Energia é restabelecida em Copacabana e no Leme após quase três dias de apagão e reacende debate sobre segurança da rede subterrânea

Furto de cabos leva distribuidora a recorrer a geradores e expõe vulnerabilidade de infraestrutura crítica em área de alta densidade de carga no Rio de Janeiro

A interrupção no fornecimento de energia elétrica que atingiu trechos de Copacabana e o bairro do Leme, na Zona Sul do Rio de Janeiro, teve desfecho apenas nesta segunda-feira, após quase 72 horas de apagão. A concessionária Light informou que o serviço foi normalizado com o auxílio de geradores instalados de forma emergencial, medida adotada para mitigar os efeitos da falta de eletricidade enquanto avançavam os reparos na rede subterrânea. Segundo a empresa, o motivo da ocorrência foi o furto de cabos do sistema de distribuição instalado abaixo do solo, modalidade de infraestrutura que concentra parte relevante da carga na capital fluminense.

O episódio, embora localizado, ganhou repercussão nacional por envolver uma das áreas urbanas mais intensivas em consumo do país e por evidenciar riscos não convencionais ao setor de distribuição de energia. Diferentemente dos apagões associados a eventos climáticos extremos, como tempestades, ventos fortes e ondas de calor em dezembro, a crise atual teve origem em ação criminosa, o que desloca o foco para temas como proteção patrimonial, monitoramento de ativos e cooperação com órgãos de segurança pública.

Rede subterrânea: benefícios e desafios operacionais

As redes subterrâneas de energia elétrica são tradicionalmente associadas a maior confiabilidade, menor exposição visual e redução de desligamentos por interferências externas. Em bairros como Copacabana, onde a densidade de consumidores de baixa tensão e de estabelecimentos comerciais é elevada, esse modelo cumpre papel central para a qualidade do serviço. Contudo, a manutenção e a reposição de componentes exigem processos técnicos mais complexos do que aqueles aplicados às redes aéreas.

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O uso de geradores como solução provisória demonstra a flexibilidade operativa das distribuidoras, mas também indica custos adicionais relevantes. A mobilização envolve logística, adequação às normas da Aneel para continuidade do serviço público essencial e comunicação intensiva com consumidores corporativos e residenciais. A Light precisou priorizar circuitos que atendem hospitais, hotéis, data centers de menor porte, estações de bombeamento de água e comunidades em situação de vulnerabilidade social, nas quais a ausência de energia elétrica compromete inclusive o abastecimento hídrico.

Especialistas do setor elétrico observam que o Brasil passa por mudança no perfil da carga, com picos concentrados no fim da tarde em razão da inserção massiva de painéis solares e de fontes intermitentes no ACL e na baixa tensão. Ainda que essa dinâmica não tenha relação direta com o furto de cabos, ela torna áreas como a Zona Sul do Rio ainda mais sensíveis a qualquer falha estrutural.

Impacto social e econômico em pleno mês de alta demanda

Dezembro e início de janeiro costumam registrar aumento expressivo do consumo de energia elétrica em função do calor, do turismo e do maior uso de aparelhos de refrigeração. Mesmo sob bandeira tarifária amarela, que teoricamente alivia parte da pressão de custos, consumidores permanecem atentos ao risco de elevação na fatura e à necessidade de eficiência energética. Um apagão prolongado nesse período gera efeitos em cadeia: perda de alimentos, suspensão de atividades comerciais, queda na produtividade e insegurança para moradores.

No caso de Copacabana e do Leme, a situação foi agravada pelo atendimento parcial via geradores, o que limita potência disponível e não substitui integralmente a energia firme proveniente das subestações subterrâneas. A Defensoria Pública havia ingressado anteriormente com ação cobrando rapidez e transparência, e o restabelecimento tardio reforça críticas à resposta institucional das concessionárias diante de eventos críticos.

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Debate sobre segurança de ativos e curtailment da distribuição

O setor elétrico brasileiro discute há anos mecanismos para reduzir perdas técnicas e não técnicas nas distribuidoras. O furto de cabos subterrâneos representa uma forma aguda de perda não técnica, com potencial de provocar um “curtailment” forçado da distribuição, ao impedir que a energia gerada e contratada chegue ao consumidor final. A reposição demanda investimento em equipamentos, reforços de rede e sistemas digitais de supervisão e controle semelhantes aos utilizados em grandes usinas como Itaipu e Belo Monte.

Para enfrentar esse tipo de ameaça, gestores defendem ampliação do monitoramento remoto, integração com centros de operação, adoção de medidores inteligentes e rastreabilidade de materiais. A experiência internacional mostra que mercados como o Texas, operado pelo ERCOT, têm investido pesado em resiliência justamente para atender grandes consumidores corporativos e data centers de tecnologia.

Governança, fiscalização e reflexos regulatórios

Embora a motivação criminosa atenue parte da responsabilidade direta da distribuidora, o episódio tende a produzir reflexos regulatórios. A Aneel poderá avaliar indicadores de continuidade como DEC e FEC, bem como custos extraordinários a serem reconhecidos em processos de revisão tarifária. O debate também alcança o papel do poder concedente na proteção de infraestrutura crítica e na necessidade de políticas públicas específicas para redes subterrâneas em capitais brasileiras.

Decisões judiciais e pressão pública costumam influenciar exigências adicionais de investimentos em modernização, contingência operacional e comunicação ativa com a sociedade. Para o público especializado, o caso se torna um exemplo concreto de que a confiabilidade do sistema de distribuição não depende apenas de aspectos elétricos e de confiabilidade, mas também de fatores estruturais e de segurança patrimonial.

Próximos passos e lições para o setor

Com a energia restabelecida em Copacabana e no Leme, o desafio passa a ser a reconstrução definitiva dos circuitos furtados e a prevenção de novos ataques. O fortalecimento da confiabilidade das distribuidoras, a digitalização das redes, a separação clara entre TE e TUSD e a busca por eficiência energética na baixa tensão devem voltar ao centro da agenda em 2026 e 2027.

Para o setor elétrico brasileiro, a lição é inequívoca: em um mercado em transição, com abertura do mercado livre, crescimento das renováveis e consumidores corporativos cada vez mais sofisticados, qualquer fragilidade na distribuição de energia elétrica assume dimensão estratégica. A rede subterrânea, símbolo de modernidade urbana, precisa também se tornar referência em proteção, governança e integração institucional.

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