Em Xangai, ministro de Minas e Energia defende cooperação Brasil–China para ampliar competitividade do primeiro leilão de armazenamento de energia e reforçar a segurança do SIN
O Brasil deu mais um passo na consolidação de uma política estruturada para o armazenamento de energia elétrica. Em agenda oficial na China, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, se reuniu nesta sexta-feira (23), em Xangai, com executivos da Huawei para discutir a ampliação da participação de empresas chinesas no leilão de baterias previsto para abril de 2026. O encontro teve como foco central os sistemas de armazenamento por baterias (Battery Energy Storage Systems – BESS), considerados peças-chave para a modernização do Sistema Interligado Nacional (SIN) e para a integração crescente de fontes renováveis intermitentes, como solar e eólica.
A iniciativa ocorre em um momento em que o setor elétrico brasileiro busca soluções estruturais para lidar com desafios operativos cada vez mais frequentes, como restrições de escoamento, vertimentos energéticos, curtailment e maior volatilidade dos preços no mercado de curto prazo. Nesse contexto, o armazenamento desponta como um dos principais vetores de flexibilidade sistêmica e segurança energética.
Leilão de baterias como instrumento de política energética
Durante a reunião, Silveira destacou que a entrada de grupos internacionais com forte capacidade tecnológica é estratégica para aumentar a competitividade do certame e estimular a inovação no setor elétrico brasileiro. O ministro ressaltou que a experiência acumulada por empresas chinesas no desenvolvimento e na implementação de grandes projetos de BESS pode contribuir para acelerar a curva de aprendizado do Brasil nesse segmento.
“A cooperação Brasil–China tem gerado resultados relevantes e pode contribuir ainda mais para o avanço do armazenamento de energia no país”, afirmou o ministro.
A fala ocorre no contexto de um leilão inédito no Brasil, que será voltado exclusivamente para novos sistemas de armazenamento de energia. O certame está desenhado para contratar potência de reserva, com início de suprimento previsto para agosto de 2028 e contratos com duração de dez anos. A modelagem busca atender a necessidades estruturais do sistema, especialmente em momentos de estresse operativo, picos de demanda e elevada penetração de fontes renováveis intermitentes.
Armazenamento como pilar da transição energética
Do ponto de vista técnico, os sistemas de armazenamento por baterias têm papel fundamental na transição energética, ao permitir o deslocamento temporal da energia, o controle de frequência, a regulação de tensão e a prestação de serviços ancilares. No caso brasileiro, também são vistos como instrumentos para reduzir custos sistêmicos associados a despacho térmico fora da ordem de mérito e mitigar gargalos na transmissão.
A expectativa do governo é que o leilão de baterias ajude a criar um mercado estruturado para BESS no país, com ganhos de escala, redução de custos e estímulo à nacionalização parcial da cadeia produtiva, a exemplo do que ocorreu nos últimos anos com a indústria solar e eólica.
Huawei e o interesse estratégico no Brasil
Como parte da agenda, Silveira visitou o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) da Huawei em Xangai, um dos maiores complexos de inovação do mundo, que reúne cerca de 30 mil pesquisadores. O espaço concentra pesquisas em áreas como semicondutores, redes sem fio, Internet das Coisas (IoT) e soluções digitais aplicadas ao setor elétrico e à transição energética.
Durante a visita, o ministro destacou o interesse do governo brasileiro em ampliar programas de intercâmbio acadêmico e científico e em firmar parcerias com o ecossistema de ciência e tecnologia chinês. A proposta envolve desde a formação de profissionais especializados até o desenvolvimento conjunto de soluções tecnológicas voltadas ao setor energético.
A estratégia está alinhada com o esforço do Ministério de Minas e Energia (MME) de atrair investimentos estrangeiros, ampliar a concorrência e consolidar o Brasil como um mercado relevante para tecnologias avançadas de armazenamento, com potencial de transferência de conhecimento e fortalecimento da base industrial nacional.
Brasil como hub de armazenamento na América Latina
Presente em mais de 170 países, a Huawei atua no Brasil há 28 anos e mantém escritórios, centro de distribuição e duas unidades fabris, localizadas em Jundiaí (SP) e Manaus (AM). A ampliação da presença da empresa e de outros grupos chineses no segmento de armazenamento pode posicionar o país como um hub regional de soluções BESS na América Latina.
Na avaliação de especialistas do setor, o sucesso do leilão de baterias será determinante para definir o ritmo de adoção dessas tecnologias no Brasil e para estabelecer uma nova camada de infraestrutura no sistema elétrico, com impactos diretos sobre a confiabilidade, a eficiência econômica e a competitividade do mercado de energia no médio e longo prazo.



