Mapeamento detalhado de pegmatitos no Rio Grande do Norte e na Paraíba identifica ocorrência de lítio, terras raras e outros minerais estratégicos para a indústria de energia, tecnologia e mobilidade elétrica
O avanço da transição energética global tem colocado os minerais críticos e estratégicos no centro das políticas industriais, energéticas e geopolíticas. Nesse contexto, um novo estudo do Serviço Geológico do Brasil (SGB) lança luz sobre o potencial mineral do Nordeste brasileiro e reforça a relevância da região para o fornecimento de insumos essenciais à descarbonização da economia.
O SGB concluiu o projeto “Avaliação do Potencial dos Pegmatitos dos estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba”, que sistematiza informações geológicas, geoquímicas e econômicas sobre uma das áreas mais tradicionais, e ao mesmo tempo menos exploradas sob a ótica da transição energética, do país. O trabalho identificou um expressivo conjunto de dados sobre a ocorrência de lítio, terras raras e outros minerais estratégicos, além de rochas ornamentais e minerais industriais.
Pegmatitos e a nova geopolítica dos minerais
Os estudos se concentraram em quatro polos: Currais Novos, Parelhas e Tenente Ananias, no Rio Grande do Norte, e Picuí, na Paraíba. As áreas fazem parte da Província Pegmatítica da Borborema (PPB) e do Distrito Pegmatítico de Tenente Ananias (DPTA), regiões historicamente conhecidas pela produção mineral, mas que ganham nova relevância diante da demanda global por matérias-primas associadas à eletrificação, armazenamento de energia e tecnologias digitais.
Ao todo, foram identificados mais de 4,7 mil corpos pegmatíticos, número que pode ultrapassar 7 mil ocorrências com o avanço das avaliações. Esse volume evidencia o potencial ainda pouco explorado da região e cria bases técnicas mais sólidas para investimentos, planejamento público e estruturação da cadeia produtiva mineral.
Minerais estratégicos para energia e alta tecnologia
Valdir Silveira, diretor de Geologia e Recursos Minerais do SGB, situa os novos resultados dentro de um contexto de continuidade e evolução produtiva. “Essa é uma área extremamente relevante no que diz respeito à produção de bens minerais. Há décadas que se produz minerais importantes, considerados hoje críticos para transição energética, para segurança alimentar, para a indústria de uma maneira geral”.
A declaração destaca um ponto central do debate energético contemporâneo: a transição para fontes renováveis, mobilidade elétrica e sistemas de armazenamento depende não apenas de geração limpa, mas também de acesso seguro a minerais estratégicos.
Diversidade mineral e aplicações industriais
O pesquisador Eugênio Pacelli, responsável pela condução do projeto, detalha a diversidade mineral identificada nas áreas estudadas. Ao apresentar os resultados técnicos, ele explica que “as zonas estudadas têm grande variedade de minerais, como berilo, granada, columbita, tantalita, espodumênio, turmalina e fosfato de lítio”.
Pacelli amplia o escopo da análise ao situar os pegmatitos no centro da corrida global por minerais críticos. “Além desses minerais, os pegmatitos são importantes por terem lítio e terras raras. Os minerais que ocorrem nessas zonas possuem grande importância econômica”. Ele detalha ainda aplicações industriais tradicionais e de alto valor agregado, lembrando que “o feldspato, na forma de caulim, é utilizado na fabricação de cerâmica; o quartzo em relógios e inúmeras outras aplicações, mais ainda são formadas pedras preciosas, como turmalina paraíba, a água-marinha e o berilo”.
Base material da transição energética e digital
Ao analisar a geologia sob a ótica da economia de alto valor agregado, Pacelli destaca que o pegmatito deixou de ser um interesse puramente acadêmico para se tornar um ativo estratégico. Para o especialista, a rocha é o ponto de partida para a viabilização de tecnologias disruptivas que definem o consumo e a segurança global hoje.
“Hoje a grande busca por pegmatito se deve ao fato de ocorrerem nessas rochas minerais raros e de grande uso na indústria de uma forma geral. Celulares, notebooks, aviões, carros elétricos, material bélico e inúmeras invenções só existem devido a esses minerais, e por tabela, devido aos pegmatitos”, afirma.
A fala evidencia como a discussão sobre transição energética extrapola o setor elétrico e passa a envolver cadeias industriais complexas, que vão da mineração responsável à manufatura avançada.
Informação técnica como indutora de desenvolvimento
Além do levantamento geológico, o projeto gerou uma série de produtos técnicos voltados ao mercado e ao poder público. Foram publicados um Informe de Recursos Minerais, quatro mapas simplificados de potencial mineral e um vídeo descritivo, todos disponíveis no Repositório Institucional de Geociências (RiGeo). Também está em desenvolvimento um painel interativo (dashboard), com lançamento previsto para 2026, que incluirá novos dados e análises geoquímicas do polo de Tenente Ananias.
O Informe de Recursos Minerais nº 44, da série Rochas e Minerais Industriais do SGB, apresenta uma listagem de mais de 1,7 mil jazimentos minerais nos dois estados, além de imagens aéreas georreferenciadas e dados sobre potencial para rochas ornamentais.
Impactos para o setor energético e mineral
Para o setor elétrico e energético, o estudo do SGB reforça o papel do Brasil como potencial fornecedor global de minerais críticos, em um momento em que a segurança das cadeias de suprimento se torna estratégica. Ao oferecer dados técnicos robustos, o trabalho contribui para reduzir riscos exploratórios, apoiar pequenos e médios mineradores e orientar políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável.
Diante da aceleração da transição energética global, iniciativas dessa natureza estreitam a sinergia entre a geociência e a base industrial de alta tecnologia. O movimento consolida o Nordeste como um hub estratégico e indispensável na estruturação da nova economia de baixo carbono.



