Avanço do pré-sal impulsiona oferta, reduz importações e evidencia desafios estruturais da Nova Lei do Gás diante da queda da demanda industrial e térmica
A produção de gás natural no Brasil alcançou níveis históricos em 2025, impulsionada pela expansão do pré-sal e pelo aumento da eficiência operacional das plataformas em atividade. No entanto, o avanço da oferta ocorre em um contexto paradoxal: enquanto a produção cresce de forma consistente, o consumo interno recua, sobretudo nos segmentos industrial e termelétrico. O descompasso entre oferta e demanda reforça os desafios estruturais do mercado brasileiro de gás natural, mesmo após a implementação da Nova Lei do Gás e dos esforços de abertura do setor.
De acordo com o Boletim do Gás Natural nº 3, divulgado nesta terça-feira (17/12) pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), a produção média nacional atingiu 190,1 milhões de metros cúbicos por dia (MMm³/dia) no terceiro trimestre de 2025. O volume representa um crescimento de 18,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. Em julho, o país registrou um recorde histórico, com 190,9 MMm³/dia, dos quais 63,8 MMm³/dia foram efetivamente disponibilizados ao mercado, o maior patamar já observado.
Pré-sal sustenta crescimento da produção nacional
O desempenho recorde da produção brasileira de gás natural está diretamente associado à entrada em operação de novas plataformas no pré-sal e à melhoria da eficiência dos sistemas já instalados. Nos últimos anos, os investimentos em desenvolvimento da produção offshore permitiram não apenas elevar os volumes extraídos, mas também reduzir perdas operacionais e gargalos logísticos na etapa de escoamento.
Esse movimento teve como efeito imediato a diminuição da dependência de importações, especialmente do gás boliviano e do GNL (gás natural liquefeito), historicamente utilizados para complementar a oferta doméstica. Do ponto de vista da segurança energética, o aumento da produção nacional representa um avanço relevante, ao ampliar a autonomia do país em um insumo estratégico para a indústria, o setor elétrico e a transição energética.
Consumo interno recua apesar da maior oferta
Apesar do cenário positivo do lado da produção, os dados do Ineep mostram que a demanda doméstica não acompanhou o mesmo ritmo. Entre janeiro e setembro de 2025, a produção média nacional ficou em 172 MMm³/dia, crescimento de 16,5% na comparação anual. No mesmo período, porém, o consumo industrial, principal destino do gás natural no Brasil, apresentou retração de 3,9%.
A queda é ainda mais expressiva no segmento de geração termelétrica. O uso do gás para fins térmicos recuou mais de 20%, refletindo a menor necessidade de despacho das usinas, em um contexto de maior disponibilidade hídrica e participação crescente de fontes renováveis, como eólica e solar. Para o setor elétrico, esse comportamento reforça a natureza cíclica da demanda térmica e os desafios de viabilizar projetos de gás natural em um sistema cada vez mais renovável e intermitente.
Abertura do mercado e limites da Nova Lei do Gás
O Boletim do Ineep chama atenção para o fato de que o aumento da produção não foi acompanhado por ganhos estruturais de eficiência no mercado. A expectativa de que a abertura do setor resultaria em preços mais competitivos e maior dinamismo da demanda ainda não se concretizou de forma plena.
Ao avaliar a eficácia do arcabouço normativo, o Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) examina o hiato entre as premissas da abertura e a realidade operacional do setor. De acordo com a análise, o pilar central da reforma visava a desverticalização e a pluralidade de fornecedores. “A Nova Lei do Gás estabeleceu bases para que consumidores pudessem contratar diretamente o suprimento junto a produtores e comercializadores, sob a justificativa de ampliar a concorrência, atrair novos agentes e reduzir o preço final do insumo”.
O balanço do Ineep, contudo, expõe um ceticismo agudo em relação à efetividade das reformas. “Contudo, cinco anos após o lançamento do programa e dois após o início do Gás para Empregar, os avanços permanecem limitados. A proposta de liberalização convive com gargalos logísticos e disputas regulatórias, associadas a um modelo gestado entre 2016 e 2022, que restringe a capacidade de coordenação estatal sobre a cadeia de gás natural”.
Gargalos logísticos e desafios regulatórios persistem
Entre os principais entraves apontados por especialistas estão a concentração da infraestrutura de transporte, a assimetria de informações entre agentes e as dificuldades de acesso não discriminatório aos gasodutos. Esses fatores limitam a efetiva competição no mercado e reduzem o potencial de expansão do consumo, especialmente na indústria, que enfrenta preços ainda elevados em comparação a outros mercados internacionais.
Além disso, a queda do consumo térmico reacende o debate sobre o papel do gás natural na matriz elétrica brasileira. Embora seja considerado um combustível de transição, capaz de oferecer flexibilidade e segurança ao sistema, sua viabilidade econômica depende de um desenho regulatório que equilibre sinalização de preço, contratos de longo prazo e coordenação com o planejamento energético.
Um mercado em expansão, mas ainda desconectado da demanda
O recorde de produção de gás natural em 2025 evidencia a capacidade técnica e operacional do país, especialmente no pré-sal. No entanto, a retração do consumo interno e as limitações da abertura de mercado indicam que o desafio do setor não está mais na oferta, mas na estruturação de um mercado funcional, competitivo e integrado às necessidades da indústria e do setor elétrico.
Para analistas, o cenário reforça a necessidade de ajustes regulatórios, maior coordenação institucional e políticas que estimulem o uso do gás natural de forma estratégica, inclusive como complemento à expansão das fontes renováveis. Sem isso, o Brasil corre o risco de conviver com abundância de oferta e subutilização de um recurso-chave para o desenvolvimento econômico e a transição energética.



