuta, diálogo e construção conjunta com os territórios. Quando as soluções são concebidas a partir das realidades locais, os benefícios se ampliam e se tornam sustentáveis no longo prazo, tanto para as pessoas quanto para o desenvolvimento da região”, afirmou Valcléia Lima, superintendente-adjunta da Fundação Amazônia Sustentável (FAS).

Alinhamento com a agenda climática pós-COP30

Realizada poucos meses após a COP30, sediada em Belém, a Segunda Conferência Energias da Amazônia posicionou o programa brasileiro como um dos principais instrumentos de implementação dos compromissos climáticos do país. A iniciativa conecta metas de descarbonização, inclusão social e desenvolvimento regional em uma mesma estratégia de política pública.

A atuação da Global Energy Alliance reforça esse movimento. Na América Latina e no Caribe, a organização já investiu US$ 37 milhões e ajudou a mobilizar US$ 599 milhões em financiamento para projetos de energia limpa, com potencial para beneficiar 7 milhões de pessoas e evitar a emissão de 24 milhões de toneladas de CO₂.

No Brasil, a parceria foi formalizada por meio de um Memorando de Entendimento de cinco anos, assinado durante a COP30, que estabelece cooperação em energia renovável, promoção de empregos verdes em comunidades remotas da Amazônia e fortalecimento de uma transição energética inclusiva e socialmente orientada.

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