Melhora das precipitações nas bacias do Sudeste/Centro-Oeste deve reduzir déficit hídrico e sustentar bandeira tarifária verde, apesar de níveis ainda inferiores aos de 2025
O mês de fevereiro tende a marcar uma inflexão no comportamento hidrológico observado nos últimos meses e trazer um alívio ao setor elétrico brasileiro. De acordo com o planejamento divulgado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), as chuvas devem se tornar mais favoráveis, especialmente na primeira quinzena, contribuindo para a recomposição parcial dos reservatórios das hidrelétricas em um período considerado crítico para a formação de armazenamento.
A perspectiva de melhora ocorre após um início de ano marcado por precipitações abaixo da média histórica em importantes bacias hidrográficas, o que vinha pressionando o balanço energético do Sistema Interligado Nacional (SIN). Para fevereiro, o operador também projeta uma retração da carga de energia elétrica no país, o que reforça um cenário conjuntural mais confortável para a operação do sistema.
Chuvas mais regulares nas principais bacias
No planejamento mensal apresentado pelo ONS, a expectativa é de que as precipitações se intensifiquem sobretudo nas bacias das regiões Sudeste e Centro-Oeste, responsáveis pela maior parcela da capacidade de armazenamento do parque hidrelétrico nacional. A melhora segue uma tendência já observada nos últimos dias de janeiro, quando volumes mais elevados de chuva permitiram reduzir o déficit frente à média histórica em áreas estratégicas, como as bacias dos rios Paranaíba e São Francisco.
A sinalização hidrológica é considerada relevante porque fevereiro e março costumam concentrar uma parte expressiva da afluência anual às usinas, sendo determinantes para o nível de segurança energética ao longo do período seco. O operador avalia que, até abril, marco tradicional do fim da estação chuvosa, as precipitações devem permanecer próximas da média de longo prazo nas principais bacias do país.
Ainda assim, o ONS ressalta que os volumes tendem a se reduzir gradualmente ao longo desses meses, o que exige monitoramento permanente da evolução dos reservatórios e da estratégia de despacho das usinas térmicas.
Reservatórios ainda abaixo do ano passado
Apesar da perspectiva mais favorável para fevereiro, o nível de armazenamento do subsistema Sudeste/Centro-Oeste segue em patamar inferior ao observado no ano anterior. Segundo as projeções do ONS, os reservatórios da região devem encerrar janeiro com cerca de 46% da capacidade, quase 15 pontos percentuais abaixo do registrado no mesmo período de 2025.
Por outro lado, o patamar atual ainda se mantém significativamente acima do nível crítico observado em 2021, quando os lagos chegaram a cerca de 20% e o país enfrentou a mais severa crise hídrica das últimas décadas, com impacto direto sobre tarifas, despacho térmico e risco de racionamento.
O cenário intermediário reforça a avaliação de que o sistema opera hoje em condição de atenção, mas sem sinais de estresse estrutural no curto prazo, especialmente se a tendência de chuvas se confirmar nas próximas semanas.
Carga deve recuar em fevereiro
No campo da demanda, o ONS projeta uma queda de 1,7% na carga de energia elétrica em fevereiro, na comparação anual, com consumo médio estimado em 87.613 megawatts. A retração reflete, em parte, efeitos de calendário, comportamento da atividade econômica e temperaturas menos extremas em relação ao mesmo período do ano anterior.
A desaceleração da carga, combinada com a melhora das afluências, tende a reduzir a pressão sobre o despacho de usinas térmicas mais caras e emissoras, favorecendo um perfil de geração mais hidrelétrico e, consequentemente, menores custos operacionais para o sistema.
Bandeira verde deve ser mantida
Mesmo com o alerta em relação ao nível dos reservatórios, o aumento esperado da geração hidrelétrica em fevereiro deve garantir a manutenção da bandeira tarifária verde, sem cobrança adicional nas contas de luz. A avaliação é compartilhada por consultorias e comercializadoras do setor, que projetam um cenário de custos operativos mais baixos no curto prazo.
A decisão oficial sobre a bandeira será anunciada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), mas o consenso de mercado aponta para a continuidade do sinal verde ao menos até abril. A partir de maio, com o avanço do período seco e a redução das afluências, agentes já consideram possível a retomada de bandeiras com cobrança extra.
A sinalização é positiva para consumidores residenciais e industriais, ao mesmo tempo em que reforça a importância da gestão hidrológica nos próximos meses para preservar a estabilidade tarifária ao longo de 2026.
Um trimestre decisivo para o balanço energético
O comportamento das chuvas até o fim do período úmido será determinante para definir a trajetória do setor elétrico ao longo do ano. Caso as afluências se mantenham próximas da média, o sistema deve atravessar o período seco em condição de conforto operacional moderado, com menor necessidade de despacho térmico e impacto limitado sobre tarifas.
Por outro lado, uma eventual reversão da tendência de chuvas em março e abril pode reacender preocupações sobre armazenamento, especialmente no Sudeste/Centro-Oeste, região que funciona como “caixa-d’água” do sistema brasileiro.
Nesse contexto, fevereiro se consolida como um mês-chave para a formação do balanço energético de 2026, em um cenário em que hidrologia, demanda e política tarifária seguem no centro das decisões estratégicas do setor.



