Estudo aponta adoção pioneira de armazenamento de energia com tecnologia grid-forming e expansão da transmissão para reduzir riscos operacionais e dependência de térmicas a diesel
O Ministério de Minas e Energia (MME) e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) deram um passo relevante na modernização do planejamento do setor elétrico brasileiro ao divulgar o estudo técnico “Soluções para aumento da confiabilidade no atendimento às cargas de Feijó e Cruzeiro do Sul”, que apresenta alternativas estruturantes para reforçar o suprimento de energia no interior do Acre. O trabalho combina soluções de curto e longo prazos, com destaque para a adoção pioneira de sistemas de armazenamento de energia por baterias (SAEB) em larga escala no Sistema Interligado Nacional (SIN).
A iniciativa responde a desafios históricos da região, marcada por longas distâncias, elevada exposição a eventos climáticos extremos e limitações na malha de transmissão. O objetivo central do estudo é elevar a resiliência operacional do sistema, assegurando continuidade no fornecimento de energia elétrica mesmo em situações de falhas ou contingências severas.
Armazenamento por baterias como solução emergencial e estratégica
Como medida de curto prazo, o planejamento propõe a implantação de um Sistema de Armazenamento de Energia por Baterias (SAEB) na Subestação Cruzeiro do Sul, com capacidade de 100 MW / 200 MWh e tecnologia grid-forming, capaz de formar rede de forma autônoma. Trata-se de uma das primeiras aplicações desse porte no âmbito do SIN, sinalizando uma mudança relevante no uso do armazenamento como ativo de confiabilidade sistêmica.
Em cenários de falhas no sistema de transmissão ou durante intervenções programadas para manutenção, o SAEB poderá suprir integralmente a demanda máxima local por até duas horas, atendendo uma população superior a 200 mil pessoas. A solução permitirá resposta automática a contingências, reduzindo significativamente o risco de interrupções prolongadas no fornecimento.
O investimento estimado para a implantação do sistema é de aproximadamente R$ 230,5 milhões, valor considerado estratégico diante dos ganhos operacionais, ambientais e de segurança energética associados à redução do uso de geração térmica a diesel, hoje amplamente empregada como solução emergencial na região.
Compromisso com segurança energética e sustentabilidade
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, enxerga no projeto um divisor de águas para a modernização da infraestrutura nacional, reforçando a imagem do país como um porto seguro para o capital tecnológico.
“A solução proposta pela EPE, além de inovadora e aguardada no setor elétrico, demonstra o potencial do Brasil como destino de investimentos e assegura o fornecimento de energia mesmo em situações de contingência, reduzindo a dependência de geração térmica a diesel por alternativas mais modernas e sustentáveis”, destacou Silveira.
A declaração reforça a estratégia do governo federal de integrar segurança energética, inovação tecnológica e transição energética, especialmente em regiões mais remotas do país, onde os desafios logísticos e ambientais são mais intensos.
Expansão da transmissão fortalece atendimento estrutural no Acre
Além da solução baseada em armazenamento, o estudo recomenda investimentos robustos em infraestrutura de transmissão. Está prevista a construção de cerca de 640 quilômetros de novas linhas em 230 kV, conectando Tucumã a Feijó, bem como o reforço das ligações já existentes. O objetivo é garantir confiabilidade estrutural e redundância no atendimento às cargas da região.
O planejamento prevê, sempre que possível, o aproveitamento de estruturas existentes, especialmente em trechos ambientalmente sensíveis. A diretriz busca minimizar impactos socioambientais, com atenção especial às áreas de Terra Indígena. O investimento estimado para essa etapa é de aproximadamente R$ 694,7 milhões.
Inovação tecnológica e planejamento integrado
Para o secretário nacional de Transição Energética e Planejamento do MME, Gustavo Ataide, o estudo evidencia a maturidade do planejamento energético brasileiro ao combinar soluções inovadoras e pragmáticas.
“A aplicação pioneira da tecnologia grid-forming em larga escala reforça a inovação na expansão da transmissão, enquanto o uso de infraestrutura existente demonstra o compromisso com a redução de impactos socioambientais”, avalia.
Segundo o MME, as medidas apresentadas atendem a uma demanda estratégica para enfrentar os desafios de confiabilidade no atendimento local. Estudos complementares ainda serão realizados para viabilizar a implantação de um novo circuito de transmissão, consolidando a solução no médio e longo prazos.
Armazenamento ganha protagonismo no planejamento do SIN
O estudo divulgado por MME e EPE marca um ponto de inflexão no papel do armazenamento de energia no planejamento do sistema elétrico brasileiro, ao posicionar as baterias não apenas como apoio às fontes renováveis, mas como elemento central de segurança e confiabilidade do SIN.
A experiência no Acre poderá servir de referência para outras regiões com desafios semelhantes, ampliando o uso de tecnologias avançadas de armazenamento e contribuindo para um sistema elétrico mais resiliente, eficiente e alinhado às metas de descarbonização do país.



