ABGD apresenta à ANEEL estudo inédito e aponta que geração distribuída reduz perdas e adia investimentos nas redes

Levantamento analisou 27 mil alimentadores e quase 6 milhões de redes secundárias e indica que impactos críticos só ocorrem em cenários ainda pouco frequentes no Brasil.

A micro e minigeração distribuída (MMGD) tende a produzir efeitos líquidos positivos sobre a operação e o planejamento do sistema elétrico brasileiro, especialmente ao reduzir perdas técnicas e postergar investimentos na expansão das redes. Essa é a principal conclusão de um estudo técnico inédito apresentado pela Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD) à Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), na última quinta-feira (5).

O levantamento, conduzido pelo conselheiro da entidade, José Marangon, analisou aproximadamente 27 mil alimentadores de rede primária e cerca de 6 milhões de redes secundárias em todo o país, com base no Banco de Dados Georreferenciado da Distribuição (BDGD), da própria agência reguladora. A pesquisa foi desenvolvida pela MRST Consultoria e Engenharia, em parceria com especialistas do setor elétrico e pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP).

Metodologia estatística amplia visão sistêmica

Diferentemente de estudos baseados em casos pontuais, a metodologia adotada utilizou o conceito de “redes representativas”, agrupando alimentadores com características semelhantes para reproduzir, de forma estatística, a realidade do sistema elétrico brasileiro. O objetivo foi evitar distorções comuns em análises isoladas e oferecer uma visão mais sistêmica dos efeitos da geração distribuída.

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Na apresentação à ANEEL, Marangon destacou que a maior parte das redes brasileiras ainda opera com baixa ou média penetração de geração distribuída. “Grande parte das redes sequer possui micro ou minigeração. Quando a penetração é baixa ou média, a geração próxima à carga traz benefícios, reduz perdas e posterga investimentos”, afirmou.

Segundo o estudo, esse cenário é predominante no país, o que reforça a tese de que a MMGD, nos níveis atuais, atua como elemento de eficiência operacional para as distribuidoras, ao diminuir o fluxo de energia nas redes e aliviar a necessidade de reforços estruturais.

Casos críticos ainda são exceção no Brasil

O levantamento aponta que situações mais complexas surgem apenas em cenários de alta penetração de geração distribuída, que ainda representam uma parcela muito pequena do sistema. “Hoje a maior parte das redes não está em alta penetração. Condenar a GD por casos extremos não é estatisticamente razoável”, disse Marangon.

De acordo com os dados apresentados, apenas cerca de 3% das redes secundárias brasileiras apresentam alta penetração de MMGD. Mesmo nesses casos, o estudo não identificou violações relevantes de restrições elétricas, como sobrecarga, níveis críticos de tensão ou degradação significativa da qualidade do fornecimento.

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Em situações mais avançadas de inserção da geração distribuída, podem ser necessários investimentos adicionais em proteção, controle de tensão e ampliação da capacidade de transformação. Ainda assim, a avaliação técnica indica que esses desafios são solucionáveis com tecnologias já disponíveis.

Armazenamento como peça-chave da transição

Na análise apresentada à agência reguladora, a ABGD destacou o papel estratégico dos sistemas de armazenamento para mitigar eventuais efeitos adversos da geração distribuída em redes de alta penetração. “Quando a rede passa a funcionar como coletora de geração surgem inconvenientes, porque ela não foi projetada para isso. Porém esses problemas são resolvidos com investimento, principalmente com baterias, que trazem mais benefícios ao sistema”, explicou Marangon.

Segundo a entidade, o avanço do armazenamento estacionário e a futura integração das baterias de veículos elétricos ao sistema tendem a redefinir a dinâmica operacional das redes, permitindo maior flexibilidade, controle de fluxo e estabilidade elétrica.

Debate regulatório: foco deve ser técnico e local

Além dos impactos operacionais, o estudo também reforça a necessidade de uma abordagem regulatória mais baseada em critérios técnicos do que em conceitos genéricos. A ABGD argumenta que a inversão de fluxo, frequentemente citada como problema, não deve ser tratada como um risco em si mesma.

Ao abordar o tema, Marangon afirmou que “inversão de fluxo não é problema por si só. O correto é analisar tensão, carregamento e qualidade do fornecimento. O tratamento deve ser local, não generalizado”.

A entidade defende que a regulação da geração distribuída seja orientada por diagnósticos específicos de cada trecho de rede, evitando soluções amplas que possam gerar distorções, custos desnecessários e perda de eficiência econômica para o sistema como um todo.

Contribuição sistêmica da geração próxima à carga

O estudo apresentado à ANEEL também amplia o debate ao destacar que os benefícios da geração distribuída não se limitam à distribuição. Segundo a análise, a produção de energia próxima ao consumo contribui para reduzir o carregamento da transmissão e pode, inclusive, atuar como elemento de suporte ao sistema interligado, quando adequadamente controlada.

“A geração próxima à carga ajuda o sistema, reduz o fluxo e pode inclusive colaborar com a transmissão quando controlada”, disse Marangon.

Para a ABGD, a tendência é que a expansão da MMGD, combinada com armazenamento e mobilidade elétrica, consolide um novo paradigma operacional no setor. “Estamos num processo de transformação com baterias e carregamento de veículos elétricos, o que tende a resolver muitos dos desafios operacionais e atender melhor o consumidor”, concluiu.

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