Por Jonathan Figueiredo, Diretor de Serviços da Aeris Services LATAM
O setor eólico brasileiro atravessa, desde 2024, um ciclo de retração caracterizado pela redução de novos projetos, postergação de investimentos e aumento da ociosidade industrial. Algo que não é uma novidade. Diversos dados divulgados ao longo de 2025 por agentes do mercado e por plataformas especializadas indicam queda relevante no volume de contratação de novos parques, especialmente no Nordeste, região historicamente responsável pela maior parte da expansão eólica no país. Esse movimento alterou a dinâmica de toda a cadeia produtiva, com impactos diretos sobre fabricantes, operadores e prestadores de serviço. Ao mesmo tempo, esse período tem ampliado o grau de maturidade do debate setorial, com maior coordenação entre agentes públicos e privados sobre os ajustes necessários para a sustentabilidade do segmento.
A principal origem desse cenário está nos cortes de geração impostos ao sistema elétrico, associados à limitação da infraestrutura de transmissão e ao despacho reduzido de fontes renováveis em determinados períodos. O curtailment deixou de ser um evento pontual e passou a representar um fator recorrente de risco econômico para projetos eólicos, afetando previsibilidade de receita e reduzindo o apetite por novos investimentos. Esse ambiente compromete decisões de longo prazo e exige respostas regulatórias objetivas. Isso ocorre porque a interrupção parcial ou total da geração reduz a energia efetivamente faturada pelos projetos, distorce premissas financeiras originalmente contratadas e transfere ao empreendedor um risco que não estava precificado. Como consequência prática, financiadores elevam exigências de garantia, investidores postergam decisões e novos projetos deixam de avançar mesmo quando há recurso eólico disponível. O reconhecimento desse diagnóstico tem sido um passo importante para a construção de soluções estruturais.
Assim, diante desse contexto, empresas da cadeia eólica passaram a priorizar eficiência operacional, preservação de caixa e revisão de modelos de negócio. Uma consequência direta disso foi o fortalecimento das atividades de operação e manutenção (O&M) e de serviços especializados, que passaram a cumprir um papel central na sustentação financeira dos ativos já instalados. Com menor entrada de novos projetos, a maximização da disponibilidade, da vida útil e do desempenho dos parques existentes tornou-se critério essencial de decisão. Isso porque, em um ambiente de expansão limitada, a principal alavanca de geração de valor passa a ser a performance dos ativos em operação. Cada ponto percentual de disponibilidade, cada extensão de vida útil e cada redução de falha têm impacto direto no fluxo de caixa, tornando a gestão técnica dos parques uma variável decisiva para a viabilidade econômica. Esse movimento também reflete uma visão mais madura do setor, que passa a valorizar a eficiência sistêmica e a confiabilidade operacional como ativos estratégicos.
Esse reposicionamento encontra respaldo em estudos de mercado. Relatórios internacionais publicados em 2025 apontam que, em ciclos de desaceleração da expansão, o segmento de serviços tende a crescer proporcionalmente mais rápido do que a fabricação de equipamentos, justamente por estar associado à base instalada. Segundo a Wood Mackenzie, os custos de O&M representam uma parcela crescente do CAPEX total ao longo do ciclo de vida dos parques, o que amplia a relevância técnica e econômica dessa atividade. Essa evidência reforça a percepção, cada vez mais consensual, de que serviços e O&M são mais que uma resposta conjuntural, assumindo status de componente estrutural do modelo de negócios eólico.
No campo regulatório, a discussão sobre mecanismos de compensação pelos cortes de geração avançou em 2025 e 2026 como resposta à assimetria de riscos enfrentada pelos agentes renováveis. A possibilidade de redistribuição desses custos no sistema elétrico cria um ambiente mais previsível para a manutenção dos ativos existentes e reduz a deterioração econômica dos projetos em operação. A previsibilidade regulatória, nesse cenário, é um fator diretamente associado à continuidade dos contratos de O&M e à estabilidade da cadeia de serviços. Isso acontece porque regras mais claras sobre alocação de riscos permitem planejamento de médio e longo prazo, garantem maior segurança contratual e reduzem o risco de inadimplência ou renegociação forçada. Para os prestadores de serviço, esse ambiente sustenta contratos de maior duração, investimentos em qualificação técnica e manutenção de equipes especializadas. O avanço desse diálogo regulatório pode sinalizar um importante alinhamento em torno de soluções que preservem a competitividade da energia eólica no país.
As projeções para a retomada da expansão eólica indicam um horizonte mais claro a partir de 2027, condicionado à entrada de novos reforços em transmissão e à reorganização dos sinais econômicos do setor. De maneira geral, as opiniões de especialistas convergem para a avaliação de que os próximos dois anos ainda serão marcados por cautela, com retomada gradual e seletiva dos investimentos. Esse intervalo reforça a necessidade de estratégias que priorizem eficiência operacional e gestão técnica dos ativos já em funcionamento. Isso porque, até que novos projetos voltem a ser contratados em escala relevante, a base instalada continuará sendo o principal vetor de geração de receita e estabilidade do setor. A eficiência na operação dos parques existentes funciona, portanto, como ponte entre o ciclo de retração atual e a próxima fase de crescimento. Esse entendimento tem orientado decisões mais coordenadas entre os diversos elos do ecossistema, fortalecendo a confiança no médio e longo prazo.
Nesse novo ciclo da energia eólica brasileira, os serviços e a operação e manutenção assumem o papel de eixo de estabilidade porque concentram, no curto e médio prazo, a principal capacidade de preservação de valor do setor. Em um ambiente marcado por restrições à expansão e por cortes forçados de geração, a eficiência na gestão dos ativos existentes sustenta fluxo de caixa, confiabilidade operacional e continuidade dos projetos. Ao mesmo tempo, o avanço de uma regulação mais adequada para mitigar ou reduzir o curtailment é decisivo para enfrentar perdas financeiras bilionárias e evitar o desperdício de energia limpa já disponível no sistema. A participação ativa de empresas, reguladores e formuladores de políticas públicas nesse debate cria um ambiente mais previsível, colaborativo e atrativo para investimentos. Essa convergência de esforços funciona como uma carta de confiança no futuro da energia eólica brasileira e reforça as bases para um próximo ciclo de crescimento mais equilibrado e sustentável.



