Estudo revela avanço limitado da reciclagem tradicional e destaca potencial inexplorado da reciclagem bioenergética, capaz de impulsionar geração de energia renovável e substituir parte do gás natural no país
O Brasil ainda aproveita uma parcela pequena do seu enorme potencial de geração de energia renovável a partir de resíduos sólidos urbanos (RSU). Segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, publicado pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (ABREMA), apenas 11,7% dos resíduos gerados em 2024 foram convertidos em insumos energéticos, como eletricidade por biogás e biometano. Embora o índice represente um avanço, ele evidencia um volume expressivo de oportunidades ainda não exploradas pela gestão pública e pelo setor energético.
O relatório, divulgado em 8 de dezembro, apresenta uma análise detalhada da geração, destinação, reciclagem e reaproveitamento energético dos resíduos no país. Os dados reforçam tendências já diagnosticadas pelo setor: baixa eficiência da reciclagem tradicional, forte dependência do trabalho informal, resistência persistente dos lixões e potencial massivo ainda pouco aproveitado para produção de biometano e energia elétrica.
Reciclagem bioenergética cresce, mas ainda está longe do potencial nacional
Uma das principais novidades da edição 2025 é a inclusão da análise detalhada sobre “reciclagem bioenergética”, categoria que considera o reaproveitamento de resíduos orgânicos de origem animal e vegetal, como restos de alimentos ou resíduos de poda, para produção de energia e combustíveis renováveis.
Segundo o estudo, 6,57 milhões de toneladas de resíduos orgânicos foram utilizados em 2024 para geração de eletricidade por meio do biogás, correspondendo a 8% dos resíduos produzidos. Outras 2,6 milhões de toneladas (3,2%) foram destinadas à produção de biometano, hoje considerado um dos principais combustíveis estratégicos para a transição energética global.
O presidente da ABREMA, Pedro Maranhão, contextualizou o cenário, destacando a magnitude do potencial energético brasileiro a partir de resíduos orgânicos. Ele reforçou a importância do biometano como vetor de energia limpa e recurso abundante, traçando um paralelo sobre a posição estratégica do país.
“Os dados mostram o quanto o Brasil ainda tem espaço para aumentar a geração de energia sustentável. Cada aterro sanitário é como um poço de petróleo verde e ecológico, com quantidades inesgotáveis para geração do que já é chamado como combustível do futuro. O Brasil pode ser para a geração de energia sustentável o que a Arábia Saudita é hoje para o combustível fóssil”, afirma.
Projeções elaboradas pela ABREMA mostram que, se todas as cidades com mais de 320 mil habitantes dispusessem de plantas de biometano, o país poderia atingir uma produção mínima de 2,86 milhões de Nm³/dia, volume 525% superior à capacidade atualmente autorizada.
Com maior eficiência operacional e aproveitamento da infraestrutura já existente, o biometano brasileiro poderia suprir cerca de 5% da demanda nacional por gás natural, estimada pelo Ministério de Minas e Energia (MME) em 58,4 milhões de Nm³/dia.
Geração de resíduos cresce e pressão sobre municípios aumenta
Em 2024, a população brasileira gerou 81,6 milhões de toneladas de RSU, aumento de 0,75% em relação ao ano anterior. A quantidade equivale a 384 quilos de resíduos por pessoa, ou aproximadamente 1 kg por dia.
Apesar do volume elevado de geração, a destinação adequada ainda é desigual no país. O índice de coleta é alto, 93,7% do total de resíduos produzidos, mas a etapa seguinte do manejo ainda apresenta graves falhas estruturais.
Destinação final: melhora tímida e permanência dos lixões
O Panorama aponta que 28,1 milhões de toneladas de resíduos ainda foram enviados a lixões ou destinos inadequados em 2024, o equivalente a 40,3% do total coletado, mesmo após a proibição nacional de aterros irregulares em agosto de 2024.
Já o volume destinado corretamente a aterros sanitários licenciados chegou a 41,6 milhões de toneladas, ou 59,7% dos resíduos coletados. O índice indica melhora em relação a 2023, com cerca de 1 milhão de toneladas adicionais encaminhadas para locais adequados.
Apesar do avanço, a distribuição regional revela um cenário desigual. Sudeste (71,3%) e Sul (69%) apresentam os melhores resultados. Na outra ponta, a região Norte destinou apenas 38,7% dos resíduos coletados a aterros sanitários.
Ao analisar o panorama da gestão de resíduos, Pedro Maranhão alertou para a persistência da destinação irregular, mesmo após a entrada em vigor das normas nacionais. Ele reforçou o impacto na saúde pública e o potencial de transformação desses passivos em ativos.
“No ano em que o Brasil proibiu todas as formas de destinação irregular dos resíduos coletados nos municípios, ainda estimamos a existência de quase 3 mil lixões que recebem passivos ambientais que colocam a saúde pública em risco, mas que poderiam se tornar ativos econômicos para o país”, destaca.
Reciclagem tradicional continua limitada e sustentada pelo trabalho informal
A reciclagem mecânica, que inclui plásticos, metais, vidros e papéis, registrou leve avanço em 2024, chegando a 7,1 milhões de toneladas, o equivalente a 8,7% dos resíduos gerados. O resultado, porém, continua distante das metas e da média internacional.
A predominância do trabalho informal continua sendo uma marca estruturante da reciclagem no país. Do total reciclado, 64,8% foi coletado por catadores autônomos, enquanto apenas 35,2% se deu por meio da coleta seletiva municipal.
Para Maranhão, o dado reforça a urgência de políticas que integrem os trabalhadores informais às cadeias de valor. “Novamente se repete a realidade em que quase dois terços dos resíduos enviados para reciclagem no Brasil são coletados por catadores autônomos, enquanto apenas um terço é encaminhado por serviços públicos regulares. Isso mostra o tamanho do trabalho informal no cenário de reciclagem brasileiro e a importância de incluir esses trabalhadores nas discussões sobre políticas públicas a respeito do tema”.
Queima irregular persiste e agrava riscos ambientais
O levantamento mostra ainda que 4,4 milhões de toneladas de resíduos, 5,4% do total, foram queimadas a céu aberto, sobretudo em áreas rurais sem coleta regular. A prática é ilegal e causa impactos severos na saúde e no meio ambiente.
Diante desse cenário, Maranhão reforça a necessidade de atuação conjunta entre governos, órgãos de controle e sociedade civil. “A ABREMA, com o apoio dos Ministérios Públicos Federal e dos estados e dos Tribunais de Contas de todo o país, está avançando nas negociações com prefeituras para o encerramento de lixões. Mas, como mostram os dados do Panorama 2025, apesar de avanços, há um longo caminho a percorrer. Não vamos eliminar essa chaga medieval da nossa sociedade sem o amplo apoio de gestores públicos de todo o país e da própria sociedade civil. Leis e diretrizes para isso já existem, o que precisamos é cumprimento daquilo que é direito de toda a sociedade”.



