Relatório OMM–IRENA mostra que eventos extremos já afetam a oferta de energia limpa e elevam a demanda global, tornando o planejamento climático peça-chave para cumprir as metas da COP28
A transição energética global entrou definitivamente em uma fase em que o clima deixou de ser apenas pano de fundo e passou a atuar como variável central de desempenho, risco e oportunidade. Essa é a principal conclusão do relatório WMO–IRENA Year in Review: Climate-driven Global Renewable Energy Resources and Energy Demand, divulgado em janeiro de 2026 pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) e pela Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA). O estudo mostra que a variabilidade climática e os efeitos do aquecimento global já estão moldando, de forma concreta, a confiabilidade e a produtividade dos sistemas de energia renovável em todo o mundo.
O diagnóstico é contundente: 2024 foi o ano mais quente já registrado, com temperaturas globais cerca de 1,55°C acima dos níveis pré-industriais. Esse patamar não apenas alterou o potencial de geração solar, eólica e hidrelétrica em diversas regiões, como também impulsionou um aumento de 4% na demanda global de energia em relação à média histórica de 1991 a 2020. O fenômeno ocorre justamente em um momento em que a capacidade global instalada de fontes renováveis ultrapassou 4.400 GW, ampliando de forma inédita a interação entre clima e sistemas elétricos.
Clima como variável estrutural do setor elétrico
A terceira edição do relatório OMM–IRENA reforça que a expansão acelerada das energias renováveis ocorre em um ambiente climático cada vez mais instável. Ondas de calor mais frequentes, padrões irregulares de precipitação e eventos extremos estão afetando tanto a oferta quanto a demanda de energia, exigindo uma mudança profunda na forma como governos, reguladores e agentes do setor planejam a expansão da matriz elétrica.
A urgência desse novo olhar se conecta diretamente aos compromissos assumidos no Consenso dos Emirados Árabes Unidos, firmado na COP28, que estabelece como meta triplicar a capacidade global de energias renováveis e dobrar a eficiência energética até 2030. Segundo o relatório, atingir esses objetivos sem incorporar informações climáticas de forma sistemática ao planejamento energético pode ampliar riscos operacionais e comprometer a segurança do suprimento.
A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, define o atual cenário como uma quebra de paradigma na gestão de ativos renováveis. Segundo a executiva, o avanço das temperaturas globais força o setor a abandonar visões puramente históricas para adotar o clima como uma variável de operação em tempo real.
“A variabilidade climática deixou de ser uma consideração secundária para o setor energético — tornou-se um fator operacional determinante”, afirmou. Celeste pondera que, com a expansão da matriz limpa, a confiabilidade do suprimento torna-se indissociável de sistemas de monitoramento atmosférico e alertas precoces.
Contrastes regionais e pressão sobre a oferta
O relatório analisa o desempenho energético de 2024 a partir de quatro indicadores principais: fatores de capacidade de energia solar e eólica, um indicador hidrelétrico baseado na precipitação e um indicador de demanda derivado da temperatura. A partir dessa metodologia, o estudo revela fortes contrastes regionais, impulsionados pela combinação entre os efeitos residuais do El Niño, o aquecimento recorde dos oceanos e a tendência de aquecimento de longo prazo.
Na África Austral, por exemplo, os fatores de capacidade eólica cresceram entre 8% e 16%, enquanto a geração solar apresentou avanços de 2% a 6%. Em contrapartida, a energia hidrelétrica permaneceu abaixo da média pelo terceiro ano consecutivo, ao mesmo tempo em que a demanda energética atingiu níveis recordes. Já no Sul da Ásia, o cenário foi de déficits no desempenho da geração eólica e solar, acompanhados por um salto expressivo na demanda por eletricidade para refrigeração, com anomalias mensais que chegaram a cerca de 16% em outubro.
A África Oriental apresentou um quadro distinto, com anomalias positivas na geração hidrelétrica em função de chuvas acima da média. Em contraste, partes da América do Sul enfrentaram simultaneamente redução da produção hidrelétrica e elevação da demanda, em um ambiente marcado por seca prolongada e calor intenso, combinação que expõe a vulnerabilidade de sistemas fortemente dependentes de recursos hídricos.
Previsões sazonais ganham protagonismo no planejamento
Um dos avanços mais relevantes do relatório é a avaliação inédita da precisão das previsões climáticas sazonais aplicadas a indicadores energéticos. Segundo a OMM e a IRENA, modelos como os do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF) demonstraram capacidade de antecipar, com meses de antecedência, anomalias regionais tanto no potencial de geração solar quanto na demanda por eletricidade.
As previsões emitidas no início do verão de 2024, por exemplo, sinalizaram corretamente uma demanda excepcionalmente elevada e um desempenho solar abaixo da média em grande parte da África. Para o setor elétrico, esse tipo de informação representa uma ferramenta estratégica, capaz de apoiar decisões de gestão de carga, operação de reservatórios, planejamento de infraestrutura e até o comércio transfronteiriço de energia, reduzindo a volatilidade de oferta e demanda.
Impactos para políticas públicas e investimentos
À medida que países revisam suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e elaboram Estratégias de Desenvolvimento de Baixas Emissões de Longo Prazo (LT-LEDS), o relatório destaca a necessidade de fortalecer a integração entre ciência climática e planejamento energético. Isso inclui investimentos em sistemas de dados e observação, expansão de serviços climáticos regionais, adoção de sistemas de alerta precoce e incorporação sistemática de previsões sazonais nos processos decisórios.
O diretor-geral da IRENA, Francesco La Camera, argumenta que a variável climática tornou-se um componente crítico para a bancabilidade e segurança dos ativos de energia. Segundo o executivo, o avanço das renováveis exige que o setor saia de uma visão teórica de capacidade para uma análise de entrega real sob estresse ambiental.
“A transição energética global é inevitável, mas deve estar ancorada na realidade climática”, afirmou. La Camera ressalta ainda que, compreender essa variabilidade é fundamental para garantir que a capacidade renovável, em rápida expansão, entregue energia confiável em condições climáticas reais.
Um novo patamar de maturidade para a transição energética
Ao integrar meteorologia, planejamento energético e análise de demanda, o relatório OMM–IRENA sinaliza um novo estágio de maturidade da transição energética global. O desafio não é apenas expandir a capacidade instalada, mas assegurar que os sistemas de energia limpa sejam resilientes, confiáveis e capazes de operar em um ambiente climático cada vez mais extremo.
Nesse sentido, a variabilidade climática deixa de ser apenas um risco e passa a ser também uma oportunidade: a de construir sistemas elétricos mais inteligentes, flexíveis e preparados para um futuro em que clima e energia estarão, de forma definitiva, profundamente interligados.



