Crise dos minerais críticos expõe fragilidade global e coloca estocagem estratégica no centro da segurança energética

Controles de exportação liderados pela China em 2025 aceleram debate sobre reservas nacionais e ampliam alerta da AIE para riscos sistêmicos nas cadeias de suprimento

O ano de 2025 marcou um ponto de inflexão para a segurança econômica global ao evidenciar, de forma concreta, a fragilidade das cadeias de suprimento de minerais críticos, insumos essenciais para a transição energética, a digitalização da economia e setores estratégicos como defesa, semicondutores, inteligência artificial e mobilidade elétrica. Após anos de alertas da Agência Internacional de Energia (AIE), os riscos associados à elevada concentração da oferta deixaram de ser uma preocupação teórica e passaram a se materializar em escala global.

O gatilho mais visível desse processo foram os controles de exportação de terras raras anunciados pela China em outubro de 2025, que ampliaram restrições já impostas meses antes e provocaram impactos diretos em indústrias estratégicas ao redor do mundo. Em abril, medidas semelhantes já haviam levado fábricas de automóveis a reduzir produção ou interromper temporariamente suas operações, evidenciando a dependência estrutural de poucos fornecedores.

China domina refino e amplia poder geoeconômico

De acordo com o relatório Global Critical Minerals Outlook 2025, da AIE, a China é atualmente a principal refinadora de 19 dos 20 minerais estratégicos monitorados, com participação média de mercado de cerca de 70%. Em alguns casos, como gálio, grafite, manganês e terras raras, o domínio ultrapassa 90% da oferta global.

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Além da concentração no refino, mais da metade desses minerais já está sujeita a algum tipo de controle de exportação, o que reforça o caráter geopolítico do tema. Na prática, os dados indicam que os maiores fornecedores vêm ampliando sua participação de mercado, elevando a exposição dos países importadores a riscos de interrupções abruptas.

Esse cenário tem implicações diretas para a transição energética. Tecnologias consideradas centrais para a descarbonização, como baterias, painéis solares, turbinas eólicas, redes elétricas inteligentes e eletrolisadores para hidrogênio, dependem fortemente desses insumos minerais, muitos deles com oferta altamente concentrada.

Estocagem estratégica como apólice de seguro

Diante da dificuldade de desenvolver rapidamente novos projetos de mineração e refino, a AIE defende que o armazenamento estratégico de minerais críticos pode funcionar como uma apólice de seguro contra choques de curto prazo nas cadeias de suprimento.

A lógica é semelhante à dos estoques estratégicos de petróleo, criados após a crise de 1973. Desde então, os países membros da AIE coordenaram cinco liberações coletivas de petróleo para mitigar impactos econômicos de grandes interrupções, a mais recente em 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia.

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Embora os mercados de minerais sejam mais complexos e heterogêneos do que o de petróleo, a agência avalia que os estoques podem desempenhar papel relevante na proteção de indústrias, empregos e cadeias produtivas críticas, além de sinalizar aos mercados que restrições súbitas de oferta não precisam paralisar imediatamente os sistemas econômicos.

Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos já mantêm estoques estratégicos de minerais críticos, enquanto a China opera um modelo híbrido, com reservas sob gestão tanto estatal quanto privada.

Nem todos os minerais são iguais

Um dos principais desafios apontados pela AIE é que não existe uma solução única de estocagem. Cada mineral possui características próprias em termos de mercado, aplicação, forma física, transparência de preços, logística e riscos tecnológicos.

Alguns materiais, como cromo (essencial para aço inoxidável), titânio (ligas de alta resistência) e germânio (fibras ópticas), possuem poucas rotas de substituição, o que aumenta a vulnerabilidade das cadeias produtivas. Outros são obtidos como subprodutos, como o gálio (do zinco e alumínio), o telúrio (do cobre) e o germânio (do carvão e zinco), o que reduz a sensibilidade da oferta aos sinais de preço.

Além disso, certos minerais apresentam desafios relevantes de armazenagem. O hidróxido de lítio, por exemplo, é altamente sensível à umidade e possui prazo de validade de cerca de seis meses, enquanto o gálio possui ponto de fusão próximo à temperatura ambiente, exigindo controle térmico.

Modelo da AIE define critérios para priorização

Para orientar políticas públicas, a AIE desenvolveu a Estrutura de Avaliação de Estocagem de Minerais Críticos, que analisa mais de 30 minerais utilizados no setor energético e em tecnologias avançadas. O modelo considera quatro grandes dimensões:

  • Risco de fornecimento, incluindo concentração na mineração e no refino, volatilidade de preços e existência de restrições comerciais;
  • Disponibilidade de rotas alternativas, avaliando substituição tecnológica e dependência de subprodutos;
  • Importância estratégica, especialmente para setores como defesa, semicondutores e infraestrutura energética;
  • Viabilidade de estocagem, levando em conta propriedades físicas, segurança, prazo de validade e custos logísticos.

A partir dessa análise, países podem priorizar quais minerais devem compor seus estoques estratégicos, de acordo com suas vulnerabilidades específicas.

Governança: Estado, indústria ou modelo híbrido

A AIE identifica dois grandes modelos de governança: estoques detidos pelo governo e estoques detidos pela indústria. No primeiro, o poder público é proprietário e gestor direto das reservas. No segundo, empresas mantêm estoques adicionais além dos comerciais, com diferentes níveis de apoio estatal.

Há ainda modelos híbridos, nos quais o governo financia e detém o ativo, enquanto a indústria administra a logística. Esse formato busca combinar menor custo de financiamento, maior eficiência operacional e redução de perdas por depreciação.

Experiências internacionais mostram que o Japão opera seus estoques por meio da JOGMEC, a Coreia via KOMIR e PPS, e os Estados Unidos por meio da Agência de Logística de Defesa (DLA).

Custos são modestos frente aos riscos econômicos

Um dos achados mais relevantes do estudo da AIE é que os custos líquidos de estocagem são relativamente baixos quando comparados aos potenciais impactos econômicos de uma ruptura no fornecimento.

Para que todos os países da AIE mantivessem seis meses de importações de gálio, por exemplo, o custo operacional total seria de cerca de US$ 800 mil. Para ímãs permanentes de terras raras, esse valor sobe para US$ 90 milhões, e para hidróxido de lítio, chega a US$ 300 milhões.

Segundo a agência, os principais componentes do custo operacional são financiamento, armazenagem e desconto (perda de valor do material ao longo do tempo). Em geral, modelos estatais apresentam menor custo financeiro, enquanto modelos liderados pela indústria reduzem perdas por depreciação.

Cooperação internacional ganha centralidade

Além das políticas nacionais, a AIE defende que a coordenação internacional é fundamental para evitar distorções de mercado e ampliar a eficiência dos sistemas de estocagem. A compra conjunta de estoques, a agregação de demanda e a definição de critérios comuns para liberação dos materiais são apontadas como instrumentos-chave.

O Programa de Segurança de Minerais Críticos da AIE surge como uma plataforma estratégica para troca de informações, harmonização de políticas e apoio à diversificação global das cadeias de suprimento.

Ao final do estudo, a agência propõe sete recomendações centrais, que incluem mapear gargalos nas cadeias de valor, priorizar materiais de maior risco, envolver a indústria no desenho dos sistemas e adotar modelos de governança flexíveis e adaptados à realidade de cada país.

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